Capítulo 6

1453 Words
Acordei com o som do vento batendo levemente nas janelas. Por um instante, pensei que ainda fosse madrugada, mas a luz que entrava pelos cantos da cortina indicava que o sol já começava a subir. Levantei-me devagar, como sempre, e caminhei até a janela. O que vi fez meu coração disparar. A luz do último andar da casa ao lado estava acesa novamente. Mas desta vez não era apenas uma luz acesa no meio da manhã. Parecia quase que ele trabalhava ali. Adrian Vasconcelos estava de pé, imóvel, como nos dias anteriores. Mas desta vez eu percebi detalhes que antes não tinha notado. Ele vestia uma camisa de manga comprida escura, dobrada até os cotovelos, e calças de tecido simples. Não era um terno elegante, nem roupas de fotógrafo ou escritor moderno. Parecia um homem que tinha abandonado qualquer coisa que pudesse chamar atenção. Seus cabelos escuros estavam levemente bagunçados, como se ele tivesse acabado de acordar ou não se importasse com o tempo. E o que mais me chamou atenção foi que ele segurava algo com cuidado. Um caderno pequeno, talvez um diário. Ele folheava as páginas lentamente, olhando para o chão de vez em quando, como se anotasse detalhes que só ele podia entender. O silêncio da rua era quase absoluto. Nenhum carro, nenhum pássaro, nenhum som que pudesse distrair a cena. Eu fiquei ali, presa à minha própria janela, sem respirar. Ele parecia completamente alheio à minha presença. Mas ao mesmo tempo… era impossível não sentir que ele sabia que eu estava observando. De repente, Adrian fechou o caderno, colocou-o de lado e começou a caminhar lentamente pelo jardim. Cada passo parecia calculado, meticuloso. Ele não pisava em qualquer lugar, mas nas pedras do caminho, como se tivesse feito aquilo centenas de vezes. Olhei com atenção, tentando não perder nenhum movimento. Ele parou em frente a um pequeno canteiro de flores secas. Com cuidado, começou a remover folhas mortas, arrancando-as uma a uma e depositando-as em uma cesta velha, que parecia ter décadas de uso. Tudo nele parecia estranho. A forma como cuidava do jardim, a maneira como parecia falar consigo mesmo de vez em quando pequenos murmúrios inaudíveis para mim e a atenção aos detalhes mínimos. Não era apenas um homem misterioso. Era alguém que parecia viver em um mundo completamente próprio. Respirei fundo e me afastei da janela, tentando não demonstrar que ainda estava ali. Mas, quando me virei para arrumar minha cama, ouvi um som, passos leves. O coração disparou. Corri discretamente até a janela e espreitei novamente. Adrian estava mais perto do portão agora. A distância entre nós parecia mínima, como se o universo tivesse encurtado cada metro que nos separava. Por um instante, nossos olhares se cruzaram. Meu corpo ficou rígido. Havia algo intenso naquele momento. Ele não disse nada. Não moveu os lábios. Mas havia uma consciência silenciosa em seus olhos. Um reconhecimento. Era como se ele estivesse pensando: Você está aqui. Eu sei. Segurei a cortina com mais força, tentando não fazer nenhum movimento brusco. Ele permaneceu ali por alguns segundos, parado, imóvel, como se estivesse analisando a rua, o céu, talvez até o tempo. Então virou-se lentamente e entrou novamente na casa. Meu coração ainda batia acelerado. Nunca tinha sentido algo assim. Não era medo, nem curiosidade apenas. Era uma mistura de ambos e havia uma pontada de algo novo: o fascínio pelo desconhecido. Suspirei e me afastei da janela. Decidi que precisava sair de casa para clarear a mente. Coloquei uma roupa confortável: jeans escuro, blusa de manga comprida bege, tênis e meu casaco leve. Passei rapidamente uma maquiagem básica, apenas corretivo e rímel. Prendi o cabelo em um r**o de cavalo baixo. Antes de sair, olhei mais uma vez para a casa ao lado. A porta principal estava fechada, mas agora pude notar algo que antes não tinha percebido: pequenas janelas laterais, empoeiradas, que pareciam esconder segredos. Algumas estavam quebradas, com vidros trincados. Era impossível não imaginar o que podia haver dentro. Decidi caminhar pela rua lentamente, apenas para observar. Adrian não apareceu imediatamente. A casa parecia deserta, como se ele tivesse desaparecido no mesmo instante em que entrou. Enquanto caminhava, comecei a notar outros detalhes estranhos. Na lateral da casa havia pequenas marcas na parede, como arranhões leves, que pareciam antigos. O portão tinha sinais de ferrugem e uso irregular, como se