Rose Moreau
Hoje é o jantar.
Só de pensar nisso, o meu estômago se aperta de um jeito desconfortável que chega a doer. Desde que acordei, a sensação de pânico parece ter se instalado dentro do meu peit0 como um peso constante, algo que não desaparece, não importa o quanto eu tente ignorar.
Hoje Dominik Copello vem jantar aqui.
A ideia ainda parece absurda demais para ser real.
Eu caminho lentamente pelo corredor da casa, tentando respirar fundo, mas nem isso ajuda muito. Cada passo ecoa no silêncio pesado que tomou conta da mansão desde o funeral de Dayse.
É loucura.
Uma enorme loucura.
Minha irmã acabou de ser enterrada… e agora todos já estão preparando o meu casamento com o marido dela. Eu aperto os braços contra o corpo e fico com uma angústia. Parece que apenas eu acho isso insano.
Ainda vou fazer dezoito anos.
Faltam poucas semanas para o meu aniversário, mas isso não muda muito as coisas. Mesmo se eu tivesse vinte, a diferença entre nós ainda seria grande demais. Dominik deve ter trinta anos. Talvez mais. Ele é um homem completamente formado, cheio de responsabilidades, negócios e influência dentro da Cúpula.
E eu…
Eu ainda estou tentando entender o que fazer da minha própria vida. Eu não sou uma mulher feita ainda. Bom, eu não me acho.
Eu não quero me casar com ele.
Não quero o marido da minha irmã.
Não quero fazer parte dessa loucura.
Mas a pergunta que não sai da minha cabeça é sempre a mesma: como impedir isso?
A Cúpula não permite que uma única regra seja quebrada. As tradições são antigas, bom, algumas novas, mas são rígidas e tratadas quase como leis absolutas. Eu sei que, neste exato momento, existem pessoas discutindo esse casamento como se fosse algo natural.
Como se fosse inevitável.
Como se eu não tivesse escolha alguma.
Porque, na verdade, não tenho.
Suspiro profundamente enquanto entro na sala de piano. Esse sempre foi um dos poucos lugares da casa onde eu me sinto um pouco mais tranquila. As janelas altas deixam a luz da tarde entrar suavemente, iluminando o piano de cauda preto no centro do ambiente.
Eu caminho até ele e me sento no banco.
Minhas mãos repousam sobre o colo por alguns segundos antes de eu levantá-las e posicioná-las sobre as teclas. Normalmente, quando estou nervosa, tocar ajuda. A música sempre encontra um jeito de colocar as coisas no lugar dentro da minha cabeça.
Mas hoje… hoje não há música.
Eu olho para as teclas brancas e pretas, esperando que alguma melodia apareça na minha mente.
Nada.
Nem uma única nota.
Eu penso em desistir e simplesmente levantar daqui quando ouço passos atrás de mim. Viro o rosto e vejo o meu pai. Ele entra na sala com a postura elegante de sempre, mas há algo diferente no rosto dele desde a m0rte de Dayse. Uma sombra permanente parece ter se instalado ali.
Ele se aproxima devagar.
— Como você se sente? — Pergunta.
Eu solto um pequeno suspiro.
— Péssima.
Minha voz sai mais sincera do que eu esperava.
— Isso tudo parece que a Dayse não era importante… — Continuo. — E ela era. Eu amo a minha irmã e… — A minha voz falha um pouco.
Meu pai fica em silêncio por alguns segundos enquanto me olha.
— Eu sei disso. — Ele fala com calma. — E ela sabia disso também. — Eu abaixo os olhos. — E garanto que ela entenderia. — Ele continua. — Ela sabia das regras.
Isso ainda não me ajuda muito.
— E olha… Dominik foi bom para ela.
Eu não respondo.
Apenas abaixo a cabeça e solto um suspiro pesado. Meu pai se senta ao meu lado no banco do piano e por um momento, nenhum de nós fala nada.
Então ele passa uma mão pelo rosto, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos.
— Eu nunca imaginei perder uma filha. — Ele diz finalmente, a voz dele está mais baixa agora. — Isso dói... está doendo em mim como pai.
Eu levanto o olhar para ele. É raro ver meu pai admitir algo assim.
Ele inspira profundamente.
— Mas o sistema não se importa com sentimentos. — Continua. — A Cúpula nunca se importou. — Ele olha para frente, para as teclas do piano. — O que podemos fazer é encontrar o caminho mais brando dentro das regras… e esse caminho para você... é.
Meu coração se aperta.
— Eu sei que Dominik é difícil. — Ele diz. — Ele é um homem ocupado. Os negócios dele consomem grande parte do tempo... ele viaja muito. — Ele dá de ombros levemente. — Mas isso pode ser bom.
