O chão do quarto de Kássia estava tomado. A mala de rodinhas preta, aberta como uma boca faminta, parecia pequena demais para a quantidade de dúvidas que ela acumulava na mente. Peça por peça, ela dobrava seus terninhos escuros, as calças de alfaiataria cinza e os blazers sociais estruturados que usava religiosamente de segunda a sexta-feira no 12º andar.
Olhando para aquele mar de roupas sóbrias, Kássia sentiu um aperto no peito. Ela não fazia a menor ideia de como seria, na prática, aquela rotina em Roma. Desde que entrara na Gloss Moda, nunca havia viajado a trabalho, muito menos para passar quase um mês inteiro fora do país. Suas únicas referências de viagens internacionais vinham de relatos de colegas de faculdade ou de amigas que trabalhavam em outras grandes corporações.
Pensando nisso, ela pegou o celular. Sabia que não podia vacilar no figurino. Naquele ambiente corporativo tão agressivo, a imagem era a primeira linha de defesa. Para sua sorte, Simone — que além de sua supervisora na produção era sua confidente de todas as horas — conhecia os bastidores dos grandes eventos e não demorou a responder suas dúvidas pelo w******p.
O visor do celular acendeu com a mensagem de Simone:
"Amiga, nada muito sensual para os dias de cursos e palestras. Algo bem básico e elegante. Suas calças de linho com aqueles tênis brancos casuais servem perfeitamente para os dias de correria. Mas atenção: haverá um evento único, uma festa de gala no final da viagem. E para esse dia, não se preocupe. Vou te emprestar o vestido e o salto que você vai usar. É perfeito para a ocasião, não precisa de nada espalhafatoso, te juro. Deixa comigo!"
Kássia soltou o ar que nem sabia que estava prendendo e sorriu, sentindo-se um pouco mais animada. Encarar uma viagem internacional de negócios ao lado de Jhon, o homem que ela considerava o maior bajulador de Glória, já seria um teste de resistência psicológica. Ter que se preocupar em gastar uma fortuna em roupas de grife para não parecer inferior à ala soberba do marketing seria o limite. Saber que podia contar com Simone trazia um alívio genuíno.
Ela largou o celular na cabeceira. Com a mala ainda pela metade e as roupas espalhadas, Kássia se permitiu desabar na cama. Deitou de costas, cruzando os braços atrás da cabeça, e fixou os olhos no teto branco do quarto.
O silêncio do apartamento a fez pensar na própria vida. Fazia tanto tempo que ela não saía com as amigas para simplesmente curtir a noite de São Paulo, beber sem se preocupar com o despertador ou dançar até os pés doerem. Desde a traição do ex-noivo, ela havia se trancado em uma rotina quase robótica: de casa para o trabalho, do trabalho para casa. A Gloss Moda havia se tornado seu mundo inteiro.
Mas aquela promoção para a gerência de produção, apesar de todo o estresse e das fofocas de corredor, era a sua grande chance de virar o jogo. Kássia fechou os olhos por um segundo, fazendo as contas mentalmente. Com o bônus internacional daquele projeto em Roma e o novo patamar salarial, ela finalmente conseguiria realizar o sonho de trocar aquele apartamento pequeno por um espaço melhor. Mais do que isso: conseguiria fornecer melhorias financeiras, conforto e uma vida mais tranquila para sua mãe, que sempre se sacrificara por ela.
Respirou fundo, sentindo um alívio reconfortante invadir o peito. Ela tinha pouco tempo na empresa se comparada ao queridinho da Glória. Jhon Almeida tinha anos de casa, uma história consolidada no 14º andar e a confiança cega da diretoria. Mas Kássia não se intimidava. Ela deixaria o seu próprio nome registrado na história daquela empresa, mostrando o valor inestimável da produção, nem que essa fosse a última coisa que ela fizesse na vida.
Com a determinação renovada, ela se sentou na cama e voltou a organizar a mala. Roma a esperava, e ela entraria naquela arena pronta para vencer.