fosse aberto e fechado várias vezes, mas apenas por alguém muito cuidadoso. Cada detalhe aumentava ainda mais o mistério. Caminhei até o pequeno café da esquina, sentando-me próxima à janela. Pedi um café e um pão. Enquanto esperava, observava discretamente a rua e a casa ao lado. E então aconteceu algo que me fez prender a respiração. A porta da casa se abriu. Adrian saiu. Não estava mais com o caderno. Não carregava nada nas mãos. Vestia a mesma roupa simples, mas agora parecia diferente. Mais sólido. Mais presente. Ele caminhou até o portão, abriu-o com cuidado e saiu da propriedade. Meu coração disparou. Ele caminhava lentamente pela calçada. Cada passo parecia consciente. Como se medisse cada movimento. Não fazia ideia para onde ele estava indo, mas algo dentro de mim dizia que precisava segui-lo. Respirei fundo e caminhei um pouco atrás, mantendo distância. Ele entrou em uma pequena loja de antiguidades alguns metros à frente. Fiquei parada do lado de fora, tentando observar sem ser percebida. Adrian entrou completamente silencioso. O dono da loja, um homem mais velho, cumprimentou-o com um aceno de cabeça. Adrian respondeu apenas com um gesto de mão, sem falar uma palavra. Ele começou a caminhar lentamente pelos corredores da loja, observando cada objeto, cada detalhe. Não parecia interessado em comprar nada. Apenas analisava. Meu coração batia acelerado. Eu queria entrar. Queria perguntar algo. Mas sabia que não poderia. Não ainda. Ele continuava imerso no próprio mundo, alheio a tudo ao redor. E ainda assim, havia algo que me dizia que cada objeto que ele tocava, cada movimento que fazia, tinha significado. Era como se ele estivesse reconstruindo alguma memória antiga, ou talvez preparando algo que só ele entendia. Fiquei ali, escondida atrás da vitrine, observando cada gesto dele. Percebi detalhes que antes não tinha notado: o jeito como ele inclinava a cabeça, a forma como segurava os objetos com cuidado quase reverencial, o olhar intenso, quase doloroso, que lançava sobre cada canto da loja. E então, algo me fez recuar inconscientemente. Ele se virou abruptamente, olhando para a rua. Por um instante, nossos olhares se encontraram. Meu corpo gelou. Não houve sorriso. Nenhum gesto. Apenas aquele reconhecimento silencioso que parecia atravessar qualquer distância entre nós. Segurei a bolsa com mais firmeza, tentando não respirar alto. Ele voltou a caminhar lentamente, e eu percebi que cada gesto dele parecia seguir uma rotina que eu ainda não entendia. Não era apenas cuidado. Não era apenas atenção aos detalhes. Era uma disciplina quase obsessiva. Quando ele finalmente saiu da loja, caminhando de volta para a casa, percebi algo que me fez estremecer. Ele olhava não apenas para o chão ou para o portão. Olhava para as paredes da própria casa, verificando algo em cada canto, cada rachadura, cada detalhe mínimo. Era como se estivesse preparando alguma coisa. E, de alguma forma, sabia exatamente o que estava fazendo. Voltei para minha casa, tentando controlar o coração que parecia sair pela boca. A luz do último andar acendeu novamente antes do entardecer. Agora mais forte. Mais intensa. E algo dentro de mim dizia que a cada dia que passa, Vasconcelos se tornava um vizinho mais misterioso. Ele era parte de um enigma que eu ainda não conseguia decifrar, mas que, de alguma forma, sabia que iria me envolver completamente. Enquanto me sentava na mesa da cozinha, tomando um café e tentando organizar minhas ideias, percebi que havia algo inevitável. Eu não conseguiria ignorá-lo. A rotina dele. A luz. O silêncio. Tudo estava me puxando para aquele mistério, e eu sabia que a qualquer momento, algo mudaria de forma irreversível. A noite caiu lentamente. E lá estava ela, a luz do último andar. Brilhando no mesmo ritmo de sempre, mas desta vez eu sabia que algo estava prestes a acontecer. Algo que eu ainda não podia entender, mas que já sentia nos ossos. E, enquanto o vento batia levemente nas árvores e as sombras da rua dançavam nas paredes da minha casa, percebi que, pela primeira vez, a sensação de curiosidade misturada com medo se transformava em algo mais… Em algo que eu ainda não tinha nome, mas que sabia que me levaria diretamente ao coração do mistério. Adrian Vasconcelos não era apenas um homem estranho. Ele era o mistério em forma de homem. E, pela primeira vez, eu estava mais perto dele do que jamais imaginei.
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