Capítulo 27 — Lia A chuva não lava nada. Ela só espalha. Meus tênis escorregam no asfalto molhado enquanto eu desço a rua sem olhar pra trás. O corpo ainda vibra com o impacto da coronhada; meu punho dói. Mas a dor não me atrasa — ela me mantém acordada. Eu bati nele. No Morte. Não como protegida. Como alguém que decidiu parar de obedecer. O ar entra rasgando os pulmões, quente demais para uma noite fria. O mundo parece mais nítido agora, como se alguém tivesse ajustado o foco. Cada farol, cada buzina distante, cada sombra de gente correndo pra se proteger da chuva. Eu não corro para me esconder. Corro porque ficar parada agora seria morrer. Desço mais duas ruas antes de entrar no primeiro beco. Não penso. Viro à direita porque algo em mim manda virar. Sempre confiei mais no ins

