No sábado cedo, Rebeca e Neto foram à cidade comer pastel. Ele pagou tudo e voltou a perguntar se ela estava namorando,ela disse que não com deboche. Quando estavam voltando, na hora do almoço, encontraram Saulo e Tassiane na rua.
Tassiane perguntou com indignação se Rebeca não podia ir fazer o trabalho porque preferia ficar com Neto. Ele perguntou sobre o trabalho e convidou todo mundo para ir fazer na casa dele. Nem pediu a opinião de Rebeca, já foi fazendo amizade com os amigos dela. Os dois aceitaram na mesma hora. Combinaram de ir encontrar Felipe e Débora antes, levar bebidas.
Rebeca ficou quieta o tempo todo, só observando bastante incomodada. Foram indo na frente, Neto e ela. Ele ficou empolgado porque já conhecia os meninos da escola. Rebeca foi para casa pegar o material escolar. Sentou na sala, desanimada, frustrada. O tio estava lá e os dois começaram a conversar.
Ele perguntou por que ela estava com aquela cara. Rebeca contou o que tinha acontecido. O tio lembrou que ela devia tomar muito cuidado com as amizades, porque não era como eles, e os dois sabiam que ela devia manter certa distância, para o próprio bem. Rebeca cresceu sabendo quem era e como devia se proteger, mas naquela época começou a ficar difícil viver assim.
Demorou um pouco para voltar. Ficou muito chateada e triste, porque havia um bom tempo que o tio não falava com ela daquele jeito.
Foi entrando pelos fundos na casa de Neto. Eles estavam reunidos na beira da piscina, conversando sobre jogar verdade ou consequência. Tinham levado algumas coisinhas para comer. Rebeca entrou quieta e ficou só ouvindo, com o pensamento distante. Felipe falou oi, mexeu com ela, e ela praticamente nem respondeu.
Decidiram ir jogar videogame. Débora comentou com Tassiane que Rebeca não devia estar gostando deles lá, com ciúmes de Neto. Rebeca percebeu que estavam falando dela. Recusou quando lhe ofereceram o controle para jogar.
Foi beber água na cozinha, se sentindo angustiada. Neto foi atrás e perguntou se ela estava brava por causa do trabalho escolar. Rebeca falou, irônica:
— Eles vão fazer qualquer coisa, menos o trabalho. Você não sabe como eles são!
Ele respondeu, surpreso:
— É, eu não sei. Os amigos são seus. Eu achei que seria legal chamar eles, porque você não faz amizade com ninguém e reclama quando eu junto você com meus amigos.
Rebeca ficou encarando-o séria, com um olhar de decepção. Ele falou, confuso:
— O que foi? Fala! Para de me olhar dessa forma, você sabe que eu não gosto. Rebeca?!
Ela continuou quieta, encarando-o. Saulo entrou na cozinha falando que já queria dar um mergulho. Todos foram para a piscina e começaram a se trocar no banheiro de fora.
Tassiane foi tirando vários biquínis da mochila e falou para Rebeca:
— Como eu sabia que você não tinha um, trouxe pra te emprestar. Pode escolher. Qual cor você mais gosta? Você só usa preto, eu não tenho preto.
Rebeca falou que não podia nadar, dando a entender que estava menstruada. Sentou na cadeira perto da piscina. Débora entrou com a parte de cima do biquíni e shorts. Tassiane também, mas logo tirou o shorts e ficou cheia de graça com Saulo.
Rebeca começou a fazer o trabalho escolar sozinha para passar o tempo. Felipe saiu da piscina para ajudá-la um pouco. Começou a comer amendoim ao lado dela. Ela olhou para ele incomodada duas vezes por causa do barulho. Ele falou, mastigando e fazendo graça:
— Vai, pode reclamar do barulho. Só me olhar não vai adiantar.
Rebeca parou o que estava fazendo e começou a guardar tudo. Ele perguntou:
— Por que você tá assim? Tá toda estranha, não quis nadar com a gente. Nem conversou comigo hoje.
Ela falou que não podia se molhar. Ele respondeu:
— A Tassi sabe que é mentira sua e falou pra gente. De alguma maneira estranha, meninas sabem dessas coisas, quando a outra tá naqueles dias ou não. Eu acho que é culpa minha, me desculpa. Eu falo as coisas sem querer e depois já era. Se você quiser, a gente expulsa a Débora da nossa gangue. Ela não é tão firmeza quanto você e eu não gosto do cabelo dela, é sempre tão certinho. É estranho, parece que ela acorda uma hora mais cedo todos os dias só pra ficar arrumando aquele cabelo.
Rebeca balançou a cabeça que não e deu risada triste. Ele pegou no cabelo dela, puxando o coque para desfazer, e perguntou brincando, acariciando:
— Por que você só tá usando o cabelo assim agora? Deixou crescer pra andar preso?
Ela respondeu, rindo e soltando o cabelo:
— Olha só, pra você saber, coque é tendência, tá?! Eu vi em uma revista velha que achei no lixo. Eu fico revirando lixo todos os dias atrás de encontrar as tendências da moda.
Ele a olhou de uma forma diferente, admirando, e falou com um sorriso malicioso:
— Então tá dando certo, porque você fica bonita assim. Eu sei onde você mora, onde trabalha, a gente estudou junto todos esses anos. Não entendo por que você se esconde atrás da sua história, da sua casa, da sua vida. Às vezes você é agressiva, mas até brincando usa tudo isso como um escudo pra afastar as pessoas. Eu sei que a sua vida não é fácil, mas não tem que ser assim com todo mundo. Ninguém tem uma vida perfeita.
