Rebeca ficou irritada com eles, porque às vezes a tratavam com dó e nem sempre havia motivo para tanto. Às vezes, aquilo a ofendia, por a “excluírem”. Faltou da escola no dia seguinte, sexta-feira. Foi matar aula em um parque sozinha, porque não queria trabalhar de manhã e ficou imaginando como era fácil roubar um carro nos dias de corridas.
Perdeu a noção da hora por não ter relógio nem celular. Já era hora do almoço e ela estava com fome, porque lá não havia nada para comprar e comer.
Felipe chegou lá com Débora, a menina nova. Eles estavam procurando por Rebeca. Ela tinha comentado que, às vezes, ia lá ficar sozinha. Débora perguntou por que ela não tinha ido à aula. Felipe perguntou por que não chamou os dois para matar aula com ela, já que sempre iam juntos.
Rebeca falou que preferia ir sozinha para a diretora não sentir falta deles. Débora, toda medrosa, começou a falar que nunca tinha matado aula de verdade. Rebeca deu risada irônica e falou que ela ia precisar matar aula para ser amiga deles. Felipe respondeu no mesmo tom de brincadeira:
— Mas você matou várias vezes e não é nossa amiga!
Rebeca levantou, pegou a mochila, segurando-se para não rir, e falou:
— Ainda bem que não. Preciso ir embora. Por que vocês vieram aqui? Vão roubar meu lugar aqui também?
Débora começou a falar que o trabalho escolar era muito importante e que eles iam fazer à tarde na casa de Felipe. Com a desculpa de ir trabalhar, Rebeca falou que não dava. Débora respondeu, super preocupada:
— Mas você precisa participar, senão vai reprovar nessa matéria. Vai valer muitos pontos. Você não pode faltar um dia do trabalho? A gente pode ir falar com seu tio.
Rebeca falou que não dava. Estavam indo embora juntos quando Felipe falou para Débora:
— Débora, ela pode, fica tranquila. A Beca não quer participar, ela sempre faz isso. Não acredita em tudo que ela fala, não.
Rebeca deu risada e ficou quieta. Débora ficou com cara de boba. Ele falou que Rebeca não era muito sociável. Ela continuou quieta. Débora sabia que Rebeca não tinha gostado da conversa do dia anterior e falou que podiam fazer na casa dela, se quisesse. Felipe respondeu:
— Débora, você não entendeu que ela não quer fazer nada?! A Beca é assim mesmo, logo você se acostuma. Ela não se importa muito com as coisas que todo mundo dá importância.
Rebeca olhou séria para ele. Não gostou. Puxando assunto, forçando simpatia, Débora disse que queria saber onde ela morava. Rebeca começou a rir. A menina se irritou. Rebeca falou que com certeza ela tinha ouvido várias coisas e que a mais correta era que morava no meio do lixo e carros velhos abandonados.
Débora ficou brava e foi para casa dela. Felipe foi acompanhando ela, disse que Débora só estava tentando ser legal e que Rebeca estava agindo muito m*l. Ela respondeu, sem dar muita importância:
— Como se você fosse um exemplo de menino, né?! Eu acho que tô sobrando nesse grupinho. De verdade, eu não me importo. Fala pra eles que vou fazer o trabalho sozinha.
Estavam caminhando juntos, conversando sobre Tassiane e Saulo que viviam brigando. Chegaram no bairro dela, na estrada de terra, ela falou que ele podia voltar para trás. Ele falou sério:
— Beca, você não precisa agir sempre assim.
Rebeca falou irritada:
— Eu quase não faço nada, nunca dou palpite nem fico falando da vidinha linda de vocês, e agora essa menina que acabou de chegar acha que sabe as coisas de mim. Vocês não sabem nada de mim, Felipe!
Ele respondeu irritado:
— É, a gente não sabe porque você prefere assim. Te chamamos pra fazer parte do grupo e você fica falando que não se importa com a gente, mas agora tá cheia de ciúmes da Débora.
Rebeca não falou nada. Ficou parada o olhando com deboche. Tomou um susto com Neto encostando o carro em cima deles. Ele falou em tom de repreensão:
— Onde você estava? Eu tô te procurando faz tempo, que saco. Fui na escola, na sua casa, na pracinha... você nem foi na aula hoje.
— Matou aula com esse cara aí?
Felipe ficou olhando confuso. Rebeca falou séria para Neto:
— A gente se conhece?
Ele começou a falar que esperava uma recepção melhor, porque estava com saudades dela, procurando feito doido. Rebeca falou apenas indiferente:
— Hum.
— Tchau Felipe.
