2.Medo de verdade

1684 Words
Rose Moreau Já faz dois dias. Dois dias desde que minha irmã morreu. Dois dias desde que o mundo parece ter sido mergulhado em um silêncio pesado e estranho, como se algo tivesse se quebrado e ninguém soubesse exatamente como consertar. A casa inteira parece diferente. Mais escura e mais fria. Eu estou sentada na minha cama, com as pernas dobradas sob o corpo, segurando um porta-retrato com as duas mãos. Meus dedos percorrem a moldura antiga, de madeira escura, um pouco desgastada nas bordas. Dentro dela, está uma das poucas fotografias que existem da nossa família inteira reunida. Eu, Dayse, meu pai e... minha mãe. É uma foto antiga, tirada há alguns anos, quando as coisas ainda pareciam… normais. Ou pelo menos mais próximas disso. Dayse está no centro da imagem, como quase sempre acontecia. Ela sorri com aquele sorriso bonito e confiante que parecia iluminar qualquer lugar. Meu pai está ao lado dela, orgulhoso, com uma das mãos apoiada no ombro dela. Minha mãe está impecável como sempre, postura perfeita, olhar firme. E eu estou ali também... um pouco mais afastada. Sorrindo, mas não com a mesma segurança. Eu lembro do dia em que essa foto foi tirada. Lembro da Dayse insistindo para que fizéssemos aquilo, dizendo que precisávamos registrar aquele momento. — Um dia vamos olhar para isso e rir. — Ela disse naquela tarde. Eu fecho os olhos por um segundo e não há nada de engraçado agora. Só um vazio estranho. Esses dois dias têm sido sombrios de um jeito que eu não consigo explicar direito. A casa está cheia de empregados andando em silêncio pelos corredores, portas sendo abertas e fechadas com cuidado, conversas murmuradas que cessam sempre que alguém aparece. Mas, ao mesmo tempo, parece que tudo continua funcionando exatamente como antes, como se a morte da minha irmã fosse apenas um detalhe inconveniente que todos precisam fingir que não está ali. Eu olho novamente para a fotografia e vejo como a Dayse parecia tão feliz nos últimos meses. Ela estava grávida. Era o primeiro bebê dela. E ela estava radiante com aquilo. Eu me lembro perfeitamente do dia em que ela me contou. Ela entrou no meu quarto quase sem bater, segurando um pequeno envelope nas mãos e com os olhos brilhando de uma forma que eu nunca tinha visto antes. — Rosie… — Ela disse, rindo baixo. — Você não vai acreditar. Eu lembro de ter levantado da cama, confusa. — O que foi? Ela abriu o envelope e colocou a ultrassonografia diante de mim. — Eu vou ter um bebê. Eu lembro do choque inicial. Depois da alegria e eu abracei ela tão forte naquele momento que quase derrubei nós duas no chão. — Eu vou ser tia? — eu perguntei, rindo. — Vai!!! — Ela respondeu, também rindo. Ela estava tão feliz e não era só ela. Todos ficaram! Aquele bebê era importante. Ele iria carregar o nome Moreau e o nome Copello. Duas famílias poderosas da Cúpula unidas em uma nova geração. Tudo parecia perfeito. Durante a maior parte da gestação, tudo realmente parecia bem. As consultas eram constantes, os médicos eram os melhores possíveis, e todos comentavam que aquele bebê viria forte. Quando descobriram que era um menino, a notícia se espalhou rapidamente entre as famílias. Era exatamente o que todos esperavam. Um herdeiro. Eu lembro do sorriso orgulhoso do meu pai naquele dia, da expressão satisfeita da minha mãe e do brilho nos olhos de Dayse. Mas então… tudo desandou tão rápido que parece impossível entender. O parto não foi fácil. Eu lembro das vozes nervosas no corredor do hospital, dos passos apressados dos médicos entrando e saindo da sala, das expressões tensas. Depois começaram os rumores. O bebê não estava na posição certa, o cordão umbilical estava enrolado no pescoço dele. Complicações, decisões rápidas. Confusão. Até que, de repente, tudo acabou. Quando anunciaram a m0rte dos dois… a minha mãe entrou em um estado que eu nunca tinha visto antes. Ela simplesmente perdeu o controle. Começou a chorar de forma descontrolada, gritando o nome de Dayse repetidas vezes como se aquilo pudesse trazê-la de volta. Foi assustador. Todo mundo estava esperando por aquele bebê. Era quase como se a chegada dele fosse um evento inevitável, uma continuação natural de tudo. E então… nada. Silêncio. Fim. Eu não sei qual foi exatamente a reação de Dominik. Na verdade, ninguém parece saber. Ele quase nunca estava por perto, mesmo sendo marido da minha irmã. Eu o via poucas vezes nas reuniões familiares, nos eventos formais ou em algum jantar obrigatório. Ele sempre foi assim... reservado. Frio e sério. Eu não consigo lembrar de ter visto Dominik Copello sorrir. Nem uma vez. E a mãe dele… um arrepio percorre minha espinha só de pensar nela. Olga Copello é uma mulher que consegue fazer uma sala inteira ficar em silêncio apenas entrando nela. Há algo nela