Capítulo 46

1985 Words
Capítulo 4 Ele balançou a cabeça que não, como quem dissesse "ela está morta". Os homens que estavam com ele começaram a esvaziar o local. Ele falou com um deles: — Tira ela daqui, Ramon! Ela balançou a cabeça que não. Ele só deu um sinal. Ramon se aproximou dela, pegou pelo braço e foram saindo rápido. Ele a levou para o carro, perguntou se ela tinha visto algo. Ela ficou quieta, chorando. Foram pra um motel de beira de estrada, bem perto. Ele abriu o porta luvas, pegou um rolo de papel higiênico, uma garrafa de água na porta do carro, colocou no colo dela, falou sério que era pra ela parar de chorar e parecer normal, porque, se não, podiam chamar atenção e não seria bom pra ninguém. Ela enxugou os olhos, conteve o choro, para passar na portaria. Ao chegar na garagem, ele desceu primeiro, abriu a porta do carro pra ela e falou que eles iam ficar lá até o Noah entrar em contato. E já avisou, ameaçando, que ia calar ela se pensasse em fazer qualquer coisa, gritar, chamar alguém. Disse que não ia fazer nada com ele, que não precisava ter medo. Ele era alto, forte, branco com os olhos verdes, estava usando calça jeans escura, camisa de botões lisa azul e muito sério, rude. Ela continuou em silêncio, evitando até olhar pra ele, com raiva do jeito que ele estava a tratando. Entraram no quarto, ela foi direto no banheiro, começou a vomitar e ficou sentada lá, fechada. Alguns minutos depois, Ramon foi bater na porta, perguntar se ela tinha usado alguma coisa, drogas, bebidas. Ela saiu do banheiro pálida, nervosa com a situação toda, o encarou e disse: — Por que quer saber? Não vou falar com ninguém além do Noah e pouco me importam suas ameaças. — Você é um grosso, e******o. Ele a segurou forte pelo braço e falou bravo: — Só vou perguntar mais uma vez, você usou alguma coisa? Com ela? Quer morrer também? Sem se mexer, se impondo, ela o olhou nos olhos e falou irritada: — Eu não bebo e não uso nada. Também acredito que ninguém se importe caso eu venha a morrer! — Você está me machucando. Ele a soltou e começou a mexer no celular, trocando mensagens. Ela se sentou em uma cadeira no canto e ficou por horas lá, quieta, pensando, se culpando por não ter chegado a tempo. De madrugada, o Noah chegou. Entrou no quarto e falou sério: — Ramon, sai. O rapaz se levantou em silêncio e saiu. Noah puxou uma cadeira, sentou na frente dela e falou: — Fala, conta tudo o que aconteceu! Ela começou a falar do momento em que a Aisha sumiu na balada. Ele interrompeu: — Não, tudo desde o momento que deixei vocês lá no hotel. Ela começou a falar nervosa, parou na parte em que foram almoçar, perguntou o que tinha acontecido com a Aisha. Ele falou: — Overdose, eu não sei. Se afogou no próprio vômito. Continua, eu quero saber tudo. Com quem ela falou, o que ela tomou, tudo. Porque eu quero entender o que aconteceu e, pelo jeito, você é a única pessoa que pode me ajudar. Ela respondeu com espanto: — Como assim? Ela nem bebeu nada com álcool, não tem como. Ela ficou comigo o tempo todo! — Disse que não estava usando drogas. Ele falou um pouco alterado: — Conta tudo, de novo, desde o começo! Ela voltou a falar como foi o dia todo. Foi sincera e, ao terminar, ele só disse: — De novo. Algo deve estar passando. Ela repetiu tudo por horas, até se cansar e perguntar o porquê daquilo. Ele falou que não estava fazendo sentido, que, se fosse outra pessoa com a Aisha, até poderia ser, mais sendo a Rebeca, não. Ela falou: — Você acha que ela se drogou do nada? Ela estava feliz e bem. Mesmo se algo tivesse acontecido, ela não teria me deixado lá pra ir fazer isso. — Me levaria junto. Ele respondeu, mexendo no