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Obsessão pela Enteada

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Obsessão pela Enteada

Depois de anos tentando escapar de um passado que a persegue, Lia é obrigada a voltar para o lugar que jurou nunca mais pisar: a casa do padrasto, Caio, um homem respeitado na comunidade, mas temido por quem realmente o conhece.

O reencontro entre os dois desperta algo que deveria permanecer enterrado. Caio vê em Lia a lembrança viva da mulher que perdeu — e algo mais, algo que ele nunca admitiu nem para si mesmo. Já Lia percebe que o homem que deveria ser sua figura de apoio é, na verdade, o maior risco que ela corre.

À medida que segredos antigos começam a emergir, a convivência se transforma em um jogo silencioso de poder, desejo e manipulação. Cada gesto, cada olhar, cada aproximação parece carregar uma ameaça velada.

E quando a fronteira entre proteção e posse se rompe, Lia precisa decidir se enfrenta o monstro que a observa de perto… ou se se torna parte da escuridão dele.

Algumas histórias não nascem para serem românticas. Nascem para consumir quem ousa vivê‑las.

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Capítulo 1
Capítulo 1 — Caio (Morte) Eu já vi o suficiente da vida para saber que esperança é só uma palavra bonita usada por quem nunca encarou a rua de verdade. Aqui em cima, entre becos estreitos e telhados tortos, ninguém sobrevive sendo bom. Sobrevive quem é temido. Quem é lembrado. Quem é evitado. Foi assim que virei Morte. Não porque eu quisesse esse nome. Mas porque, quando eu aparecia, alguém sempre desaparecia. Às vezes por escolha minha. Às vezes porque o destino gosta de brincar com gente fraca. E eu nunca fui fraco. Acordei antes do sol nascer. A madrugada é o único momento em que a favela cala a boca. É quando dá pra ouvir o próprio pensamento — e, no meu caso, isso nunca é bom sinal. Acendi um cigarro e observei o céu clareando devagar. A cidade parecia tranquila, mas eu sabia que era só fachada. Tranquilidade aqui dura menos que promessa de político. O celular vibrou no bolso. Mensagem do Rato: Ela tá voltando. Eu já sabia. Mas ver escrito trouxe um incômodo que eu não queria admitir. Lia. A filha da única mulher que eu respeitei de verdade. A única que conseguiu arrancar alguma humanidade de mim — e que levou isso embora quando morreu. A menina cresceu longe daqui. Longe de mim. E agora estava voltando. Joguei o cigarro no chão e esmaguei com a bota. O gesto saiu mais forte do que eu pretendia. Desci as escadas do barraco. A comunidade já se mexia: gente indo trabalhar, gente fingindo que ia, gente que devia estar morta mas ainda respirava. Todos me cumprimentavam. Não por respeito. Por medo. E isso sempre foi suficiente. Rato me esperava na viela, encostado na moto, mascando chiclete como se a vida fosse simples. — Preparado? — ele perguntou. — Fala logo. — Pra ver a garota. Dizem que tá diferente. Meu olhar gelou o sorriso dele. — Ela não é assunto seu. Ele levantou as mãos, rindo. — Só comentando, chefe. — Vai buscar ela na rodoviária. — Você não vai? — Não preciso. Ela não tem que me ver primeiro. Rato tentou entender o que se passava na minha cabeça. Não conseguiu. — Beleza — disse, subindo na moto. Quando ele sumiu na curva, o silêncio voltou. E com ele, a lembrança da promessa que fiz à mãe dela no hospital. Ela segurou meu pulso com a pouca força que restava. “Cuida da minha filha… não deixa ela voltar pra isso.” Eu não cuido de ninguém. Mas daquela mulher… eu devia. Passei a manhã resolvendo problemas. Gente que devia dinheiro. Gente que precisava de proteção. Gente que achava que podia me enganar. Resolvi tudo rápido. Frio. Do jeito que sempre fiz. Quando o celular vibrou de novo, eu já sabia. Fui até a entrada da comunidade. Rato estava lá. E atrás dele… ela. Lia. Não era mais criança. Não era mais frágil. Mas ainda tinha aqueles olhos que enxergavam demais. Olhos que eu nunca gostei. Ela me viu. Parou. E o passado tentou entrar pela porta que eu mantive trancada por anos. — Oi, Caio — ela disse. A voz calma demais pra alguém entrando no meu mundo. — Bem-vinda — respondi, seco. Rato riu baixinho, percebendo a tensão. — Vou indo, chefe. Ignorei. — Vamos. Sua mãe queria que você ficasse aqui. Ela me seguiu. Silenciosa. Atenta. Como se analisasse cada detalhe. Isso me incomodava. Quando chegamos ao barraco, ela olhou tudo com cuidado. Eu não gosto de ser observado. Ainda menos por alguém que conhece partes de mim que ninguém mais conhece. — Você mora sozinho? — ela perguntou. — Sempre. — Entendi. Abri a porta do quarto vazio. — Vai ficar aqui. Não é grande, mas serve. — Caio… — ela chamou. Virei devagar. — Obrigada por me receber. Eu sei que não era sua obrigação. — Era, sim. — Por quê? — Porque sua mãe pediu. Simples. Direto. O suficiente. Ela baixou os olhos. E eu encerrei o assunto. O dia passou arrastado. Ela arrumou as coisas. Eu cuidei dos meus negócios. Mas a presença dela era um peso no ar. Um lembrete do que eu não queria lembrar. À noite, sentei na varanda. A favela