Capítulo 49

1960 Words
Capítulo 7 Ele respondeu, abrindo o chuveiro: — Doeu muito? Ela balançou a cabeça que sim. A Kim ficou ouvindo tudo atrás da porta do quarto, saiu de lá e foi assistir os dois na câmera. Até dentro do banheiro tinha uma. O Toni começou a tomar banho, brincando no chuveiro, enquanto a Rebeca ficou quieta, olhando. O Noah estava com a Kim, se aproximou pra ver o celular, a filmagem, falou pra ela: — E aí? Estão conversando? Ele vai tirar vantagem dela, você conhece seu filho. Ela respondeu pensativa: — Não sei, ela só está olhando fixamente na direção dele, com certeza está com o pensamento bem distante. Ela tem um olhar vazio, né? Triste, não sei. Queria saber o que fizeram pra essa menina ficar assim, quebrada! Ele disse que ela era um pouco diferente antes, não muito, que podiam ser os remédios, o luto. Kim perguntou se ele achava que a Rebeca podia ser um risco pra ela mesma, tentar se m.a.tar. O Noah falou: — Não, isso não, ela não é assim. Se tivesse que desistir, já tinha largado tudo antes. Os dois ficaram olhando mais um pouco. Kim foi até o quarto, falou para o Toni sair do banho, foi mostrando para a Rebeca onde ficavam as coisas dele, explicou a rotina da casa. Depois do Toni comer, Rebeca desceu com ele, foram procurar a Estela. Ele queria jogar, brincar com ela. Enquanto os dois brincavam, Rebeca ficou sentada perto, quieta, só olhando. Logo ela foi ajudar a Iolanda com o jantar. Quase todos lá tinham restrições alimentares, alguns não comiam qualquer carne, outros comiam um tipo de coisa todos os dias. A Iolanda foi falando enquanto cozinhava, disse que todos lá podiam comer à vontade, elogiou os patrões, disse que criou a Kim, contou que os pais dela morreram em um acidente e depois disso ela passou a criar o Toni. Explicou que ele era “especial”, tinha algumas dificuldades de aprendizado, dificuldade em socializar, já adiantou que nunca era pra ela brigar ou chamar atenção dele, se não a Kim surtava. Todos faziam os gostos dele, especialmente o Noah, que era louco pelo Toni. Rebeca ouviu tudo calada. Elas estavam na cozinha de dentro, na área de serviço. O Noah passou com o Ramon, eles foram soltar os cachorros, ficar com eles. O Ramon avisou, disse que não era para a Rebeca sair de noite pra fora, nunca sozinha, porque os cachorros eram bravos e podiam atacar. A Iolanda estava arrumando a mesa da sala de jantar, deixou a Rebeca arrumando a de dentro, dos funcionários. O Ayres entrou pra pegar água na geladeira, perguntou se ela não queria ir lá fora socializar com os cachorros, disse que, com eles junto, não iam fazer nada. Ela balançou a cabeça que não. Ele falou debochando: — Tá com medo de uma mordidinha! Uma hora você vai ter que ir, se quiser se dar bem aqui. Sabe? — Não precisa ficar isolada sempre, eu gosto de brincar, mas não me leva a sério. Eu sei que é difícil ficar sozinha, eu não vou pra casa há um ano, mais ou menos. Tive sorte de ficar com o Ramon, ele é como um irmão, aqui somos família. Você também vai ser! Ela sorriu irônica e respondeu: — Julgando pela bela recepção que tive, essa família é muito disfuncional e hostil. Ele deu risada e falou: — Olha só, ela sabe fazer gracinha também. Estela entrou na cozinha muito séria, pegou ele rindo, não disse nada e foi para o quintal com o Toni. O Ayres foi logo atrás. A Iolanda terminou de arrumar tudo com a Rebeca, foi chamar a todos pra jantar. O Noah entrou com um cachorro andando solto ao lado dele. Ele se aproximou correndo da Rebeca para cheirar. Ela estava de costas, com uma travessa nas mãos, tomou um susto quando viu, ficou parada com medo. Ele assobiou e falou achando graça: — Átila, vem. Ele