Maldita Autora, Maldito Caspian
Enquanto Emilia chorava, Caspian sorria de um jeito debochado, sarcástico, de um jeito que ele só fazia quando queria ferir alguém.
“Chore, ele não vai mesmo vir te salvar”, a voz dele era tão fria que Emilia estremeceu levemente.
“Que p***a é essa, autora? Esse maldito Caspian, como pode um homem fazer tão m*l à protagonista e ainda se dar bem?”
Diz Bety jogando o celular onde ela estava lendo seu romance favorito para o lado da cama, a indignação com o capítulo tomando conta dela. Ora ela odiava o vilão, ora a autora que fazia a mocinha sofrer tanto, mas o fato é que ela não conseguia parar de ler.
Até alguns dias atrás ela sequer imaginava quem era Emilia, Sebastian ou o maldito Caspian, mas sentada ao lado de uma amiga no metrô, viu que ela estava entretida e caiu no erro de perguntar com o quê. A amiga lhe apresentou esse livro em uma plataforma digital e pronto, ali estava ela viciada.
Ela pega o celular de novo e atualiza a página para ver se o próximo capítulo já tinha saído, mas não.
“Não, claro que a autora com certeza vai torturar as leitoras enquanto enrola para soltar o próximo capítulo.”
Bety se levanta olhando o relógio.
“p***a, parabéns Bety, já passa da uma da manhã, vai parecer um zumbi outra vez.”
Não que alguém fosse reparar. Bety era uma contadora, embora trabalhasse para uma firma renomada, seu escritório ficava praticamente no porão. Bety era a faz-tudo, a funcionária para quem todos empurravam serviço, mas que nunca levava o crédito por nada.
Ela vivia dizendo que ia reclamar, ia contar para o chefe que era ela quem fazia o serviço, mas sempre desistia, lhe faltava coragem.
Suspirando, ela se encara no pequeno espelho do seu banheiro. Olhos grandes e verdes, cabelos castanhos e cacheados que ela odiava por achar revoltos, e um óculos que mais parecia um fundo de garrafa, mas sem eles ela não enxergava nada. Ela tinha lentes, mas nunca experimentou.
Depois de lavar o rosto e escovar os dentes, ela volta para cama, o pensamento ainda na história.
A trama se passava na época em que ainda existiam reis, castelos e conspirações pelo poder. Emilia era a mocinha por quem Bety torcia por se ver nela, uma aldeã pobre que se apaixonou pelo príncipe Sebastian, mas infelizmente Caspian, o filho mais velho e herdeiro do trono, achava que tinha o direito de torturá-la somente para punir Sebastian, pois ele culpava o irmão mais novo e sua mãe pela morte da própria mãe.
Bety, que nunca na vida tinha odiado alguém, odiava Caspian com todas suas forças. Encarando a capa do livro na tela do celular, ela olha para Caspian e diz:
“Se eu tivesse uma chance, juro que te faria pagar caro, ia chutar sua b***a real até o inferno.”
E foi isso, ela adormeceu.
Horas depois, ou minutos, Bety nunca saberia explicar, ela acorda com tudo tremendo à sua volta.
Se senta coçando os olhos em pânico e pergunta se era um terremoto, furacão ou talvez só ela em algum pesadelo, mas quando ela vai levantar da cama…
BOOM! Uma explosão, um clarão e Bety se viu caindo em um espaço vazio que não parecia ter fim.
Até que seu corpo se choca com um chão duro e frio.
“Ai, mas que diabos aconteceu?”
Bety fica de pé em um pulo e olha ao redor. Não estava em sua casa, não mesmo. Na verdade, ela não fazia ideia de onde estava. As paredes eram de pedra pura, o lugar grandioso. Se ela tivesse que chutar, diria que estava em um castelo.
Bety ri histérica, estava tão viciada na maldita história que agora estava sonhando com ela, porque aquilo não podia passar de um sonho.
Bety tira os óculos e esfrega os olhos com força, depois recoloca os óculos e abre os olhos, mas não adiantou. Nem sinal do seu quarto, casa ou qualquer ponto de referência que pudesse indicar onde diabos ela estava.
“Você está sonhando, é só dar um jeito de acordar, é só isso”, ela diz para si mesma enquanto pensa que essa era a explicação mais lógica.
Respirando fundo e fechando os olhos, ela se belisca com toda sua força, depois lentamente abre os olhos e outra vez:
“Haa, por favor Deus, o que eu fiz para você me odiar tanto? É sério isso, eu morri? E meu céu ou inferno, sei lá, é o castelo de Caspian?”
Aquilo soava tão ridículo até para ela que Bety ri, mas o seu humor dura pouco. A porta se abre e um homem entra.
Na verdade, não era qualquer homem, era Caspian.
Os mesmos olhos pretos como a noite, o rosto aristocrata e bonito, os cabelos lisos e grandes que ele usava presos em uma espécie de rabinho. O maldito era bonito, bonito demais, mas a única coisa que Bety conseguia pensar era que, se estava ali, devia realmente chutar o traseiro dele.
Mas toda a coragem dela some quando Caspian, em um movimento rápido e preciso, encosta a lâmina fria de sua espada no pescoço de Bety e diz:
“Mas quem diabos é você, mulher? Que coisa é essa no seu rosto? E, por todos os céus, o que você está vestindo?”
Bety engole em seco e reza dizendo:
“Deus, se tem uma hora boa para eu acordar, sério, é essa.”