Capítulo 6 — Morte A favela tem um jeito estranho de avisar quando o mundo vai entortar. Não precisa de grito, tiro ou correria. Às vezes, o aviso é apenas um silêncio que não deveria existir; um vento que sopra fora de hora ou um arrepio que sobe pela espinha como um rastro de gelo. Eu senti o aviso antes mesmo de ver o perigo. O baile estava no auge. As luzes fritavam a vista, o suor se misturava ao grave do som e a multidão era um corpo só, pulsando. Mas, no meio daquela bagunça, eu travei. Foi um estalo interno. Um segundo em que o mundo perdeu o brilho. Senti como se alguém tivesse tocado meu ombro sem encostar um dedo sequer. Eu conheço essa sensação. A rua ensina, o morro confirma e a vida, mais cedo ou mais tarde, cobra. Procurei a Lia com o olhar e meu peito apertou. Ela esta