não vai fazer nada, diferente da Nora, ele é tranquilo! Ramon estava entrando, rindo também, falou: — Deve ser porque ela puxou a dona dela, né? Noah saiu da cozinha com o cachorro junto. Rebeca ficou pálida, soltou a travessa na pia, ficou nitidamente nervosa, nem disse nada. Ramon se aproximou, pegou a travessa e falou, colocando na mesa: — Sempre teve medo de cachorro? Ela balançou a cabeça que não. Ele respondeu: — Logo você se acostuma, a Nora está com cria, por isso está estressada. Vou pegar um dos filhotes pra mim, quero o mais bravinho que tiver, desde pequeno eles já se destacam no meio da ninhada. Ela ficou quieta, colocou o que faltava na mesa, ficou encostada na pia enquanto todos iam se sentando. O Toni foi fazer o prato dele com a Kim e voltou para comer perto da Estela. Todos estavam se servindo, menos a Rebeca. A Iolanda chegou por último, falou pra ela: — Quer que eu faça seu prato, madame? Ela balançou a cabeça que não, colocou outra jarra de suco na mesa porque viu que a outra estava vazia. Ela até encheu o copo do Ayres, Ramon e Iolanda. Eles estavam conversando, rindo, falando de alguém, um colega deles. Ela ficou de canto, em pé. A Iolanda falou, mandando: — Faz o prato logo, vai esperar esfriar? Daqui uma hora, você não pode mais comer nada, tem que ficar em jejum pra ir fazer exame cedo. Rebeca respondeu: — E os remédios que eu tomo depois desse horário? Será que posso tomar? Estela riu com deboche, como se a pergunta tivesse sido muito absurda. Rebeca se sentiu “i****a”, constrangida. Iolanda disse que não sabia. Ela pegou um copo de água e foi para o quarto sem dizer nada. Os remédios eram muitos, ela estava se organizando, colocou tudo em cima da cama, começou a tomar, adiantando alguns por causa do horário, tinham tarjas pretas também, para depressão, ansiedade. Ela foi tomar banho e deitou dormir, sem jantar. Por causa dos remédios, adormeceu bem rápido. De madrugada, ela acordou com um barulhinho bem baixo. A porta estava meio aberta, ela continuou deitada no escuro, sonolenta, e viu a Estela se levantando e saindo. Ela olhou a hora no celular, era de madrugada, por volta das duas. Rebeca não conseguiu mais dormir e viu a Estela voltando horas depois na ponta do pé. Estela não viu nada, achou que ela estava simplesmente dormindo. Quando começou a amanhecer, Rebeca se levantou indisposta, com a cabeça pesada, tomou banho, se arrumou pra ir no médico com a única roupa boa que tinha, calça jeans escura, e uma regata preta. Ela foi na cozinha tomar água, ficou sentada na mesa assistindo televisão bem baixinho, com medo de acordar alguém. Logo o Ramon levantou de shorts, sem camiseta, deu bom dia e perguntou o que ela estava fazendo lá aquela hora. Quando ela olhou pra ele, reparou no corpo definido, tatuado, logo já desviou o olhar rápido, bastante desconcertada. Falou que tinha perdido o sono. Ele abriu a geladeira, foi pegando algumas coisas. O Noah entrou na cozinha de shorts e camiseta, falou bom dia. Os dois responderam. Ele perguntou em inglês o que ela estava fazendo lá. O Ramon disse que ela havia perdido o sono, que foi dormir sem jantar também. O Noah falou ainda em inglês: — Sem jantar? Estão pegando no pé dela ainda? Ramon disse que sim, mas que ela não ligava, que não tinha boca pra nada. O Noah disse que ia dar um jeito nas duas, Iolanda e Estela. Voltaram a conversar em português. Ele estava falando para o Ramon sobre algo da dieta deles, reclamando de uma marca r**m de suplementos. Ramon falou para a Rebeca que ia treinar e depois iriam para o laboratório. Ela balançou a cabeça que sim. Os dois saíram conversando para o quintal. Só a Iolanda levantou