Capítulo 7

1267 Words
A noite caiu cedo. Depois de mais um dia longo na faculdade, minhas ideias giravam em torno de uma única coisa: Adrian Vasconcelos. Eu não conseguia tirar a mente dele da cabeça. Cada movimento que eu fizera durante o dia, cada detalhe que observei na sua rotina, permanecia gravado em minha memória. Eu precisava descobrir mais. Era irracional, eu sabia. Eu deveria estar me concentrando nas aulas, nas compras, nas amigas que comecei a fazer, mas havia algo dentro de mim que não permitia esquecer o vizinho. O homem misterioso da casa ao lado. O homem que só aparecia à noite. O homem que parecia ter toda uma vida inteira trancada naquela casa silenciosa e cheia de segredos. Suspirei e me levantei da mesa da cozinha, onde havia acabado de jantar. O vento frio da noite entrou pela janela quando eu a abri para respirar fundo. — Respira, Helena — murmurei. — É apenas curiosidade… apenas investigação. Decidi que precisava de um plano. Queria descobrir a rotina noturna dele, mas sem ser invasiva. E então surgiu a ideia: levar uma fatia de bolo. Não era apenas um gesto inocente. Era uma desculpa perfeita. Se ele aparecesse na porta, eu poderia, discretamente, observar o que fazia, como reagia à presença de alguém, se falava sozinho ou se continuava com sua rotina meticulosa. Fui para a cozinha, abri a geladeira e peguei uma pequena fatia de bolo que havia guardado do dia anterior. Era simples, um bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro, mas suficiente para parecer um gesto amigável e natural. Embrulhei-o cuidadosamente em um pedaço de papel alumínio e coloquei dentro de uma pequena sacola. — Certo, Helena — falei baixinho, tentando me convencer. — Nada de maluquices. Apenas um gesto amigável. Vesti meu casaco leve, calcei meu tênis branco e prendi o cabelo em um r**o de cavalo baixo. Olhei pela janela e respirei fundo. A rua estava silenciosa, a luz do poste iluminava o caminho, e a casa ao lado estava escura. Mas, mesmo assim, havia uma sensação estranha no ar, como se ele já soubesse que eu iria aparecer. Caminhei lentamente até a calçada, carregando a sacola com cuidado. Meu coração batia acelerado. Cada passo parecia ecoar na rua vazia. Quando cheguei em frente ao portão da casa de Adrian, percebi que ele já estava ali. De pé, imóvel, encostado no batente da porta. Meu coração quase parou. Ele parecia ainda mais intenso sob a luz fraca do poste. As sombras desenhavam seu rosto de maneira que era impossível decifrar suas expressões. Eu não podia recuar agora. Respirei fundo, segurei a sacola com firmeza e caminhei até o portão. — Boa noite — disse, minha voz tremendo um pouco. Adrian não respondeu. Nem um gesto. Nem um olhar mais direto. Ele apenas permaneceu ali, imóvel, olhando para a rua, como se estivesse medindo cada segundo que eu estava ali. Segurei a sacola na frente do corpo, tentando parecer natural. — Eu… trouxe um bolo — continuei, hesitante. — Achei que pudesse… talvez… Ele se moveu lentamente. Não em direção a mim. Não em direção à sacola. Apenas deu alguns passos para dentro do jardim. Meu coração disparou. Fiquei parada, observando cada gesto dele. Ele entrou na casa com passos lentos e calculados, sem dizer uma palavra. Por um instante, pensei que tinha feito tudo errado. Mas então percebi algo curioso. A porta se abriu novamente, apenas um pouco, e a silhueta dele apareceu na luz fraca da entrada. Ele segurava algo em uma das mãos, não era o bolo, mas sim um caderno pequeno, o mesmo que eu já tinha visto várias vezes. Olhou para mim brevemente. O olhar dele era intenso. Não hostil, não amigável. Apenas… profundo. Como se estivesse tentando ler meus pensamentos. — Helena — murmurei baixinho, quase para mim mesma. Ele não respondeu, mas permaneceu ali por alguns segundos. E, de