— Meu pai é um babaca, minha mãe vive pra trabalhar, eu deixo aqueles delinquentes fazerem de tudo em casa porque são meus parceiros, meus amigos, e nós somos os seus também.
Rebeca ficou sem reação, ouvindo calada. Neto estava na piscina olhando e percebeu que havia algo acontecendo, não gostou, arremessou uma bola em Felipe, e ficou rindo chamando para jogar. Atrapalhou o clima e os flertes.
Enquanto isso, Tassiane entrou com Saulo. Logo depois, super desconfortável com Felipe, Rebeca levantou e foi levar as coisas na cozinha. Passou no banheiro e viu o que não devia. A porta estava destrancada, ela nem imaginou que havia gente lá. Tassiane estava ajoelhada, chupando Saulo, os dois sem roupa.
Rebeca fechou a porta rápido e voltou para fora, visivelmente nervosa, pálida. Falou que precisava ir embora. Pegou a mochila e nem falou com eles, que estavam na piscina.
Ela nunca tinha visto um filme pornô ou uma revista da Playboy, também nunca uma pessoa sem roupa. Deixou a mochila em casa e já saiu, porque tinha certeza de que Neto iria atrás dela.
Sentiu-se muito m*l, uma i****a, como se fosse ela que estivesse fazendo coisa errada. Foi para um lugar não muito longe, onde gostava de ir para ficar sozinha, no meio do mato.
Bastante tempo depois, Neto foi até lá. Quis saber o que tinha acontecido. Estava bravo com ela, a chamou de tonta, estranha. Como Rebeca não quis conversar nem falar nada, ele foi embora e a deixou lá sozinha.
Não se viram mais durante o resto do fim de semana. Neto foi embora no domingo sem se despedir.
Rebeca ficou dias sem ir para a escola, até que a diretora ligou para o tio dela querendo saber se tinha acontecido algo. Foi clara e objetiva. Disse que não iria reprová-la, mas que precisava ter boa frequência nas aulas, não ficar faltando.
No outro dia, Rebeca voltou para a escola. Foi uma das primeiras a entrar na sala. Quando Tassiane entrou, sentou mais para frente com Débora. Rebeca ficou de cabeça baixa, deitada na mesa, nem olhou para elas.
Logo chegaram os meninos, falando com ela normal. Felipe disse que a gangue deles estava se desfazendo. Rebeca respondeu:
— Nossa não, sua.
Saulo falou que ia matar aula e a chamou. Ela perguntou por que as meninas não estavam sentando no fundo. Ele disse que Tassiane tinha voltado a ser uma boa menina só porque tinham terminado.
Rebeca ficou quieta o tempo todo, sozinha. Na hora do intervalo, Débora a chamou para ir com elas, falou ainda dentro da sala. Tassiane perguntou se ela estava bem. Rebeca falou que sim. Ela respondeu:
— Eu não tô. Olha só aquela menina da outra sala se oferecendo para o Saulo, que raiva! A gente sabe por que você foi embora correndo aquele dia. Não precisava de tudo aquilo. O Neto ficou m*l por sua causa. Quando ele vai voltar? Queria convidar ele pro meu aniversário, falta tão pouco.
Rebeca falou que não sabia, percebeu que Débora ficou muito interessada nele. Tassiane ficou só falando do aniversário dela, toda animada. Disse que Rebeca ia ser arrumada por elas. Ela deu a entender que não tinha interesse em ir, mas não pareceu ser opcional escolher isso.
Escondido, pediu para a professora colocá-la para sentar mais na frente, só que longe deles todos. Naquela semana, foi chamada para conversar na diretoria, porque estavam achando que tinha acontecido algo errado com os novos amigos dela, porque Rebeca relaxou novamente, parou de prestar atenção e de se esforçar. Era notável que estava diferente, mais calada e triste.
No fundo, a culpa não era deles. Ela só não conseguia aceitar que não podia ser como eles, viver perto, ser tão normal. E ter visto Neto não foi nada bom.
Ela começou a ficar dentro da sala no intervalo só para poder ficar sozinha. Como tinha um dinheirinho, levava bolacha para comer e não precisar ir pegar lanche. As professoras não tinham coragem de mandá-la para fora.
No começo, Tassiane ficou chamando, mas eles nunca sabiam o momento certo de insistir com ela ou de deixá-la de canto. Rebeca reparou que os quatro voltaram a andar juntos. De alguma forma, respeitavam o jeito dela e meio que continuaram amigos, mesmo distantes. Estavam fazendo as provas e trabalhos finais. A professora a colocou em um grupo com umas meninas com quem ela nem conversava. Rebeca pediu para fazer sozinha. A professora avisou na frente de todos que quem não fizesse ia ficar de recuperação.
A maior vontade de Rebeca já era mesmo parar de estudar.
O aniversário de Tassiane estava chegando. Ela deu convites para todos da sala. Quando entregou o de Rebeca, disse que ela ia se arrumar na casa dela. Rebeca falou que não podia ir, porque era longe.
Tassiane insistiu, dando uma solução para cada desculpa que ela falava. Para finalizar, Rebeca usou um clássico:
— Meu tio não deixa.
Mas disse que ia tentar. Tassiane falou que Neto iria e que, com certeza, o tio dela ia deixar por isso.