Capítulo 4 — Lia
Eu nunca gostei de multidões.
Nunca gostei de barulho demais, de gente demais, de energia demais.
Mas naquela noite, no meio do baile, com o chão tremendo sob meus pés e as luzes piscando como se o céu tivesse descido pra dentro da favela, eu senti algo diferente.
Algo que eu não sabia se era medo… ou vida.
Caio estava ao meu lado.
Não colado, não me tocando, mas perto o suficiente pra eu sentir a presença dele como um campo magnético.
Ele não precisava encostar pra eu saber exatamente onde ele estava.
O corpo dele parecia emitir uma força própria, uma gravidade que puxava tudo — inclusive eu.
Eu tentava não olhar pra ele.
Tentava prestar atenção na música, nas pessoas, no MC Tremor pulando no palco com uma energia que parecia impossível de conter.
Mas toda vez que eu desviava o olhar, acabava voltando pro mesmo lugar.
Pra ele.
Caio não dançava.
Não sorria.
Não relaxava.
Ele observava.
Sempre observando.
Sempre calculando.
Sempre pronto.
E mesmo assim… havia algo diferente naquela noite.
Algo no jeito que ele me olhava quando achava que eu não estava vendo.
Algo no jeito que ele se aproximava quando alguém passava perto demais.
Algo no jeito que o maxilar dele travava quando eu sorria.
Eu não devia ter percebido nada disso.
Mas percebi.
E isso me assustou mais do que qualquer coisa naquele baile.
A música mudou.
O grave ficou mais pesado, mais profundo, como se estivesse batendo direto no meu peito.
As pessoas ao redor começaram a dançar mais perto, mais rápido, mais soltas.
Eu tentei acompanhar, mas meu corpo ainda estava meio travado.
Até que alguém esbarrou em mim.
Um cara grande, suado, com cheiro forte de álcool.
Ele sorriu torto, segurando meu braço.
— Foi m*l, princesa — disse, sem parecer nem um pouco arrependido.
Eu tentei me afastar, mas ele apertou mais.
E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Caio estava lá.
Não andando.
Não chegando.
Aparecendo.
Como se tivesse sido puxado por um instinto.
Ele segurou o pulso do cara com uma força que fez o sorriso dele sumir na hora.
— Solta — Caio disse.
Uma palavra.
Baixa.
Fria.
Letal.
O cara tentou rir, mas a dor fez a voz falhar.
— Foi m*l, Morte… não sabia que era tua…
Caio apertou mais.
— Não é minha.
Mas você vai soltar mesmo assim.
O cara soltou.
Rápido.
Quase tropeçando pra trás.
Eu fiquei parada, sem saber o que fazer.
Sem saber o que sentir.
Caio olhou pra mim.
E naquele olhar, eu vi algo que eu não tinha visto antes.
Medo.
Não dele.
De mim.
Por mim.
— Fica perto — ele disse, a voz mais baixa do que antes.
Eu assenti.
Não porque ele mandou.
Mas porque, pela primeira vez, eu quis.
O baile continuou, mas eu já não conseguia prestar atenção na música.
Meu corpo ainda tremia um pouco, e eu tentava disfarçar, mas Caio percebeu.
Ele sempre percebia.
— Quer ir embora? — ele perguntou.
Eu balancei a cabeça.
— Não.
Eu tô bem.
Ele me olhou como se não acreditasse.
E talvez não acreditasse mesmo.
— Se cansar, fala — ele disse.
Eu sorri de leve.
— Você sempre foi assim?
Mandão?
Ele desviou o olhar, como se estivesse irritado.
Mas eu vi o canto da boca dele quase subir.
Quase.
MC Tremor chamou o público pra cantar junto.
A favela inteira parecia vibrar com ele.
Gente pulando, gritando, levantando as mãos.
Era como se o mundo tivesse esquecido de tudo por alguns minutos.
Eu olhei pra Caio.
Ele não pulava.
Não cantava.
Mas havia algo diferente no rosto dele.
Algo que parecia… orgulho.
— Você gosta disso, né? — perguntei.
Ele demorou pra responder.
— Gosto quando o povo tá feliz.
Eu não esperava aquela resposta.
Não daquele jeito.
Não daquele homem.
— Você não parece alguém que se importa com isso — eu disse.
Ele virou o rosto pra mim.
— Eu me importo com mais coisas do que você acha.
Eu senti o estômago apertar.
Não de medo.
De outra coisa.