repente, algo mudou. Ele se moveu em direção ao portão, mas sem atravessá-lo completamente. Era como se estivesse avaliando se eu merecia estar ali. Fiquei imóvel, segurando a sacola, tentando não demonstrar nervosismo. Então ele recuou alguns passos e entrou novamente na casa. Fechou a porta lentamente. Meu corpo ficou rígido. Senti uma mistura de frustração e fascínio. Eu queria entrar. Queria saber o que havia dentro daquela casa, como ele vivia, o que fazia nas noites silenciosas. Mas ao mesmo tempo, algo me dizia para esperar. Para observar. Para aprender. Voltei lentamente para minha própria casa, cada passo pesado de ansiedade. Quando entrei, respirei fundo e sentei na borda da cama. O bolo ainda estava na sacola, intacto. Segurei-o nas mãos, pensando em como aquele simples gesto tinha sido mais significativo do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar. Ele não disse nada. Não interagiu. E ainda assim, algo havia acontecido. Eu estava mais próxima dele do que jamais estivera. Mais próxima do que ele provavelmente gostaria que eu estivesse. Durante o resto da noite, fiquei olhando pela janela, tentando adivinhar a rotina dele. A luz do último andar acendeu mais cedo do que de costume, como se ele estivesse preparando algo. Vi-o entrando e saindo do jardim, ajustando pequenas coisas, abrindo gavetas, fechando portas, sempre silencioso, sempre meticuloso. Não era apenas um homem recluso. Era alguém que tinha regras próprias, que seguia uma rotina quase ritualística, e que claramente não queria que ninguém se aproximasse. E, ainda assim, havia algo que parecia pedir para ser descoberto. Não era apenas a curiosidade que me movia. Era algo maior. Algo que eu não conseguia nomear, mas que me dizia que ele não poderia permanecer misterioso para sempre. Eu precisava saber mais. Precisava entender por que ele vivia daquela forma. Por que a luz acendia sempre, sempre, como se fosse parte de algum código silencioso. E por que, mesmo sem falar uma única palavra comigo, ele conseguia me fazer sentir uma proximidade estranha, quase… pessoal. Passei horas observando o movimento dele pela janela. Ele não saía da casa. Não atendia telefone. Não interagia com ninguém. Mas cada gesto, cada movimento, cada rotina silenciosa parecia carregada de significado. Era como se cada passo fosse pensado com cuidado, como se cada detalhe fosse parte de um plano que só ele conhecia. Enquanto a noite avançava, a luz finalmente se apagou, mas algo dentro de mim dizia que isso era apenas o começo. Eu tinha oferecido uma fatia de bolo, mesmo sem que ele aceitasse. E, de alguma forma, aquele simples gesto criou uma conexão silenciosa entre nós. Uma conexão que eu não entendia completamente. Mas que sabia que seria impossível ignorar. Antes de ir para a cama, olhei mais uma vez pela janela. A casa estava silenciosa, escura, e o vento movia as árvores de forma suave. Suspirei, ainda segurando a sacola do bolo. — Amanhã — murmurei — vou tentar entender mais. Não sabia como. Não sabia se ele permitiria. Mas algo dentro de mim dizia que a rotina estranha dele, o mistério da luz e o silêncio absoluto tinham um propósito. E eu precisava descobrir qual era. Porque a cada noite que passava, ficava claro que Adrian Vasconcelos não era apenas um homem recluso. *** Enquanto me deitava na cama, minha mente girava entre perguntas, hipóteses e aquela curiosidade insaciável que me fazia sentir viva. Eu sabia que, no fundo, aquela rotina noturna dele, o silêncio e a luz que se acendia mais cedo a cada dia eram o convite para algo maior. E, naquela noite, adormeci pensando que amanhã, finalmente, poderia descobrir um pouco mais desse segredo que se escondia por trás daquela luz intensa e daquela casa silenciosa.
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