Lívia Eu sabia que algo estava errado. Não era apenas o ataque disfarçado de flerte, aquela dança perigosa de palavras e intenções que sempre me deixava em alerta. Nem o sangue seco que Micael limpou com a lâmina ainda quente, um vestígio brutal de uma violência recém-ocorrida que ele varria com uma frieza assustadora. Era o silêncio. Um silêncio que não era o dele, a sua habitual quietude observadora que eu já conhecia. Era o da casa. Aquele silêncio opressor e pesado que se instalava depois de uma tempestade, ou antes de uma. As paredes pareciam reter o ar, e a ausência de qualquer ruído, por menor que fosse, amplificava uma sensação de presságio. A casa, que antes parecia respirar com sua própria vida, agora estava morta, estática, como se contivesse a respiração à espera de algo terr

