Nona ainda estava aqui depois do jantar. Ela preparou um suco de laranja para mim com um pouco de canja. Deixou a comida chinesa na geladeira, com algumas bebidas chiques, cerveja e um bolo de chocolate.
Eu comi tudo, até por que estava morrendo de fome. E enquanto lavava a louça ela começou a me explicar algumas coisas.
—E?
—Pois é, aparentemente, não há supressor que faz efeito em você. Não o efeito esperado. Pelas analises, seu nível de feromonina está ultrapassado os limites.
—Pensei que os feromônios não fossem produzidos diretamente do corpo.
Dei uma garfada no meu bolo, balançando as pernas debaixo da mesa.
—Antes não era assim, os feromônios eram um conjunto de substâncias, mas com a evolução a humanidade passou a produzir uma substância pura e única.
—É... Você tinha me dito que somos descentes de várias espécies diferentes.
—Macacos, lobos e répteis, gatos também... São muitos.
—Ah...__ soltei um suspiro. Com certeza eu iria perguntar isso de novo. Eu nunca me lembrava de tudo que ela dizia.
—Achamos que seja uma parte do cérebro seja responsável por isso, apesar de não haver uma mudança aparente.
Blá, blá...
—Então é um mistério.
—Não é exatamente um mistério. Esse tipo de código genético foi encontrado em escrituras pré históricos e registrados em uma antiga civilização, que parecia está extinta. Por volta da idade média, depois do surto da peste bubônica, as pessoas que sobraram eram justamente portadoras do subgênero alfa. O surgimento de ômegas e betas dominantes começou de forma lenta, principalmente os ômegas.
—A ciência é realmente extraordinária.__ balancei a cabeça concordando com minha própria afirmação.
Do nada a Nona me mandava mensagem falando sobre tal bicho que foi descoberto enterrado a não sei quantos metros de profundidade. Pessoas comum mandavam figurinhas de memes, a Nona me enviava artigos científicos falando de coisas que eu nem entendia, e se eu reclamasse ainda era capaz de sair apanhando.
A gente tinha essa i********e bacana, o Kaio até tinha ficado com ciúmes algumas vezes, mas mudou de linha de raciocínio quando percebeu que meus gostos eram mais... sofisticados.
Não é que eu estiver rejeitando a Nona... Quem em sã consciência rejeitaria? A mulher era rica, inteligente, bonita e tinha um excelente gosto para tudo, o único defeito da Nona era que ela não era homem. Só isso. Eu preferia ela como minha amiga e confidente do que como namorada, não que mudasse alguma coisa, tirando a parte do sexo.
Ela tinha se sentado à mesa em algum momento, esperando meu prato para leva-lo até a pia.
Enquanto eu enrolada mechas do seu longo cabelo n***o entre os dedos, fiz uma pergunta que estava me martelando.
—Por quê eu mudei tão drasticamente?
—Há alguns casos do nível de feromonina mudar completamente um ômega. Mas isso acontece principalmente com os masculinos, já que por causa progesterona eles acabam parecendo mais mulheres do que homens.__ explicou.—É normal, você só não está acostumado.
—Então isso...__ fiz um gesto exagerado apontando para mim.— É normal?
—Exatamente. E você ficou ótimo assim.
É claro que eu estava ótimo! Eu parecia ter saído de dentro de um livro de conto de fadas, o problema era que meus olhos não acreditavam no que viam.
—Ah! Então quer dizer que perdi completamente minhas chances com você Nona, agora que sou quase uma menina.
Ela riu do meu comentário e sentou no sofá, colocando minhas pernas sobre as suas coxas, saindo da posição dolorosa que era está de joelhos sobre o chão. Já estava me dando agonia.
—Pode apostar que sim!
—Poxa, o Kaio venceu dessa vez!
—Acho mais fácil o Kaio querer você agora do que a mim.
—Eca! Não, de jeito nenhum!__ fiz um gesto de quem está vomitando, colocando o dedo na boca.
Eu e o Kaio? Nunca! Jamais! Nem que ele fosse o último homem da terra!
—Por que "eca"?__ ela me encarou, claramente ofendia.—O que tem de tão "eca" no meu marido?
—Ele é um saco.__ retruquei sem hesitação.— Eu não conseguiria viver com ele mais do que seis horas.
—Isso é por que você é alvo fácil de ser provocado.
Revirei os olhos.
-—O cara, todas as vezes, procura um jeito de tirar um sarro de mim por eu ser baixinho. E ainda fica imitando o meu sotaque.
Ela soltou um risinho.
