Lívia O dia amanheceu pesado, como se as paredes da mansão ainda guardassem o eco dos disparos da madrugada passada. Eu desci a escadaria de mármore com o coração apertado, revivendo cada detalhe dos avisos de Micael pelo interfone e o brilho frio dos olhos dele quando se movia em meio ao caos. Tentei me focar no café — a névoa de uísque no meu paladar, o sabor amargo do expresso — mas nada me distraía da inquietação que crescia por dentro. Foi quando encontrei um envelope sobre a escrivaninha dele, o nome “Lívia” escrito em letra elegante, mas o conteúdo dentro me fez as mãos tremerem. Duas fotografias: eu o observando sair de um cômodo, o rosto dele colado a outra mulher — uma presença esguia, cabelos castanhos presos num coque, pele clara que contrastava com o terno escuro de Micael.