— Tipo o quê? — perguntei.
Ele ficou em silêncio.
E naquele silêncio, eu entendi que ele não ia responder.
Mas também entendi que a resposta estava ali.
No olhar dele.
No jeito que ele ficava sempre entre mim e qualquer perigo.
No jeito que ele parecia carregar o peso do mundo nas costas, mas ainda assim encontrava espaço pra se preocupar comigo.
Eu desviei o olhar antes que ele percebesse demais.
A noite foi passando.
O baile ficou mais cheio, mais quente, mais vivo.
Eu comecei a relaxar.
A dançar um pouco.
A sentir o ritmo entrando no meu corpo.
E Caio…
Caio ficou me observando.
Não de um jeito possessivo.
Não de um jeito controlador.
De um jeito… atento.
Como se cada movimento meu fosse importante.
Como se eu fosse importante.
E isso me confundia mais do que tudo.
Em um momento, eu me virei pra ele.
— Você não vai dançar?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Eu não danço.
— Nunca?
— Nunca.
— Nem quando era mais novo?
Ele respirou fundo.
— Nem quando era mais novo.
Eu ri.
— Você devia tentar.
— Não.
— Por quê?
Ele me olhou como se a resposta fosse óbvia.
— Porque eu não sei.
Eu dei um passo pra frente.
Só um.
Mas foi o suficiente pra diminuir a distância entre nós.
— Eu posso te ensinar.
Ele ficou imóvel.
Completamente imóvel.
Como se meu toque — mesmo sem tocar — tivesse congelado ele.
— Não precisa — ele disse, a voz mais baixa do que antes.
— Eu sei que não precisa — respondi. — Mas eu quero.
Ele engoliu seco.
E eu vi o conflito nos olhos dele.
Um conflito tão forte que quase dava pra ouvir.
— Lia… — ele começou.
Mas antes que ele terminasse, alguém gritou o nome dele.
Rato.
— Morte!
Vem cá rapidão!
Caio fechou os olhos por um segundo, irritado.
Depois olhou pra mim.
— Não sai daqui.
Eu assenti.
Ele saiu.
E eu fiquei.
Mas alguma coisa dentro de mim dizia que aquela noite ainda não tinha acabado.
Eu fiquei parada por alguns minutos, observando a multidão.
O baile estava no auge.
As luzes piscavam rápido, o som batia forte, e MC Tremor incendiava o palco com cada verso.
Mas eu não conseguia relaxar.
Não sem Caio ali.
Eu tentava não admitir isso pra mim mesma.
Mas era verdade.
Eu me sentia mais segura com ele perto.
Mais… inteira.
E isso era perigoso.
Muito perigoso.
Porque Caio não era um homem comum.
Não era alguém que eu podia decifrar, controlar ou prever.
Ele era tempestade.
E eu estava começando a gostar da chuva.
Quando ele voltou, o rosto estava mais sério do que antes.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.
— Nada que você precise se preocupar.
Eu franzi a testa.
— Você sempre fala isso.
— Porque é verdade.
— Ou porque você não quer que eu saiba?
Ele me encarou.
E naquele olhar, eu vi a resposta.
— As duas coisas — ele disse.
Eu respirei fundo.
— Caio… eu não sou uma criança.
— Eu sei.
— Então para de me tratar como uma.
Ele ficou em silêncio.
Mas não era um silêncio irritado.
Era um silêncio… pensativo.
— Eu não trato você como criança — ele disse, finalmente. — Eu trato você como alguém que eu não quero perder.
Meu coração parou.
Literalmente parou.
Eu não sabia o que dizer.
Não sabia o que sentir.
Não sabia como respirar.
— Caio… — eu comecei.
Mas antes que eu pudesse continuar, um barulho estourou perto da entrada do baile.
Gritos.
Correria.
Confusão.
Caio virou na hora.
O corpo dele mudou.
A postura mudou.
O olhar mudou.
Ele virou Morte.
— Fica atrás de mim — ele disse.
E eu obedeci.
Sem questionar.
Sem pensar.
Porque naquele momento, eu entendi uma coisa:
Eu podia não saber o que sentia por ele.
Podia não entender o que estava acontecendo entre nós.
Podia não saber se aquilo era certo ou errado.
Mas eu sabia de uma coisa.
Eu confiava nele.
Mais do que devia.
Mais do que era seguro.
Mais do que fazia sentido.
E isso…
Isso era o começo de algo que eu não sabia se conseguiria parar.