Capítulo 3 — Caio (Morte)
Eu acordei antes do sol, como sempre.
A favela ainda estava meio adormecida, mas eu já sentia o dia pulsando debaixo da pele. Hoje era dia de baile. E dia de baile nunca era só festa. Era trabalho. Era controle. Era manter o território respirando sem deixar ninguém sufocar.
Rato apareceu na porta do barraco antes mesmo de eu terminar de calçar a bota.
— Acordado já? — ele perguntou, como se fosse surpresa.
Eu só ergui uma sobrancelha.
Ele riu.
— Tá, tá… pergunta i****a.
Saímos juntos, descendo a viela estreita. O chão ainda estava úmido da chuva da madrugada, e o cheiro de terra misturado com lixo molhado subia forte. A favela tinha seus próprios perfumes. Quem cresceu aqui aprendia a reconhecer cada um.
— O som chega às três — Rato disse, andando rápido. — Os caras da luz vêm às quatro. E o MC… bom, o MC tá confirmado.
— Ele mesmo? — perguntei.
— Ele mesmo. MC Vulgo Tremor. O moleque tá estourado. Vai lotar.
Eu assenti.
Tremor era novo, mas tinha presença. Voz forte, letra pesada, postura de quem sabia onde estava pisando. Era o tipo de artista que atraía gente — e problema. Mas problema eu sabia resolver.
— Ele pediu o quê? — perguntei.
— Nada demais. Só segurança reforçada e camarim isolado.
— Isolado onde? — perguntei, já imaginando a logística.
— No galpão do Zé. Ele liberou.
Bom. O galpão era grande, discreto e fácil de controlar.
Eu gostava de lugares assim.
Descemos até a parte baixa da comunidade, onde o baile ia acontecer. O espaço ainda estava vazio, só o chão batido e alguns postes tortos. Mas eu já conseguia ver tudo montado na minha cabeça: luzes, caixas de som, fumaça, gente dançando, gritando, vivendo.
— A gente precisa reforçar a entrada de cima — eu disse. — E colocar dois homens na laje da Dona Rita. De lá dá pra ver tudo.
Rato anotou mentalmente. Ele era bom nisso.
Era por isso que eu confiava nele.
— E a Lia? — ele perguntou do nada.
Eu parei de andar.
— O que tem ela?
— Nada. Só… ela tá aqui. E baile é baile, né? Movimento, gente estranha, bebida, confusão…
— Eu sei o que é um baile — cortei.
Ele levantou as mãos, rendido.
— Só tô dizendo. Ela não é daqui mais. Não sabe como funciona.
Eu respirei fundo.
Ele tinha razão.
Mas eu não queria admitir.
— Eu cuido disso — falei.
Rato me olhou de lado, com aquele sorriso que ele tentava esconder.
— Cuida mesmo, né?
Eu ignorei.
Continuei andando.
Voltamos pra cima perto do meio-dia. O sol já estava forte, queimando o asfalto quebrado. Eu sentia o suor escorrendo pelas costas, mas não me incomodava. O calor fazia parte da vida aqui.
Quando cheguei em casa, o cheiro veio primeiro.
Comida.
Comida de verdade.
Comida feita com calma.
Eu não lembrava a última vez que senti isso.
Entrei e encontrei Lia na cozinha, mexendo uma panela com o cabelo preso de qualquer jeito e a testa suada. Ela parecia concentrada, mas ao mesmo tempo… leve. Como se cozinhar fosse uma forma de respirar.
Ela me viu e sorriu de um jeito pequeno, quase tímido.
— Tô terminando — disse.
Eu não respondi.
Não porque eu não quisesse.
Mas porque eu não sabia o que dizer.
Fiquei parado na porta, observando.
Ela mexia a panela com cuidado, como se estivesse cuidando de algo frágil.
E por um segundo — só um segundo — eu senti algo estranho no peito. Algo que eu não devia sentir.
— Pode sentar — ela disse. — Já vai ficar pronto.
Eu sentei.
Ela serviu o prato.
E quando eu dei a primeira garfada, o gosto me acertou como um soco.
Era simples.
Mas era bom.
Bom de um jeito que eu não lembrava mais.
— Tá r**m? — ela perguntou, insegura.
— Não — respondi. — Tá bom.
Ela sorriu de novo.
E eu desviei o olhar.