Eu franzo a testa.
— Bom?
— Você terá espaço. — Ele responde. — Segurança. Riqueza. Estabilidade. — Ele se vira um pouco para mim. — Dominik não tem má fama, Rose. Ele é respeitado dentro da Cúpula. — Ele faz uma pausa. — Então não precisa ter medo... Dayse não tinha.
Eu engulo em seco.
— Tem uma enorme diferença de idade. — Digo.
Minhas mãos apertam o tecido do meu vestido.
— E… ele era marido dela.
Minha voz sai quase em um sussurro agora.
— Eles eram um casal. — Minha garganta aperta. — Se eu fosse me casar um dia… eu queria um marido meu. Um meu! — Eu digo. — Com... com quem eu me casaria se ela não tivesse morrido? Hum?
Eu levanto os olhos para meu pai.
— Não vale mais pensar nisso... já era!
— Eu queria um marido meu... não dela.
Meu pai suspira.
— Rose… — Ele fala meu nome com paciência. — Coloque na sua cabeça que Dayse se foi. — Essas palavras doem mais do que eu esperava. — Garanto que quando você pensar assim… vai parar de ver Dominik como o marido dela. Ele não é mais!
Ele faz uma pequena pausa antes de continuar.
— Ele está viúvo... está disponível e as leis são assim.
Meu peit0 aperta novamente.
— Eu garanto que, depois do período de adaptação, você será feliz. — Ele coloca uma das mãos sobre a minha. — Cumpra os seus deveres e seja sábia.
Cumpra os seus deveres.
Essas palavras ficam ecoando dentro da minha cabeça.
Eu não entendo nada de casamento. Dayse contava muito pouco sobre a vida dela com Dominik. Ela sempre parecia feliz, mas nunca entrava em detalhes.
Nunca falava da rotina deles, da casa, de como era o dia deles juntos ou do que conversavam. Nunca falava da sogra, como são os irmãos dele... nada.
Nunca falava das noites.
Meu rosto esquenta um pouco só de pensar nisso.
— O acordo vai ser fechado mesmo eu ainda sendo menor? — Pergunto.
Meu pai fica em silêncio por um instante.
— Faltam poucas semanas para o seu aniversário. — Ele diz. — Vamos discutir isso com Dominik no jantar. — Ele parece pensar por um segundo. — Acredito que você será emancipada.
Eu sinto o meu estômago se revirar.
— A diferença é pequena demais para impedir o acordo.
Eu engulo em seco.
Então é isso... não há saída. Eu já sabia disso… mas ouvir confirmado torna tudo mais real. É impossível escapar.
Eu fico em silêncio, com o peso dessa realidade se instalando dentro de mim como uma pedra pesada. Meu pai observa as teclas do piano por alguns segundos e então, de repente, ele levanta as mãos e pressiona algumas delas. As primeiras notas ecoam pela sala e eu reconheço a melodia imediatamente.
Uma música que ele costumava tocar quando eu era pequena.
Eu fico quieta, apenas ouvindo e eu sinto uma leveza enorme. É tão bom!
As notas se espalham pelo ambiente de forma suave, quase reconfortante. Meu pai sempre foi bom no piano. Quando eu era criança, costumávamos tocar juntos com frequência. Eu aprendi muito mais com ele do que com qualquer professor.
Ele olha para mim de lado enquanto continua tocando.
— Vai ficar só olhando?
Eu solto um pequeno suspiro.
— Eu não estou com cabeça para isso… pode tocar!
Ele sorri de leve.
— Tente. Vem… me acompanha.
Eu hesito por um segundo, mas então levanto as mãos e posiciono meus dedos sobre as teclas. Quando entro na melodia, a música muda. Agora é um dueto. As notas se misturam, se completam e, pela primeira vez nesse dia, algo dentro de mim relaxa um pouco.
Tocar sempre foi assim.
Como se cada nota empurrasse os pensamentos rüins para um canto da mente.
Meu pai exagera em algumas partes da música, fazendo pequenas variações que me obrigam a acompanhar rapidamente.
— Pai! — Eu protesto, rindo.
— Concentre-se! — Ele diz com um sorriso.
Eu balanço a cabeça, mas continuo tocando. A música fica mais rápida e mais leve e chega a ser divertido. Faz tempo que não toco assim e ter companhia é muito diferente.
E por alguns minutos... eu esqueço.
Esqueço Dominik.
Esqueço o jantar.
Esqueço as regras.
Esqueço a Cúpula.
Eu apenas toco, rio e é a primeira vez desde a m0rte de Dayse que eu sinto algo parecido com leveza.