Onde Ela Não Devia Estar

516 Words
(Kol & Kayte) O tempo passou devagar demais. Kayte voltou a sair de casa aos poucos, empurrada mais pela necessidade do que pela vontade. As contas não esperavam, o orgulho não aceitava ajuda, e ela se recusava a se tornar exatamente aquilo que o pai dizia que ela seria sem um marido. Quando conseguiu o novo trabalho, não contou a ninguém. Só pegou a bolsa, respirou fundo e foi. O choque veio ao chegar. Um clube noturno. Luzes baixas. Música pesada. Homens demais. Olhares demais. Ela quase desistiu ali mesmo, na porta. Mas precisava do dinheiro. Precisava provar — para o pai, para o mundo, para si mesma — que dava conta sozinha. No vestiário, a gerente empurrou o uniforme em suas mãos. — É isso aqui. Kayte olhou o tecido preto, o vestido curto demais para o gosto dela, o avental fino, o batom vermelho obrigatório. Aquilo não era ela. Nunca foi. Mas vestiu. Porque independência, às vezes, cobra caro. Quando saiu para o salão, sentiu todos os olhares grudarem nela como mãos invisíveis. Caminhou firme, coluna ereta, rosto fechado. Não sorria além do necessário. Não provocava. Fazia apenas o trabalho. Mesmo assim, os homens olhavam. Demais. Do outro lado da cidade, Kol soube em menos de uma hora. — Clube noturno — disse Orelha, tenso. — Garçonete. Uniforme curto. Kol se levantou de uma vez. A cadeira caiu para trás. — Não — ele rosnou. — Não lá. Não é lugar pra ela. Negão cerrou o maxilar. — Já tem cara olhando demais. Bebida solta. Mão boba não falta. A visão de Kayte cercada por homens que não a respeitariam fez algo quebrar dentro de Kol. Ele passou a mão pelo rosto, respirando pesado. — Um daqueles desgraçados vai achar que pode tocar nela. A raiva subiu rápido, quente, incontrolável. — E se tocar… — Orelha começou. — Não termina a frase — Kol cortou, a voz baixa e mortal. Kol não protegia por bondade. Protegia porque perder o controle sobre aquilo o enlouquecia. Aquela noite, Kayte voltou para casa exausta, os pés doendo, a alma arranhada. Não tinha sido desrespeitada diretamente — ainda —, mas sentiu o perigo rondando, esperando uma brecha. Ela tomou banho longo, tentando lavar o incômodo da pele. No prédio abandonado, Kol observava o clube à distância, os olhos queimando de ódio. Não dormiu. Não se afastou. Não piscou quando um homem riu alto demais perto dela. — Isso não vai continuar — ele disse, decidido. — Nem que eu tenha que quebrar meio mundo. Negão respirou fundo. — Vai forçar a mão? Kol ficou em silêncio por alguns segundos. — Vou salvar ela — respondeu. — Mesmo que ela me odeie por isso. Porque Kayte acreditava que liberdade era andar sozinha. Kol sabia que, naquele mundo, liberdade sem proteção era sentença. E muito em breve, ele faria a proposta que ela mais temia: um casamento que não era amor… mas que seria a única forma de mantê-la viva. O ódio dela viria primeiro. O acordo depois. E o amor… esse seria o segredo mais perigoso de todos.
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