Comemos em silêncio.
Mas não era o silêncio pesado de antes.
Era outro.
Um silêncio que parecia… possível.
Quando terminamos, ela começou a juntar os pratos.
Eu fiquei olhando, sem saber por quê.
— Hoje tem baile — eu disse, finalmente.
Ela parou.
— Eu ouvi uns comentários — respondeu.
— Eu e o Rato estamos organizando.
— Imagino.
Ficamos alguns segundos sem falar.
Eu sentia o ar entre nós mudar, como se algo estivesse prestes a acontecer.
— Você quer ir? — perguntei.
Ela virou devagar, surpresa.
— Eu?
— É.
Ela pensou por alguns segundos.
Eu conseguia ver a dúvida nos olhos dela.
O medo.
A curiosidade.
E algo mais.
— Você acha que eu devo? — ela perguntou.
Eu respirei fundo.
— Eu acho que você faz o que quiser. Mas se for… fica perto de mim.
Ela engoliu seco.
— Por quê?
— Porque baile é baile. E você… — parei, escolhendo as palavras. — Você não tá acostumada mais.
Ela me encarou, séria.
— E você acha que eu não dou conta?
— Não é isso.
— Então o que é?
Eu passei a mão no rosto, irritado comigo mesmo.
— É que eu não quero que nada aconteça com você.
Ela ficou em silêncio.
Eu também.
E naquele silêncio, eu percebi que tinha falado demais.
À tarde, voltei pra rua pra resolver o resto das coisas.
O som chegou.
As luzes chegaram.
Os homens começaram a montar tudo.
A favela inteira parecia vibrar, como se estivesse esperando a noite cair pra finalmente respirar fundo.
MC Tremor chegou às seis.
Cheio de energia, cheio de gente, cheio de ego.
Mas profissional.
Gostei dele.
— Morte, né? — ele disse, apertando minha mão. — Ouvi falar de você.
— Espero que coisa boa.
Ele riu.
— Depende do ponto de vista.
Eu dei um meio sorriso.
Ele entendeu o recado.
A noite começou a nascer.
As luzes acenderam.
O som testou.
A favela acordou de vez.
E eu voltei pra casa.
Lia estava no quarto quando cheguei.
Ela se virou quando me viu na porta.
E eu…
Eu perdi o ar por um segundo.
Ela não estava exagerada.
Não estava montada.
Não estava tentando chamar atenção.
Mas estava linda.
Linda de um jeito que machucava.
— Tá… pronta? — perguntei, tentando manter a voz firme.
— Acho que sim — ela respondeu.
Descemos juntos.
A favela estava viva.
Gente rindo, dançando, bebendo, conversando.
O chão tremia com o grave do som.
As luzes piscavam como estrelas nervosas.
E quando entramos no meio da multidão, eu senti os olhares.
Todos eles.
Alguns curiosos.
Alguns maliciosos.
Alguns perigosos.
Eu cheguei mais perto dela sem perceber.
— Fica perto — murmurei.
Ela assentiu.
MC Tremor subiu no palco.
A multidão explodiu.
O baile começou de verdade.
E eu…
Eu devia estar prestando atenção em tudo.
Devia estar olhando as entradas, as saídas, os becos, os rostos suspeitos.
Mas eu só conseguia olhar pra ela.
Lia dançava devagar, tímida, mas com um brilho nos olhos que eu nunca tinha visto.
Um brilho que me fez sentir algo que eu não devia sentir.
Rato apareceu do nada, rindo.
— A menina tá curtindo, hein?
Eu lancei um olhar pra ele.
Ele levantou as mãos, rindo mais ainda.
— Tá, tá… não falei nada.
Mas ele falou.
E eu ouvi.
E o pior é que ele não estava errado.
Lia olhou pra mim naquele momento.
E quando nossos olhos se encontraram, o mundo pareceu diminuir.
O som ficou distante.
A luz ficou fraca.
A favela inteira desapareceu.
Era só ela.
E eu.
E isso…
Isso era perigoso.
Muito perigoso.
Porque eu sabia exatamente o que acontecia quando eu deixava alguém chegar perto demais.
E eu não queria que isso acontecesse com ela.
Mas naquele instante, olhando pra Lia no meio do baile, com o som batendo forte e o coração batendo mais forte ainda…
Eu percebi que talvez já fosse tarde demais.