—Isso é xenofobia!
—Você só tem sotaque forte quando fica irritado ou nervoso. O Kaio só...
—Ah... Nem tenta. Não vá defender ele.
—Mas é fofinho... Mainha... Painho... Oxe...vixi... Qual era aquele outro?
—Para...__ eu puxei uma mecha do seu cabelo.
—Ai! Tá bom! Tá bom!__ ela ela coçou a cabeça onde eu puxei os fiosinhos.
-Está se sentindo melhor?__ perguntou.
-Muito melhor.__ sorri, relaxando mais ainda.
Seu cafuné estava gostoso, até deu vontade de dormir.
—Para ser sincera fiquei surpresa quando o Dr. Eric me contou que você havia sido marcado. Tem noção do tamanho do choque que eu tomei?
—Fiquei surpreso também, tá?
—Derramei café na minha blusa, me queimei pra valer!__ ela subiu a blusa que estava usando e me mostrou as marcas vermelhas na barriga.
—Caramba!!!__ fiz uma careta.__ levando o dedo até a ferida. Ela abaixou a blusa antes que eu pudesse tocar.
—Culpa sua.
—Culpa minha, nada.
Após algumas leves ameças de beliscões ela retomou o assunto primeiro.
—Não achei que a sua primeira vez fosse parecida com a minha.
—Mas eu não transei com ele.__ Falei.
Nem de longe, a gente só se esfregou um no outro e... Tínhamos nos beijado?
Deitei a cabeça no braço do sofá, tocando meus lábios quando essa lembrança trouxe consigo a sensação de formigamento para a minha boca.
—Como assim? Você tinha que estar atado.
—A gente não transou. Só... Demos uns amassos e ele me mordeu.
—Benjamin...
—Não estou mentindo! Eu juro!
—Nenhum pouquinho? Nem a cabecinha?
Eu arfei, meio envergonhado.
—N-não. Nada... Digo, ele esfregou entre as minhas pernas.
Nunca achei que fosse gozar só por ter alguém se esfregando. Alguém que eu nem conhecia
Mas o corpo dele era quente, forte e ele cheirava como o paraíso. Fique todo derretido.
—Há duas formas de se vincular a uma pessoal, a primeira é pela forma carnal, que serve basicamente como um contrato temporário, e o segundo é o vínculo da alma, que no caso, é definitivo. Como você não transou?
—Eu sei! Mas a gente... Não entrou o negócio. Eu... Nós...__ balancei as mãos no ar.— Ele não quis.
Por que por mim... Eu estava todo empolgado naquela hora.
—Ele resistiu?__ ela parecia ainda mais chocada.
—Ele só me pediu para ir embora. Eu escutei isso o tempo todo. Algo como "Não posso perder a cabeça".
—Benjamin... Você tem noção da gravidade da situação?
—Ai caramba! Será que é um alfa vinculado?__ fiquei com um homem comprometido?
Eu sou uma p*****a!
—Além disso, você poderia ter pegado alguma DST.
—Vira essa boca pra lá!__ eu levantei de supetão. Me benzendo no processo.
Dr. Eric e eu tínhamos tido essa conversa, mas eu estava limpo. Os exames não mentiam.
—Já faz quase três semanas. Por que não me contou nada?
—Achei que estava tudo bem.
—Achou? Guardar isso por tanto tempo e só vir procurar ajuda depois de praticamente passar m*l?
—Desculpa...
Ela estava em uma viagem de trabalho em Oxford. Soube de mim só quando o Kaio ligou para ela depois que eu liguei para ele. Ela ficou furiosa naquele dia, tanto que, se não fosse pelo o Kaio ter passado uma hora e cinquenta dois minutos no telefone tentando convence-la, ela teria pegado o primeiro avião e teria vindo me enforcar e ou me enterrar vivo.
—Não faça isso. Eu prometi para os seus pais que cuidaria de você. Nunca mais, Ben.
—Eu entendo você. Te deixei preocupada, eu sinto muito, mas eu juro para você que eu não senti nada até cinco dias atrás.
Ela me puxou para perto de si e fez cafuné de novo na minha cabeça, me abraçando como se fosse a minha mãe de verdade.
—Eu não achei que fosse ficar no cio por tanto tempo.
—Durante o cio de um ômega, o alfa morde a nuca entre a vértebra C3 e C5, injetando uma grande quantidade condensada de feromonina no corpo do receptor.__ ela começou o monólogo.—A feromonina do alfa ajuda na anulação de efeitos noviços e no controle de liberação de feromonina do tipo ômega.
