Capítulo 2 — Lia
Eu sempre soube que voltar pra cá seria difícil.
Só não imaginei que seria desse jeito — com o coração batendo rápido demais, com o ar preso na garganta e com a sensação de que eu estava entrando num lugar que não me queria de volta.
A moto do Rato parou na entrada da comunidade, e eu desci devagar, tentando não demonstrar que minhas pernas tremiam.
Não era medo.
Era… outra coisa.
Algo que eu não sabia nomear.
E então eu vi ele.
Caio.
Parado como se fizesse parte da paisagem.
Braços cruzados, expressão dura, olhar que parecia cortar o ar.
Ele sempre teve esse jeito de olhar, como se estivesse avaliando tudo — e todos — o tempo inteiro.
Mas agora havia algo diferente.
Algo mais pesado.
Como se o mundo tivesse colocado mais pedras nas costas dele desde a última vez que nos vimos.
Quando ele disse “bem-vinda”, eu senti como se estivesse entrando num território proibido.
Mas eu entrei mesmo assim.
O caminho até o barraco foi silencioso.
Eu observava tudo — as vielas estreitas, as paredes descascadas, as crianças correndo descalças, as janelas abertas com gente olhando sem realmente olhar.
A favela tinha um ritmo próprio, um pulso próprio.
E eu não sabia mais se conseguia acompanhar.
Caio caminhava na minha frente, firme, seguro, como se cada passo dele fosse um aviso para o mundo não se aproximar.
Eu lembrava dele assim.
Mas também lembrava de outra versão — a que sentava ao lado da minha mãe no hospital, segurando a mão dela como se aquilo fosse a única coisa que o mantinha inteiro.
Essa versão, eu não via mais.
Quando chegamos, ele abriu a porta do quarto e disse que eu ficaria ali.
Simples.
Direto.
Frio.
Como sempre.
Mas quando eu agradeci, ele respondeu que era obrigação.
Por causa da minha mãe.
Minha mãe.
A única pessoa que conseguia fazer ele baixar a guarda.
A única que falava com ele sem medo.
A única que dizia que Caio não era o que o mundo via — que ele era mais, muito mais, mesmo que ninguém acreditasse.
Eu queria acreditar nisso também.
Mas olhando pra ele agora… era difícil.
Passei o dia arrumando minhas coisas, tentando me acostumar com o cheiro da casa, com o som da rua, com a presença dele andando de um lado para o outro como um animal preso.
Ele não falava muito.
Eu também não.
Mas o silêncio entre nós não era confortável.
Era denso.
Pesado.
Cheio de coisas que nenhum dos dois queria tocar.
À noite, quando saí para respirar, encontrei ele sentado na varanda.
A favela brilhava com luzes improvisadas, como um céu invertido — estrelas presas em postes tortos, piscando sem ritmo.
Era bonito, de um jeito triste.
Sentei ao lado dele.
Não porque eu queria conversar.
Mas porque eu queria entender.
Quando perguntei por que chamavam ele de Morte, ele respondeu como se estivesse dizendo a previsão do tempo.
Sem peso.
Sem culpa.
Sem nada.
Mas eu vi.
Nos olhos dele.
Tinha algo ali.
Algo que ele tentava esconder.
Algo que doía.
E quando perguntei se eu merecia o que ele fazia…
Ele me olhou como se eu tivesse tocado numa ferida que ele fingia não ter.
“Você não merece nada que eu faço.”
Eu devia ter parado ali.
Mas eu nunca fui boa em parar.
Toquei o braço dele.
Ele não afastou.
E isso me assustou mais do que se tivesse afastado.
Porque naquele segundo, eu percebi que Caio não era só o homem que minha mãe confiou.
Ele era o homem que ela temia que eu encontrasse de novo.
E agora eu estou aqui.
Dentro da casa dele.
Dentro do mundo dele.
Dentro de algo que eu não sei se consigo sair depois.
Acordei cedo no dia seguinte.
Não porque eu quisesse, mas porque a favela acorda a gente.
Gritos, motos, música, passos, conversas atravessando paredes finas.
Tudo junto, tudo ao mesmo tempo.
Caio já estava acordado.
Claro.
Ele parecia alguém que não dormia.
Ou que dormia com um olho aberto.
