👑 A Princesa do Mafioso
Capítulo 2 — "O Que Realmente Aconteceu"
O silêncio que se seguiu foi pesado, denso como névoa espessa, cobrindo os dois corpos ainda entrelaçados, trêmulos e aquecidos pelo fogo que os consumira. A respiração de Kaelen continuava pesada contra o pescoço de Ravenna, e os braços grandes, fortes, que instantes antes a haviam segurado com firmeza quase c***l, agora a envolviam com um cuidado assustadoramente terno — como se ela pudesse despedaçar-se a qualquer instante. Ele não a soltou. Não se afastou. Ficou ali, apoiando o queixo no ombro dela, a testa tocando a pele morena e suave, e por um longo tempo, apenas respirou devagar, tentando arrancar de si aquela fúria que o havia cegado.
Ravenna ainda sentia as pernas fracas, o ar a custo voltava aos pulmões em suspios que lhe doíam na garganta. A dor física ainda latejava — profunda, viva, marcada em cada toque dele — misturada ao calor que não se apagava, deixando-a aturdida, meio perdida entre o que sentira e o que acabara de dizer. Os olhos âmbar estavam úmidos, perdidos, fixos em algum ponto da madeira escura da estante. Ele a virou devagar, segurando-lhe o rosto entre as duas mãos enormes, obrigando-a a olhar para ele. Os polegares acariciavam-lhe as maçãs do rosto com um carinho que parecia incompatível com a brutalidade de momentos atrás. E quando falou, a voz ainda era grave, carregada de emoção contida:
— Agora me diz. — Seus olhos escuros perfuravam os dela, sem pestanejar. — Por que disseste isso? Por que querias terminar?
Ravenna baixou o olhar por um instante, os dedos brincando nervosamente com os botões da camisa dele, aberta e desalinhada. Os cachos pretos caíram-lhe sobre o rosto, escondendo por um momento a expressão que mudava, já se tornando outra — mais quieta, mais frágil, aquela parte dela que raramente deixava alguém ver. E então, com a voz baixa, trêmula e doce como mel ferido, contou-lhe o motivo real da briga.
💔 O Que Ocorreu Antes — A Verdade
Tudo começara horas antes, quando Kaelen recebera aquela visita. Uma mulher. Elegante, fria, com olhos afiados e um ar de quem conhecia segredos antigos. Ninguém a conhecia bem no círculo íntimo dele — diziam ser alguém de um passado distante, uma amiga de família, alguém que, segundo sussurravam, um dia estivera prometida a ele. Ela chegara ao escritório sem ser anunciada, entrara como se fosse dona de cada canto, e ficara ali, falando com Kaelen em tom baixo, íntimo, por quase uma hora.
Ravenna estivera sentada num canto, quieta, observando. Primeiro com aquela calma inquieta que a caracterizava. Depois, com os olhos começando a brilhar de um modo perigoso, imprevisível. A mulher rira baixinho de algo que ele dissera, e num gesto casual, tocara-lhe o braço. Um toque leve, breve — mas para Ravenna, foi como fogo caindo em pólvora. E o pior: Kaelen não se afastara. Não a afastara. Ficara ali, ouvindo, sem recuar um passo sequer.
Quando a mulher partiu, Ravenna levantou-se de um salto. Os olhos âmbar estavam escurecidos, quase dourados de raiva, e a voz saiu cortante, estranha — aquela parte fria e distante dela tomara o comando:
— Quem é ela? O que queria contigo? Por que tocaste-te assim e tu… tu deixaste?
Kaelen, ainda com a mente em assuntos pesados, respondera sem olhar direito: — Ninguém importante. Assuntos antigos, Ravenna. Não te preocupes com isso.
— NÃO ME PREOCUPES?! — A voz dela subiu, quebrou, transformando-se em algo entre grito e riso amargo. De um instante ao outro, a expressão mudou: os olhos encheram-se de lágrimas que não caíam, os lábios curvaram-se num sorriso torto, ferido. — Ninguém importante passa uma hora a te falar com aqueles olhos! Ninguém importante toca-te assim como se fosses dela! E tu… tu não disseste nada. Não mandaste ir embora. Ficaste ali… como se… como se eu não estivesse aqui!
Ele suspirara, impaciente, cansado — e cometera o erro de falar sem cuidado: — Estou ocupado, Ravenna. Não sejas criança. Isso não tem importância.
Foi isso. Essa frase. Não sejas criança.
O semblante dela desmoronou. Aquele olhar que mudava, que via coisas alheias ao mundo dos outros, perdeu-se para longe, tornando-se gélido e estranho. O peito dela doeu de um jeito que não sabia explicar — doeu mais fundo que qualquer ferimento. E foi com voz calma, terrível na sua quietude, que ela dissera as palavras que detonara tudo:
— Pois se sou uma criança… se ela é a quem deves atender… então acabou. Estamos terminando. Fica com ela, já que eu não passo de um peso e de uma criança aos teus olhos.
Ele olhara-a como se não pudesse ter ouvido direito. Depois, o rosto empalidecera, os olhos escuros alargaram-se — e a fúria, aquela fúria que ninguém conseguia suportar, crescera nele como uma tempestade sombria, devorando tudo. *Terminar? Ela ousara dizer isso? Por uma visita? Por um toque que ele nem notara? Por aquela mulher de um passado morto há muito tempo? E foi então que avançara, sem saber explicar, sem saber conter — porque a ideia de perdê-la, de vê-la afastar-se, era pior que a própria morte — e assim a levara contra a estante, assim a tomara com brutalidade, assim a fizera gemer e jurar que era dele.