brilhava com luzes improvisadas. Música, risadas, gritos. Tudo normal. Ouvi passos atrás de mim. Ela. — Não consegue dormir? — perguntei. — Não muito. Sentou ao meu lado. Eu não olhei. — Caio… por que te chamam de Morte? Soltei o ar devagar. — Porque eu faço o que precisa ser feito. — Você machuca pessoas? — Quando é necessário. Silêncio. Depois: — E eu? Eu mereço? Virei o rosto. Os olhos dela buscavam algo que eu não tinha pra dar. — Você não merece nada que eu faço. E é por isso que não se mete nos meus assuntos. Ela sorriu. Não era um sorriso feliz. Era um sorriso que dizia que ela sabia mais do que devia. — Então por que você me olha como se eu fosse parte deles? — Vai dormir, Lia. Ela tocou meu braço. Eu não gosto de ser tocado. Mas não afastei. — Eu não tenho mais ninguém — ela disse. — Tem a mim — respondi. — E só por isso. Ela assentiu devagar e entrou no quarto. Fiquei ali, sozinho, olhando a porta fechada. Eu não queria ela ali. Não queria lembranças. Não queria fraquezas. Mas uma promessa é uma promessa. E eu cumpro as minhas. Mesmo que isso me custe. Mesmo que isso destrua tudo. Porque, no fim das contas, eu não sou porto seguro. Não sou herói. Não sou salvador. Eu sou Morte. E agora… ela está dentro da minha casa. E isso muda tudo. A madrugada avançou, mas eu continuei sentado na varanda, encarando o nada. A favela nunca dorme de verdade; ela só muda de barulho. De dia são gritos, motos, crianças correndo. À noite, são sussurros, passos rápidos, gente que prefere fazer as coisas escondida. Eu conheço todos esses sons. Sei quando significam perigo. Sei quando significam problema. Mas naquela noite, o único problema estava dentro da minha casa. Levantei e entrei devagar. O corredor estreito parecia menor com ela ali. Passei pela porta do quarto onde Lia dormia — ou tentava. A luz fraca da rua entrava pela janela e desenhava sombras no rosto dela. Ela parecia tranquila, mas eu sabia que aquilo era só aparência. Ninguém volta pra cá sem carregar alguma coisa. E ninguém volta pra mim sem motivo. Fechei a porta com cuidado e fui até a cozinha. Enchi um copo d’água, mas nem bebi. Fiquei parado, apoiado na pia, tentando entender por que a presença dela mexia tanto comigo. Não era saudade. Não era carinho. Era outra coisa. Algo que eu não queria nomear. O celular vibrou de novo. Mensagem do Rato: Tem gente perguntando da garota. Claro que tinha. Curiosidade é veneno aqui. E veneno se espalha rápido. Respondi curto: Ninguém encosta nela. Guardei o celular e respirei fundo. Eu não devia ter escrito aquilo. Não daquele jeito. Parecia… proteção. E proteção é o primeiro passo pra fraqueza. Voltei pra varanda. O vento estava frio, carregando cheiro de chuva. Olhei a comunidade lá embaixo, cada luz acesa como um olho observando. Todo mundo sempre observando. E pela primeira vez em muito tempo, senti que algo estava prestes a sair do meu controle. Lia não era só uma promessa. Era uma lembrança viva do que eu tentei enterrar. E agora estava dormindo a poucos metros de mim. Eu sabia que isso ia dar errado. A questão era quando. Fiquei ali por longos minutos, ouvindo o barulho distante de uma moto descendo a ladeira. Depois outra. Depois silêncio. Silêncio de verdade, daquele que pesa no peito. A favela só fica assim quando algo está prestes a acontecer — ou quando todo mundo tem medo de descobrir. Voltei para dentro. A luz da cozinha ainda estava acesa, fraca, amarelada. Peguei a arma que deixo em cima da geladeira e chequei o carregador por hábito. Não porque eu esperasse algo naquela noite. Mas porque, desde que Lia chegou, tudo parecia mais vulnerável. Eu não gosto de me sentir vulnerável. Passei pelo corredor outra vez. A porta do quarto dela estava entreaberta. Não devia estar. Eu tinha fechado. Parei. Observei. O quarto estava escuro, mas consegui ver o contorno dela sentada na cama, joelhos puxados contra o peito. — Não consegue dormir? — perguntei, sem entrar. Ela levantou o rosto devagar. Os olhos brilhavam na penumbra. — Você também não — respondeu. Não gostei da resposta. Nem do jeito que ela me olhava, como se enxergasse rachaduras que eu mesmo finjo que não existem. — Fecha a porta quando for dormir — falei. — Aqui não é lugar pra descuido. — Eu sei — ela disse. — Cresci ouvindo histórias daqui. — Histórias não são a realidade. — Então me mostra a realidade. Fiquei parado. Aquilo não era curiosidade. Era desafio. Era coragem demais pra alguém que acabou de voltar. Ou burrice. Ou… saudade. — A realidade você vai aprender sozinha — respondi. — E vai aprender rápido. Ela abaixou o olhar, mas não parecia intimidada. Parecia… decidida. Fechei a porta por ela e voltei para a sala. Sentei no sofá, arma ainda na mão, e fiquei encarando a parede. Eu não devia ter deixado ela voltar. Não devia ter aceitado a promessa. Não devia ter deixado ela entrar. Mas já era tarde. E, pela primeira vez em anos, senti que não era o único acordado naquela madrugada. Senti que alguém mais estava esperando algo de mim. E isso… isso era perigoso.

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