Capítulo 29

1708 Words

Capítulo 29 — Lia O silêncio nos quartos da Dona Zuleide tem um gosto metálico. É o som de respirações presas atrás de portas de madeira compensada e o estalo de pregos velhos cedendo ao peso da miséria. Acordo antes do sol, mas a escuridão no meu quarto sem janelas é eterna. Sento na beira da cama de ferro, sentindo o rangido do metal ecoar nas paredes de tijolo cru. No Camará, o tempo não corre; ele rasteja como um animal ferido. Eu não sou mais a Lia. A Lia ficou estirada naquele asfalto molhado da Zona Sul, sangrando a submissão que o Lauro e o Morte injetaram nela por dezoito anos. Aqui, eu sou apenas uma sombra sem nome, um vulto que ocupa o quarto 04 e que paga a diária com notas amassadas e silêncio. Passo a mão pelo meu cabelo. Curto. Áspero da tintura barata. Olho para o canto

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