—Vou fingir que entendi isso aí.__ fechei os olhos, relaxando.
—Serve basicamente como um remédio injetado. Mas que possui uma pequena reserva localizada no pescoço.__ ela apontou para a minha nuca.— E age conforme o corpo do ômega sofre com as alterações. A sua está estranhamente parecendo mais a mordida de um cachorro raivoso do que a de um ser humano.
Mordida de cachorro?
—É claro que nem tudo são rosas.__ ela continuou.— Se o vínculo não der certo, o ômega sofre mais ainda, tendo que suportar uma substância intrusa, e a dor da mordida que não desinflama. Nem todo mundo é compatível, é tipo no caso da doação de sangue.__ ela disse tudo isso num fôlego só.
Coloquei a mão sobre a marca inchada. Ela realmente não parava de doer, desde alguns dias atrás.
—Eu não sei por que você está sofrendo de incompatibilidade, e nem sei como vocês conseguiram um vínculo sem estarem atados. Mas prometo que vou descobrir como te ajudar, certo?__ ela colocou as mãos sobre os meus ombros.
—E se ele for casado?__questionei.
—Ah... Ben...
—E se tiver uma família? Filhos?
—Benjamin... Acredito que essa pessoa nem saiba quem você é. Okay? Fica calmo. Não precisa pensar nisso.
—Mas eu estou calmo.
—Coisas assim acontecem.__ Ela deu de ombros.
—Achei que você se importaria mais.
—Mas eu me importo.
—Me refiro ao fato de que, hipoteticamente, haja a possibilidade de eu nunca mais ver esse cara.
—Então, apenas pense em não se importar em esse pessoa ser comprometida ou não, isso não lhe diz respeito.
Eu soltei um suspiro e balancei a cabeça, concordando.
—Como ele era?
Soltei um riso anasalado, revirando os olhos no processo.
—Não foi você quem disse para eu não me preocupar com isso?
—Ah.... Qual é?__ ela me pediu com aquela sua vozinha fofa. Como o timbre da sua voz era um pouco mais grave, se comparado a sua estrutura física, ela ainda conseguia subir algumas notas acima sem parecer tão forçado.
Era a única coisa fofa nela.
—Ele é alto, muito grande!__ eu abri um espaço entre as minhas mãos. Coisas assim aconteciam, e eu vi algo excepcionalmente grande.__ E foi tão... Gentil.
—Grande?__ ela olhou para o tamanho que eu estava indicando.— O que é isso? Uma régua escolar?
—Sim... Mais ou menos desse tamanho.__ balancei as mãos para dá ênfase.
—Certo...__ ela balançou a cabeça, parecia perturbada.— A questão maior aqui é... Digo... Digamos, que você deu só deu sorte.
Por não ter morrido? Por que eu tinha certeza que isso teria feito um estrago medonho.
—Quer dizer que eu dei sorte?
—Por que isso dói pra caramba! Poderia ter acontecido coisa muito pior
Ela estava falando sobre levar varada ou ser mordido?
—Uma pessoa que enfia os dentes no seu pescoço... Bem, você nunca foi mordida?__presumi que fosse sobre a mordida.
—Mordi.
—Ah.
—Digamos que sim.__ ela quis concordar comigo, mesmo sem saber a sensação.— Felizmente suas feromoninas possuem uma alta taxa de compatibilidade.__sorriu educadamente, tentado manter o nervosismo na linha.— Isso só me deixa mais curiosa.
Eu tentei não parecer chocado, éramos compatíveis? Mas eu não fazia ideia que precisava de compatibilidade com os feromônios. Pensando bem, até que fazia sentido. Tinha os supressores, os perfumes... A gente sempre precisava de um tipo específico para usar, ou não dava certo.
—Obrigada Nona.
Ela foi pega de surpresa.
Se eu estivesse sozinho, eu continuaria fazendo besteira. Eu era realmente um cara sortudo.
—Pelo o quê?__ perguntou.
—Por cuidar tão bem de mim. E desculpa por não ter te contado antes.
—Quando você vai dizer para a sua mãe?
—Eu ainda não sei. Ela surtaria.
—Obviamente. Só... Não demore muito.
Eu assenti.
—Obrigada mais uma vez.__ pedi.
—Eu ganho para isso.__ disse, e apontou para os sapatos.
—Mesmo assim.__ revirei os olhos.
—Depois desses cinco anos Benjamin, acha que eu ainda ia ser indiferente a você?
—Poderia.
Ela sorriu, parecendo debochar de mim.
—Em uma outra realidade.