(Kol & Kayte)
O tempo passou devagar demais.
Kayte voltou a sair de casa aos poucos, empurrada mais pela necessidade do que pela vontade. As contas não esperavam, o orgulho não aceitava ajuda, e ela se recusava a se tornar exatamente aquilo que o pai dizia que ela seria sem um marido.
Quando conseguiu o novo trabalho, não contou a ninguém.
Só pegou a bolsa, respirou fundo e foi.
O choque veio ao chegar.
Um clube noturno.
Luzes baixas. Música pesada. Homens demais. Olhares demais.
Ela quase desistiu ali mesmo, na porta. Mas precisava do dinheiro. Precisava provar — para o pai, para o mundo, para si mesma — que dava conta sozinha.
No vestiário, a gerente empurrou o uniforme em suas mãos.
— É isso aqui.
Kayte olhou o tecido preto, o vestido curto demais para o gosto dela, o avental fino, o batom vermelho obrigatório. Aquilo não era ela. Nunca foi.
Mas vestiu.
Porque independência, às vezes, cobra caro.
Quando saiu para o salão, sentiu todos os olhares grudarem nela como mãos invisíveis. Caminhou firme, coluna ereta, rosto fechado. Não sorria além do necessário. Não provocava. Fazia apenas o trabalho.
Mesmo assim, os homens olhavam.
Demais.
Do outro lado da cidade, Kol soube em menos de uma hora.
— Clube noturno — disse Orelha, tenso. — Garçonete. Uniforme curto.
Kol se levantou de uma vez.
A cadeira caiu para trás.
— Não — ele rosnou. — Não lá. Não é lugar pra ela.
Negão cerrou o maxilar.
— Já tem cara olhando demais. Bebida solta. Mão boba não falta.
A visão de Kayte cercada por homens que não a respeitariam fez algo quebrar dentro de Kol.
Ele passou a mão pelo rosto, respirando pesado.
— Um daqueles desgraçados vai achar que pode tocar nela.
A raiva subiu rápido, quente, incontrolável.
— E se tocar… — Orelha começou.
— Não termina a frase — Kol cortou, a voz baixa e mortal.
Kol não protegia por bondade.
Protegia porque perder o controle sobre aquilo o enlouquecia.
Aquela noite, Kayte voltou para casa exausta, os pés doendo, a alma arranhada. Não tinha sido desrespeitada diretamente — ainda —, mas sentiu o perigo rondando, esperando uma brecha.
Ela tomou banho longo, tentando lavar o incômodo da pele.
No prédio abandonado, Kol observava o clube à distância, os olhos queimando de ódio. Não dormiu. Não se afastou. Não piscou quando um homem riu alto demais perto dela.
— Isso não vai continuar — ele disse, decidido. — Nem que eu tenha que quebrar meio mundo.
Negão respirou fundo.
— Vai forçar a mão?
Kol ficou em silêncio por alguns segundos.
— Vou salvar ela — respondeu. — Mesmo que ela me odeie por isso.
Porque Kayte acreditava que liberdade era andar sozinha.
Kol sabia que, naquele mundo, liberdade sem proteção era sentença.
E muito em breve, ele faria a proposta que ela mais temia:
um casamento que não era amor…
mas que seria a única forma de mantê-la viva.
O ódio dela viria primeiro.
O acordo depois.
E o amor… esse seria o segredo mais perigoso de todos.