🖤 Depois — Quando Tudo Se Acalma
Agora, ouvindo-a contar assim, com a voz quebrada e os olhos marejados, Kaelen compreendeu. Não era ciúme apenas — era medo. O medo que ela nem sempre conseguia nomear, de não ser suficiente, de não estar no lugar certo, de que um dia ele olhasse para outra e dissesse: prefiro ela. Ravenna, em todas as suas versões — doce, louca, furiosa — no fundo, tinha um coração que não sabia confiar plenamente. E quando ele dissera “não sejas criança”, ela ouvira: “não és importante o suficiente”.
Ele puxou-a com força contra si, abraçando-a como se quisesse fundir os dois corpos num só. A testa dele encostou na dela, e pela primeira vez em muito tempo, a voz de Kaelen tremeu.
— Escuta-me bem, Ravenna. — Os dedos deslizaram com carinho pelos cachos pretos, afundando neles. — Aquela mulher… não é nada. Nunca foi. Veio falar de negócios sujos, de dívidas de um pai que já morreu há anos. Veio tentar usar o passado contra mim. E eu não a mandei embora porque… porque precisava ouvir até o fim para saber o que tramava. Mas nunca… — ele segurou-lhe o rosto com ambas as mãos, olhando fundo naqueles olhos âmbar — nunca a olhei como te olho a ti. Nunca desejei tocar outra pessoa. E se não a afastei com as mãos… afastei-a aqui. Levou a mão ao peito, sobre o coração. — Aqui nunca houve ninguém além de ti. Nem antes, nem agora, nem nunca.
Ela o olhava, lábios entreabertos, a expressão oscilando entre dor e esperança, como uma porta que não sabe se deve abrir ou manter fechada.
— Disseste que sou criança… — sussurrou ela, magoada.
— Disse sem pensar. E peço perdão. — Aproximou-se e beijou-lhe a testa com toda a suavidade que antes faltara. — Não és criança. És a mulher mais forte, mais estranha, mais fascinante que alguma vez pisou neste mundo. És meu caos, minha princesa, meu tudo. E se alguma vez duvidares disso… — ele baixou a cabeça e beijou-lhe os lábios devagar, prometendo com o toque o que as palavras sozinhas não bastavam — basta pedir. Basta chamar. E eu arranco o mundo inteiro se for preciso… mas nunca deixarei que penses que podes ser substituída. Nunca. Ouviu? Tu és minha. E eu sou teu. Não há visita, não há passado, não há ninguém que mude isso.
Ravenna fechou os olhos e aninhou-se contra o peito largo dele, ouvindo o coração bater forte e descompassado — só por ela. Os braços dela envolveram-lhe a cintura com força, escondendo o rosto na camisa dele, e quando falou, a voz era pequena, doce, aquela menina que às vezes precisava apenas de saber que era amada:
— Prometes? Prometes que… que nenhuma chega e toca-te e fica… sem que digas que sou eu a que queres? Sempre?
Kaelen apertou-a contra si até quase doer, beijando-lhe os cachos, o pescoço, qualquer parte que alcançasse.
— Prometo. E se alguma se aproximar demais… eu mesmo a afasto. Antes que tu precisas sequer ficar zangada. Antes que penses em partir. Porque se alguma vez fores embora… — ele suspirou, profundamente — parte também metade de mim. E isso… isso não permitirei que aconteça. Nunca mais. Perdoa-me por não ter dito isso antes. Perdoa-me por ter deixado que duvidasses.
Ela ergueu o olhar enfim, e havia brilho nas lágrimas, mas também um sorriso suave, meio torto, voltando a ser sua Ravenna. Passou os dedos lentamente pelo rosto dele, traçando as sobrancelhas, o nariz, os lábios, como se quisesse gravar cada traço na memória.
— Então… não há ninguém mais? — perguntou baixinho, quase um sussurro. — Sou só eu? Mesmo com todas as minhas loucuras? Mesmo quando mudo de um minuto para o outro? Mesmo quando… quando não sou eu mesma?
Ele sorriu — aquele sorriso raro, pequeno, que aparecia só para ela — e beijou-lhe a palma da mão.
— Só tu. Em todas as tuas versões. Em todos os teus humores. Só tu. — Apertou-a de novo, firme, seguro. — E nunca mais… nunca mais pronuncies aquela palavra. Porque não há término. Não existe. Estás presa a mim, Ravenna. E eu a ti. Para sempre. Entendeste?
Desta vez, ela sorriu de verdade — um sorriso que chegou aos olhos, iluminando-os como o sol atravessa o mel. Aninhou-se de novo no peito dele, ouvindo o som daquele coração que batia só por ela, e fechou os olhos, finalmente tranquila.
— Entendi. Nunca mais. Para sempre.
E ali, entre sombras e silêncio, com o peso da briga desfeito mas a marca dele ainda quente na pele dela, compreenderam ambos: a raiva nascera do medo de perder. E o amor… o amor era maior que qualquer medo.