Se existe uma coisa sobre mim que minha mãe sempre disse, é que eu sou curiosa demais para o meu próprio bem.
Naquele momento, parada na calçada em frente à minha casa, eu tive certeza de que ela estava certa.
O homem estava no jardim da casa ao lado.
De costas.
Observando algo entre as plantas crescidas demais que dominavam o terreno.
O sol da tarde iluminava a cena de forma quase tranquila, mas havia algo estranho em tudo aquilo.
Porque aquela casa parecia abandonada.
E ele… não parecia alguém que gostasse de ser visto.
Meu coração batia mais rápido do que deveria.
Talvez eu devesse simplesmente entrar em casa.
Sim.
Essa era a coisa mais sensata a fazer.
Eu nem conhecia aquele homem.
E ainda assim, havia uma parte de mim que queria continuar ali, observando.
Talvez para confirmar que ele era real.
Talvez para descobrir quem ele era.
Respirei fundo.
Então dei um passo.
A pequena pedra da calçada fez um leve som sob meu sapato.
Foi o suficiente.
O homem se moveu.
Virou-se lentamente.
E nossos olhos se encontraram.
Por um instante, senti como se o tempo tivesse parado.
Ele era ainda mais alto do que eu tinha imaginado.
Os cabelos escuros estavam um pouco bagunçados, como se o vento tivesse passado por eles várias vezes ao longo do dia.
Havia algo intenso em sua expressão.
Algo cansado.
Algo… distante.
Mas o que realmente chamou minha atenção foram os olhos.
Cinzentos.
Profundos.
E cheios de uma espécie de silêncio que eu nunca tinha visto antes.
Ele me observava.
Não parecia surpreso.
Também não parecia irritado.
Era mais como se estivesse avaliando uma situação inesperada.
Engoli em seco.
Talvez eu devesse dizer algo.
Afinal, éramos vizinhos.
E ignorar completamente alguém parado no jardim ao lado seria estranho.
Ou pelo menos foi isso que eu disse a mim mesma.
Forcei um pequeno sorriso.
— Boa tarde.
Minha voz soou um pouco mais baixa do que eu esperava.
O homem não respondeu.
Nem um gesto.
Nem uma palavra.
Ele apenas continuou me olhando.
Por um segundo desconfortável demais.
Depois disso, desviou o olhar.
Como se eu simplesmente não estivesse mais ali.
Meu sorriso desapareceu lentamente.
— Certo… — murmurei, quase para mim mesma.
A situação ficou estranha.
Muito estranha.
Eu não sabia se deveria ficar ali ou ir embora.
Então fiz a única coisa que me pareceu minimamente digna.
Virei-me e caminhei até a porta da minha casa.
Mas antes de entrar…
Olhei novamente para trás.
Ele ainda estava no jardim.
Agora agachado perto de algumas plantas secas, mexendo na terra com as mãos.
Como se eu nunca tivesse existido.
Fechei a porta da casa e apoiei as costas nela.
— Ok… isso foi constrangedor — murmurei.
Caminhei até a cozinha e peguei um copo de água.
Enquanto bebia, minha mente voltava à cena.
Ele definitivamente tinha me ouvido.
E tinha me visto.
Então por que não respondeu?
Talvez fosse apenas alguém antissocial.
Ou talvez…
Ele realmente não quisesse contato com ninguém.
Suspirei.
Subi até meu quarto.
Assim que entrei, fui direto até a janela.
Mas fiz isso com mais cuidado desta vez.
A casa ao lado estava parcialmente escondida pelas árvores.
Ainda assim, consegui ver parte do jardim.
O homem continuava ali.
Agora de pé.
Ele segurava uma pequena pá de jardinagem e parecia estar limpando o terreno.
Aquilo era estranho.
Se a casa parecia abandonada há anos, por que ele estava cuidando do jardim agora?
Observei por alguns minutos.
Seus movimentos eram calmos.
Metódicos.
Como alguém acostumado ao silêncio.
Depois de um tempo, ele desapareceu pela lateral da casa.
Esperei mais alguns segundos.
Nada.
Apenas o vento balançando as plantas.
Afastei-me da janela.
— Helena, você precisa parar de vigiar o vizinho — falei comigo mesma.
Mas mesmo enquanto dizia isso, sabia que não iria parar.
Porque havia algo naquele homem.
Algo que despertava perguntas demais.
Passei o resto da tarde organizando algumas coisas da casa.
Também tentei estudar um pouco.
Mas minha concentração não estava exatamente no melhor estado.
Sempre que levantava os olhos do caderno, acabava olhando para a janela.
E para a casa ao lado.
O céu começou a escurecer lentamente.
As sombras da noite tomaram conta da rua.
Preparei algo simples para jantar e me sentei na pequena mesa da cozinha.
A casa estava silenciosa.
Talvez silenciosa demais.
Era estranho morar sozinha depois de tantos anos vivendo com minha mãe.
Cada pequeno som parecia mais alto do que realmente era.
O vento.
Os passos no chão de madeira.
O ranger das escadas.
Depois de comer, lavei a louça e subi novamente para o quarto.
E foi aí que meu olhar foi automaticamente para a janela.
A casa ao lado estava completamente escura.
Franzi a testa.
Por um segundo, pensei que talvez a luz não fosse aparecer naquela noite.
Talvez tivesse sido apenas coincidência.
Ou talvez…
Eu tivesse imaginado tudo.
Mas então aconteceu.
Exatamente como na noite anterior.
A luz se acendeu.
Meu coração acelerou imediatamente.
A mesma janela.
O último andar.
A mesma luz amarelada.
Caminhei devagar até a janela.
Afastei a cortina apenas um pouco.
A rua estava silenciosa.
Nada parecia diferente.
Mas a luz estava lá.
Brilhando na escuridão.
Esperei.
Segundos.
Talvez minutos.
Então uma sombra apareceu.
Meu coração disparou novamente.
Era ele.
A silhueta alta surgiu diante da janela.
Mas desta vez ele não estava parado.
Ele caminhava de um lado para o outro.
Como se estivesse pensando.
Ou inquieto.
Observei em silêncio.
Havia algo estranho naquela rotina.
Por que aquela luz só acendia à noite?
E por que apenas naquele quarto?
De repente, ele parou.
Meu corpo ficou rígido.
Porque a silhueta parecia estar olhando diretamente para fora.
Para a rua.
E para minha casa.
Segurei a cortina com mais força.
Talvez fosse apenas coincidência.
Talvez ele nem pudesse me ver.
Mas então algo inesperado aconteceu.
A silhueta desapareceu da janela.
Franzi a testa.
Esperei.
Nada.
Alguns segundos depois…
A luz se apagou.
Meu coração deu um pequeno salto.
— Estranho… — murmurei.
Fiquei ali parada por mais um tempo.
Mas a janela permaneceu escura.
Finalmente fechei a cortina.
Voltei para a cama.
Mas minha mente estava longe de descansar.
Agora havia ainda mais perguntas.
Quem era aquele homem?
Por que vivia isolado naquela casa?
E por que parecia evitar qualquer contato com o resto do mundo?
Deitei-me olhando para o teto.
Talvez Lucas estivesse certo.
Talvez aquela casa realmente escondesse uma história.
Uma história que ninguém queria contar.
Mas havia uma coisa que eu tinha certeza.
Eu não conseguiria ignorar aquilo.
Porque toda vez que olhava para aquela casa…
Sentia como se estivesse olhando para um mistério esperando para ser resolvido.
E algo dentro de mim dizia que aquele homem…
Adrian Vasconcelos…
Ainda tinha muito mais segredos do que eu podia imaginar.