Ela saiu andando em direção a casa, Neto foi virar o carro e falou indo atrás devagar.
— Ae entra aqui, vem comigo.
Ela continuou andando ignorando. Ele perguntou por que ela estava daquele jeito diferente, não só na aparência, mas muito diferente. Rebeca falou que precisava ir trabalhar.
Neto foi andando com o carro, devagar do lado dela. Ficou chateado. Quando passaram pela casa dele, ele desceu do carro, e começou a reclamar que devia ter ficado na casa da avó. Rebeca falou fria:
— Eu preciso ir trabalhar. Depois a gente conversa, porque com certeza você não vai querer trabalhar comigo só pela minha companhia.
Ele estava tão bravo que nem respondeu. Entrou para dentro. Ela ficou muito surpresa pelas mudanças dele, estava mais forte e lindo, vê lo assim do nada a deixou nervosa, ansiosa, a um ano não se viam e nem se falavam.
Rebeca foi para casa, almoçou rápido e entrou para tomar banho, porque estava muito calor. Saiu do banheiro de calcinha e sutiã, com a toalha enrolada no cabelo. Sabia que o tio não estava em casa e que não entraria. Estava atrasada. Entrou no quarto secando o cabelo, não deu tempo de ver Neto. Ele estava lá, jogado na cama dela, ficou bem quieto reparando nela.
Rebeca tomou um susto, pegou a toalha correndo e se cobriu. Começou a xingar e brigar com ele, enquanto Neto ficou rindo e ainda falou que o cabelo dela estava estranho, grande daquele jeito. Perguntou se ela estava querendo namorar alguém para estar se achando toda-toda usando sutiã.
Ela ficou brava e foi se vestir no banheiro. Falou que usava sutiã porque agora precisava. Ele respondeu:
— Eu sei, não sou i****a. Você é uma menina. Meu pai disse que você não precisa trabalhar hoje, porque eu vou embora domingo e você tem que ficar comigo.
Rebeca respondeu:
— Não é? Mas parece! Mesmo se eu puder faltar ao trabalho, não quero ficar com você.
Ele não estava levando a sério. Perguntou se iam nadar ou andar de carro. Rebeca falou que ia trabalhar. Ele respondeu:
— Eu vou com você então, mas tô cheio de preguiça hoje. Achei que ia me divertir aqui, mas tô vendo que não. Você é uma estraga-prazeres, Rebeca!
Ela deu risada e foi indo para fora, ainda com o rosto corado de vergonha. Falou que era para ele ir ficar com outros amigos, os mais legais, todos modernos como ele. Ele respondeu, saindo atrás dela, todo desanimado:
— Mas eu vim pra ficar com você e com meu pai. Bora ir pescar. Sei lá.
Rebeca entrou no galpão da reciclagem. Neto ficou andando atrás dela, conversando com todo mundo, com os olhos grudados nela, admirando como ela estava mais feminina. O tio perguntou se ela não queria ir passear, ficar com Neto. Rebeca falou que não. O tio respondeu, rindo, que ela não podia ser r**m daquele jeito.
Rebeca falou perto de Célio:
— Ué, se ele quiser ficar perto de mim, é só vir ajudar a gente. Amanhã se der vontade, eu vou fazer alguma coisa do gosto dele, ou nem vou.
Eles ficaram rindo, e Neto lá com cara de desânimo. Célio falou que era para ele aprender com Rebeca a ser mais esforçado. Neto falou só para ela ouvir:
— Tão esforçada a Rebeca, que nem vai pra escola e fica matando aula com menino. Eu devia contar pra eles!
— Aquele o****o é seu namorado?
Rebeca falou, rindo, que ele devia contar, se queria tanto. Ele respondeu:
— Você sabe que eu não sou dedo-duro. Quer ajuda? O que você faz todo dia aqui?
Começaram a conversar. Rebeca contou que tinha matado aula sozinha, mas que antes andava com uma galera nova. Contou tudo o que andou fazendo nos últimos meses. Ele contou também como estava a vida dele lá na casa da avó.
Passaram a tarde toda trabalhando. Quando deu o horário de ir embora, Neto já falou animado que podiam ir nadar. Disse que estava com saudades da piscina e perguntou se ela estava indo nadar sozinha. Rebeca falou que nunca mais tinha ido lá.
Foram para a casa dele, mas ela não entrou. Só ficou com os pés na água. Sentiu-se tão bem com ele que esqueceu o quanto era difícil não tê-lo mais por perto.
Ficaram assistindo filme na casa dele até tarde e dormiram na sala, cada um em um canto. Os dois se divertiram muito, como se o tempo não tivesse passado.