enquanto isso. Uma hora depois, o Ramon voltou já de banho tomado, usando calça de moletom, tênis Adidas, camiseta e boné, sentou pra tomar café e disse que era pra ela ir pegar as coisas, porque já iam sair. Ela foi no quarto, pegou só o celular, ficou em pé esperando, encostada na pia. Logo ele levantou, foi pegando as chaves, falou: — Vamos. Ela foi andando atrás. Assim que saíram na porta que ia para o quintal, ele falou: — Fica perto, os cachorros estão soltos. Morrendo de medo, ela foi indo atrás dele. Viu um cachorro só de longe. Quando chegaram na garagem, ela falou surpresa, olhando os carros: — Nossa! Eu nunca vi um Porsche de perto, é tão bonito. Uauuu. Ele respondeu a observando: — O vermelho é da Kim, quando a gente voltar eu trago você aqui na garagem pra ver melhor. Ela falou animada, com espanto: — É sério? Vou poder olhar por dentro? Ele respondeu rindo: — É, vai. Você gosta de carros? Ela disse que sim, desde criança, que não tinha muitas coisas que gostava e que cresceu no meio de homens, ajudando na oficina, no desmanche. Ele falou que também gostava muito. Ela respondeu: — Você corre? Tira racha? Ele ficou surpreso por ela estar conversando. Foi a primeira vez que tiveram uma conversa de verdade. Estavam na estrada, a caminho do laboratório. Ele falou: — Hoje não mais, e você? Ela disse que nunca tinha corrido pra valer, porque só teria coragem se fosse com um carro próprio, dela. Ele ficou quieto. Ela falou curiosa: — Qual seu carro preferido? Tipo, no mundo, qualquer valor, se pudesse escolher só um, qual seria? E que cor? Ele disse que não sabia. Ela achou que estava incomodando, ele era muito sério, pareceu desinteressado no assunto. Ela ficou quieta, como uma criança rejeitada. Ele percebeu que ela ficou diferente olhando para a janela, falou algum tempo depois: — Preto, alto. Ela estava distraída, falou sem entender: — O quê? Ele respondeu: — O carro, eu escolheria um grande, alto, adoro preto, um utilitário com certeza. Ela sorriu com satisfação, voltou a olhar para a janela. Ele falou: — E você? Qual seu estilo? Ela disse que preferia os antigos, que ela era meio pré-histórica, talvez um Mustang azul. Ele respondeu: — É bonito mesmo, gosto muito de Mustang. Pré-histórica? Por quê? A expressão dela mudou, pareceu chateada, disse olhando para fora: — Porque eu estou acostumada com a simplicidade, não sei mexer no celular, computador, não sei fazer nada de nada, dessas coisas modernas. Cresci assim, brincando no mato, tudo pra mim é novidade, por isso sou motivo de chacota desde sempre. Ele falou que não era pra ela deixar ninguém ficar rindo dela, que era pra se impor assim como fez na farmácia. Ela respondeu: — Não vale a pena, eu gosto de ser meio invisível, é bom. Prego que se destaca muito, leva martelada. Ele falou irônico que invisível ela não era, com aquele cabelo laranja. Ela respondeu séria, achando que era uma crítica a sua aparência: — Sou toda enferrujada, eu sei. Posso passar o dia todo te falando apelidos e piadas sobre minha aparência! Ele falou rindo, pensando em besteira: — É, eu posso imaginar. Não conversaram mais. Logo chegaram no laboratório. Ele entrou com ela, tomou a frente, foi conversar na recepção. Enquanto aguardavam, ele falou: — E aí, está com medo do resultado? Ela falou sem entender: — Medo? Ele disse rindo: — É, de dar positivo. Gravidez! Ela respondeu séria: — Ahhh é, sim. Chamaram por ela, que foi entrando tranquila, sem medo algum. Quando ela saiu da sala, ele se aproximou e falou enquanto mexia no celular: — E aí, está com fome? Está se sentindo bem? Ficou muito tempo sem comer.
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