Capítulo 1: O Brinde de Vidro e Ouro
O salão de eventos do Renaissance, na região da Avenida Paulista, reluzia sob o reflexo dos lustres de cristal. O som dos talheres de prata tocando as taças de cristal criava uma música de fundo que se misturava ao burburinho de vozes contidas. Era a festa de fim de ano da Gloss Moda, mas, acima de tudo, era a celebração de mais um marco histórico: o prêmio internacional conquistado pela equipe de marketing digital.
A Gloss Moda estava no topo. Em primeiríssima linha internacional. E aquilo, para a mulher que comandava o império, era motivo para uma comemoração de gala, contanto que tudo seguisse o seu rigoroso roteiro.
No centro do palco montado no salão, Glória se posicionava com a elegância gélida que lhe era peculiar. Vestia um discreto vestido de alfaiataria escuro, sem um único fio de cabelo fora do lugar em seu coque impecável. Todos os funcionários a conheciam por ser dedicada e extremamente calculista. Para Glória, a empresa não era apenas um negócio; era o legado de uma grande família renomada que ela herdara do falecido marido e que protegia com unhas e dentes. Ela não admitia erros. Um deslize milimétrico na produção ou no marketing era o suficiente para colocar uma carreira inteira a perder.
Trabalhar na Gloss Moda era o sonho de consumo de dez entre dez profissionais do mercado de São Paulo. O salário era ótimo, os benefícios eram generosos e a possibilidade de uma promoção de destaque brilhava nos olhos de qualquer um que cruzasse aquelas portas de vidro na Paulista. Havia, contudo, um preço alto a se pagar pela estabilidade daquela conta bancária recheada.
Um "troço" que pairava sobre a cabeça de todos como uma espada de Dâmocles: a proibição absoluta de qualquer relacionamento amoroso entre funcionários.
A regra era clara, antiga e reforçada após um escândalo no passado que quase levou o nome da marca à lama pública. Ao entrar na empresa, cada colaborador assinava um contrato com uma cláusula leonina. Se dois funcionários fossem descobertos em algum envolvimento que não fosse um casamento formal e comprovado no papel, a punição vinha sem anestesia: demissão por justa causa, perda de todos os direitos e a destruição imediata de tudo o que haviam conquistado ali dentro. Nas viagens corporativas, onde a Gloss Moda pagava tudo do bom e do melhor — hotéis cinco estrelas, passagens na classe executiva e jantares sofisticados —, o rigor era ainda maior. Antes de embarcar, um novo termo de compromisso era assinado. O preço da paixão era a ruína profissional.
A única exceção aceita pela cartilha de Glória era o matrimônio oficializado. Se entrassem casados, o contrato de proibição era inválido para o casal. Mas começar um romance ali dentro? Ninguém ousava. O dinheiro no bolso e o status falavam muito mais alto do que qualquer flerte de corredor.
— Um brinde ao futuro! — a voz de Glória ecoou pelo sistema de som, firme, arrancando palmas imediatas de todo o salão.
A viúva desceu os pequenos degraus do palco com passos medidos. Ela caminhou em direção à mesa principal da equipe de marketing digital. Jhon Almeida estava ali, ajustando o paletó de corte moderno, com um sorriso contido nos lábios. Ele era o cérebro por trás da campanha premiada, o homem de confiança que transformava metas impossíveis em relatórios de sucesso.
Glória aproximou-se e estendeu a mão para ele. O aperto de mão foi firme, quase um pacto silencioso de eficiência.
— Parabéns, Jhon. Seu foco é o que move esta empresa para frente — disse Glória, olhando-o nos olhos com sua habitual expressão analítica. Em seguida, ela se virou ligeiramente, erguendo a taça para que todos no meio do salão pudessem ouvi-la. — Em breve haverá uma mudança naquele meio. Será uma nova etapa para a Gloss Moda, e eu espero que cada um de vocês esteja pronto para acompanhar o ritmo.
O anúncio misterioso plantou uma semente de curiosidade no ar. Os funcionários se entreolharam, tentando decifrar o enigma das palavras da chefe. Jhon apenas assentiu, mantendo a postura impecável de quem sabia que, independentemente do que mudasse, ele estaria na linha de frente.