celular: — É, então pensa bem, tenta se lembrar de algo. Talvez ela foi encontrar essa pessoa e você viu, só não reparou. Ele estava mexendo no celular da Aisha. Perguntou se elas tinham tirado fotos juntas e postado, mostrando onde estavam. Rebeca disse que não. Quando viu o papel de parede, falou confusa: — Não é esse. Noah, eu nem vi esse celular. Ela estava com outro, outra cor, outra foto de fundo. Era outro! Ele falou que precisavam achar. Ela respondeu: — Ela não desgrudou dele um minuto. Deve ter ficado caído no banheiro. Ele falou que não, que quem fez aquilo havia levado o celular, porque lá estavam as provas do encontro deles. Insistiu fazendo perguntas, percebeu que Rebeca não tinha como ajudar. Ele disse que precisavam ir embora, que, pelo próprio bem dela, agora devia ir junto de qualquer forma, porque, se ele estivesse certo, quem fez aquilo pra Aisha ia tentar se livrar de qualquer coisa que o pudesse incriminar. E Rebeca poderia ser um alvo. Ela ficou quieta, confusa. Ele falou, levantando: — Vou te deixar em um lugar seguro, na minha casa. Preciso ir ficar com os meus pais. O Ramon vai te levar. Pode confiar nele, se lembrar de alguma coisa, me conta. — Não fala nada pra ninguém, sobre o que aconteceu, especialmente para os funcionários. Se alguém perguntar sobre você, diz que é órfã, que precisava de um emprego, e era amiga da minha irmã. Dá uma de coitada, isso você sabe fazer bem. — Não fala da minha irmã, sobre hoje, não fala do que aconteceu, nem de onde você é. Entendeu? Ela balançou a cabeça que sim. Ao sair do quarto, o Noah falou: — Suas coisas estão no carro. Troca de roupa, toma um banho. Eu sei que é difícil, mas você não vai poder ir no velório dela! Rebeca respondeu cabisbaixa: — Tudo bem, aquela não é mais ela. O Ramon colocou a mochila no quarto e fechou a porta. Enquanto ela foi tomar banho, os dois conversaram um pouco lá fora, Ramon disse que ela estava mentindo, talvez com medo, sendo ameaçada e Noah disse que acreditava nela. Quando ela ficou pronta, o Noah já tinha ido embora. Ela colocou calça jeans, blusa de moletom, prendeu o cabelo, tirou toda a maquiagem. Estava pálida, muito abatida. Sem falar nada, ela saiu para a garagem, colocou as coisas no carro, no banco de trás. Ramon foi olhar o quarto, ver se não estava ficando nada pra trás. Falou pra ela: — Pode pegar algo pra comer e levar, não vamos parar mais no caminho. Pegue o que quiser. Ela balançou a cabeça que não. Ele não sabia muito bem o que pensar ainda sobre ela. Pegou água, suco e chocolates, levou para o carro. Ele não disse mais nada, mas notou que ela não comeu nada desde que foram embora da balada. Nem um gole d'água ela tomou ou os remédios. Depois de horas viajando sem dizer sequer uma palavra, chegaram a um bairro de luxo cercado de mansões. Ela estava com o pensamento distante, nem reparou em nada, até que ele foi entrando em uma casa. Tinha três andares, muitas janelas amplas de vidro, um gramado a se perder de vista. A piscina era muito grande. Tinha até chafariz, bancos no jardim e seguranças no portão. Ramon parou o carro na frente da casa, falou pra ela: — Vamos. Desce. Ele desceu, abriu a porta de trás para pegar a mochila. Foram entrando andando próximos. Não tinha ninguém até chegarem na sala de jantar. Logo uma senhora vestida de roupa social apareceu, falando com insatisfação: — Você demorou muito, eles acabaram de sair. Quem é essa aí? Ele falou sem paciência, enquanto mexia no celular: — O Noah pediu pra deixar ela aqui, com você. Arruma um quarto pra ela, põe pra trabalhar, ela vai ficar com a gente. Ela falou que a "doutora" não ia gostar. Ramon falou irônico: — E isso é problema seu, Iolanda? Faz o que seu patrão, manda. Tá achando r**m, vai reclamar com ele. — Estou com fome, dá pra fazer alguma coisa pra mim? Por favor? Ela falou no mesmo tom, afrontosa: — Ahhh, faz o seu que eu faço o meu. Tô cheia de trabalho hoje! Se vira, folgado. Rebeca ficou olhando quieta, desconfortável. Iolanda falou, medindo ela dos pés à cabeça, desconfiada: — E você, anda logo, vou te mostrar os seus aposentos. Ela saiu andando na frente, Ramon subiu as escadas. As duas passaram pela cozinha, que era enorme, depois por outra cozinha menor, mais simples. Na área de serviço, tinham quartos. Iolanda entrou em um dos últimos e falou com muita má vontade: — Pode ficar aqui. Como pode ver, aquela cama já tem dona. Fica na outra. Não mexe em nada. Não saia da área de serviço sem autorização, muito menos no quintal. — A geladeira comum no final do corredor é dos funcionários. Não vou ficar de babá pra você. Se quiser, pode comer algo, tomar banho aí. Novamente repito: não mexa em nada. — Eu vou te dar produtos de higiene pessoal, toalhas, um cobertor. Você é muda? Tá drogada? Rebeca balançou a cabeça que não, assustada com tanta grosseria. Iolanda falou que logo voltava, saiu e fechou a porta. Ao ficar sozinha, Rebeca respirou fundo, olhou ao redor, tirou os tênis, sentou na cama encolhida, chorou um pouco, se sentiu uma intrusa, inferiorizada. Ficou por horas sentada do mesmo jeito. Enquanto isso, a Iolanda a assistia pela câmera e foi perguntar ao Ramon qual era o problema daquela menina. Ele respondeu com deboche: — Sei lá. Anorexia? Abstinência? Ela estava curiosa pra saber mais sobre a Rebeca. Foi levar os produtos de uso pessoal, perguntou se ela queria jantar. Ela balançou a cabeça que não. Perguntou se podia pegar água, Iolanda disse que sim e foi indo na frente. Na cozinha tinham três homens jantando, eram jovens, fortes, bem arrumados, Rebeca ficou cabisbaixa, nem olhou pra eles. O Ramon estava comendo e falou pra ela: — Não está com fome, Rebeca? Vem comer, a gente não morde! Um deles, o mais forte, falou rindo: — Ah não ser que você queira. Eu não sou tão adestrado como o Ramon. Não fomos apresentados ainda, sou o Ayres! — Motorista do Toni. Ela ficou séria, ignorando enquanto tomava água. Na mesa tinha arroz, feijão, farofa, salada de folhas, de cenoura com vagem, ovos fritos, filé de frango, tudo em tigelas, pratos. Bem arrumado. Iolanda falou que era pra ele se conter. Rebeca pegou o prato e tirou pouca comida. O outro rapaz sorriu e falou dando um copo de suco para ela. — Oi, sou o Levy. Motorista e segurança da Kim. Rebeca apenas falou oi, começou a comer cabisbaixa. Logo os três saíram da mesa. Só ficaram as duas. Rebeca não estava conseguindo comer. Iolanda perguntou o que ela estava fazendo lá. Ela respondeu: — Vim para trabalhar. Eu sou órfã e precisava de um lugar, uma oportunidade. Chegou uma moça jovem, loira de olhos claros. Ela falou, encarando a Rebeca: — Quem é essa aí? Iolanda falou com deboche: — Sua nova colega de trabalho e de quarto. Seja educada, Estela. Você não é um bicho do mato, como ela! As duas começaram a rir debochando. Muito desconfortável, Rebeca se levantou e foi lavar seu prato. A Estela disse que estava cansada e foi para o quarto. Depois de lavar toda a louça, Rebeca voltou para o quarto, sentou no mesmo lugar. A televisão estava ligada. Ela ficou quieta, assistindo. Estela estava no banho. Quando saiu, falou rude: — Eu odeio dividir quarto com qualquer pessoa. Não suporto que invadam meu espaço, que mexam nas minhas coisas. Fica no seu canto e vamos nos dar bem!
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