que… intimida. Curiosamente, a minha irmã nunca falava da sogra. Nunca. E agora eu me pergunto por quê. Eu olho novamente para a foto nas minhas mãos, e então outra lembrança invade minha mente. As palavras do meu pai no enterro. Prepare-se. Você vai se casar com Dominik Copello. Meu estômago se revira só de pensar nisso. Como pode? Eu sei que existem regras dentro da Cúpula. Todos nós crescemos ouvindo sobre elas. Casamentos arranjados, alianças familiares, decisões que não pertencem totalmente a quem está envolvido. Mas eu nunca imaginei que um dia seria usada por uma dessas regras. Casar com o marido da minha irmã? O homem com quem ela dormia todas as noites? O homem com quem ela iria ter um filho? Isso é… Eu aperto o porta-retrato com mais força. Dayse gostava dele, eu sei que gostava. Ela nunca disse muitas coisas diretamente, mas havia algo no jeito que ela falava dele… um certo cuidado, talvez até um carinho silencioso. Ela tinha sentimentos e agora esperam que eu simplesmente… ocupe o lugar dela? Isso é perturbador. Errado. Eu sinto novas lágrimas escorrendo pelo meu rosto e rapidamente as enxugo com a manga da blusa. Não adianta chorar mais. Levanto da cama com um suspiro pesado e caminho até o banheiro do meu quarto. A luz branca é forte demais para os meus olhos cansados. Eu abro a torneira e deixo a água fria correr antes de molhar o rosto. A sensação é quase dolorosa. Eu me apoio na pia e levanto lentamente o olhar para o espelho. A imagem que encontro ali me assusta um pouco. Meus olhos estão inchados de tanto chorar. A pele parece pálida demais, e há uma expressão de cansaço profundo no meu rosto. Eu mäl me reconheço. Eu chorei pela m0rte da minha irmã, mas também chorei por mim. Porque, pela primeira vez na vida, eu me sinto completamente encurralada. Nunca ouvi falar de alguém na Cúpula que tenha desobedecido uma regra importante. Nunca. As regras simplesmente… são. Eu seco o rosto com uma toalha e volto para o quarto. O resto do dia passa lentamente. Pela primeira vez em muito tempo, ninguém me chama para cumprir nenhum compromisso. Nenhuma aula particular, nenhum encontro social, nenhuma obrigação. Eu fico aqui... sentada. Pensando. Tentando entender como minha vida pode ter mudado tanto em apenas dois dias. Quando a noite chega, decido descer para o jantar. A sala de jantar está iluminada como sempre. A mesa longa está posta com perfeição, os talheres alinhados, os pratos brilhando sob a luz do lustre. Eu me sento no meu lugar habitual e espero. Os minutos passam até que finalmente meu pai entra. Ele parece cansado. — Oi, filha! — Ele diz, tentando parecer normal. — Tudo bem? Eu forço um pequeno sorriso. — Oi, pai. Eu só… estou preocupada. Ele se senta diante do prato e suspira. — Eu sinto muito... — Ele diz. — Eu queria que as coisas fossem mais fáceis. Mas não posso ir contra as regras. Meu coração aperta. — Olha… não é fácil para ninguém. — Ele continua. — Infelizmente, a hora de fazer parte de tudo sempre chega. — Ele me olha com certa compaixão. — Mas você consegue. Você é forte. Eu balanço a cabeça. — Pai… me casar com ele? Minha voz sai trêmula. — Eu não quero me casar com um homem que foi casado com a minha irmã. Isso é estranho, é errado e… perturbador. Eu não vou dar conta e... — Pelo menos concordamos com algo. A voz da minha mãe surge na porta da sala. Ela entra já caminhando em direção à sua cadeira habitual, elegante e fria como sempre. Ela se senta e me observa com desprezo. — Você não tem capacidade de estar nesse papel. — Ela diz. — Você vai envergonhar o nome Copello… e o nosso também. Eu engulo em seco. O jeito que ela me olha é sempre do mesmo: impaciência e certo desprezo. — Dayse tinha capacidade e elegância. — Ela continua. — E você jamais será como ela. As palavras caem como pedras. — Você não vai durar nem seis meses. — Ela acrescenta com frieza. — É ridículo isso estar acontecendo sendo que este deveria ser o momento da Dayse e... — Chega! — Meu pai diz de repente. A voz dele ecoa pela sala. — Não quero ouvir comparações hoje. — Ele olha para minha mãe. — Dayse está m0rta e não tem como mudar isso. As leis são claras... é melhor se acostumar! Todos nós sabemos como as coisas funcionam… Ele respira fundo. Depois, ele olha pra mim. — E amanhã Dominik estará aqui para um jantar. — Meu coração dispara. — Não quero discussões. — Ele continua. — Controle-se, Inês. — Ele diz a minha mãe. Minha mãe engole em seco e então me lança um olhar tão cheio de raiva que sinto um frio percorrer o meu corpo. Eu não digo mais nada, afinal, nunca consegui tentar debater com ela. E aqui, eu não quero piorar a situação. Mas uma coisa é certa... amanhã à noite… Dominik Copello estará aqui e pela primeira vez, eu sinto medo de verdade.
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