Ele estava na cozinha, mexendo numa panela como se aquilo fosse uma tarefa militar.
Eu fiquei na porta, observando.
— Bom dia — eu disse.
Ele não respondeu.
Só continuou mexendo.
Eu respirei fundo.
Eu sabia que ele era assim.
Mas saber não torna mais fácil.
— Você sempre acorda tão cedo? — tentei de novo.
— Sempre.
— Por quê?
— Hábito.
Eu esperei mais alguma coisa.
Uma frase.
Uma explicação.
Qualquer coisa.
Nada.
Ele colocou o café na mesa e saiu, como se eu fosse invisível.
Eu fiquei ali, sozinha, olhando a xícara.
E pela primeira vez desde que cheguei, senti raiva.
Não dele.
De mim.
Por esperar algo que eu sabia que ele não podia dar.
Passei a manhã andando pela comunidade.
Eu precisava entender onde estava pisando.
Precisava lembrar como era viver aqui.
As pessoas olhavam pra mim com curiosidade.
Algumas com desconfiança.
Outras com pena.
Eu não queria nenhuma das três.
Quando voltei, Caio estava na varanda, falando com dois homens.
Eles pareciam nervosos.
Ele parecia… ele mesmo.
Frio.
Calmo.
Letal.
Quando me viu, os olhos dele mudaram por um segundo.
Um segundo.
Mas eu vi.
Ele não gostou de me ver ali.
Não gostou de eu estar perto do que ele fazia.
Os homens foram embora rápido.
Caio ficou me encarando.
— Eu falei pra você não se meter nos meus assuntos — ele disse.
— Eu não me meti. Só voltei pra casa.
— Não fica andando por aí sozinha.
— Por quê? — perguntei, cruzando os braços.
Ele respirou fundo, irritado.
— Porque aqui não é lugar pra você.
— Mas é pra você?
Ele não respondeu.
Virou de costas e entrou.
E eu fiquei ali, sentindo o peso daquelas palavras.
Aqui não é lugar pra você.
Mas era o único lugar que eu tinha.
À tarde, arrumei meu quarto.
Ou tentei.
Mas a verdade é que eu estava inquieta.
Algo dentro de mim não parava de se mexer, como se eu estivesse esperando alguma coisa acontecer.
E aconteceu.
Ouvi passos pesados no corredor.
A porta abriu sem aviso.
Caio.
Ele entrou como se o quarto fosse dele.
Como se tudo fosse dele.
— A gente precisa conversar — ele disse.
Eu sentei na cama, tentando parecer calma.
— Sobre o quê?
— Sobre você. Sobre ficar aqui.
Meu coração apertou.
— Você não quer que eu fique?
Ele passou a mão no cabelo, irritado.
Não com raiva.
Com… conflito.
— Não é isso.
— Então o que é?
Ele me olhou.
E naquele olhar, eu vi tudo que ele tentava esconder.
Medo.
Culpa.
Responsabilidade.
E algo que eu não sabia se queria nomear.
— Eu fiz uma promessa pra sua mãe — ele disse. — E eu cumpro minhas promessas.
— Eu sei.
— Mas você aqui… — ele parou, procurando palavras. — Complica tudo.
— Eu não pedi pra complicar nada.
— Eu sei. — Ele respirou fundo. — Mas complica mesmo assim.
Eu fiquei em silêncio.
Ele também.
E naquele silêncio, eu entendi.
Ele não tinha medo por ele.
Tinha medo por mim.
À noite, sentei na varanda de novo.
A favela estava viva, pulsando, respirando.
E eu também.
Caio apareceu depois de um tempo.
Sentou ao meu lado.
Sem falar nada.
Eu esperei.
Ele também.
Até que eu disse:
— Eu não vou embora.
Ele virou o rosto devagar.
— Não é seguro.
— Eu sei.
— Então por que ficar?
Eu olhei pra frente, para as luzes tremendo no escuro.
— Porque minha mãe confiou em você.
E porque eu quero entender por quê.
Ele ficou em silêncio.
Mas não era o silêncio frio de antes.
Era outro.
Um silêncio que dizia que ele não sabia como responder.
E talvez nunca soubesse.
Mas eu estava ali.
E ele também.
E isso, por enquanto, era suficiente