Lívia A manhã nasceu cinzenta sobre o Morro, mas dentro da mansão tudo ainda obedecia à penumbra silenciosa do meu quarto. Eu despertara com a sensação estranha de ter sido vigiada, um formigamento frio correndo pela nuca. Abri os olhos devagar e notei algo que me fez o coração disparar: havia um objeto apoiado sobre a mesinha ao lado da cama, envolto num velho lenço de seda branca. Meu sangue gelou. Incapaz de me mover sem fazer barulho, estiquei o braço e toquei aquele embrulho delicado. A seda sussurrou sob meus dedos — e um batom vermelho caiu no chão com um leve “tic”. Olhei em volta, tomada pela dúvida: quem teria ousado entrar aqui, invadindo minha privacidade? Ouvi um ruído abafado no corredor: passos — únicos, brandos, mas decididos. Prendi a respiração e levantei a cabeça, sen

