Rebeca ficou assustada, olhando sem entender. Os dois na mesa se olhando, trocando sinais. Um deles falou “não / não sei”. Dava pra ouvir a Estela chorando, apanhando, negando algo, dizendo que não era dela. Deu pra ouvir ela falando “mãe” várias vezes, pedindo pra parar. Rebeca falou incomodada:
— Ramon?
Ele respondeu sério desconfortável:
— É a mãe dela. Não podemos fazer nada!
Os três estavam super incomodados, tensos. O Ayres parou até de comer, travou maxilar com o olhar fixo em um ponto qualquer da mesa. As duas voltaram pra cozinha, a Iolanda arrastando a Estela pelo cabelo. Falou olhando para a Rebeca:
— Esse teste de gravidez é seu? Fala logo, Rebeca!
Assustada em ver a Estela daquele jeito, apanhando, ela balançou a cabeça que sim. A Iolanda falou, soltando a Estela, que aquilo foi ótimo pra ela ver o que ia acontecer com ela, se viesse a se perder, porque, diferente da Rebeca, ela tinha uma mãe e ia sofrer as consequências por cada passo errado que viesse a dar na vida. Rebeca ficou emotiva, estava quase chorando, ficou quieta. A Iolanda foi interrompida:
— Vejo que os ânimos estão muito alterados aqui. O que está acontecendo nessa casa, Iolanda?
Se fazendo de desentendida, ela respondeu:
— Chegaram antes da hora, doutora. Já estou indo receber vocês.
Kim parou na porta, séria, encarando a Iolanda, acompanhando os movimentos dela, enquanto ela foi até a Rebeca, entregou o teste e falou:
— Toma o que é seu.
Kim falou, se aproximando de Rebeca, pegando o teste pra ver:
— No meu escritório, agora!
O Noah chegou na porta, ouviu aquilo, ficou sem entender, foi atrás da Kim. Rebeca ficou nervosa, olhando para o teste, pensando se era negativo ou positivo. O Ramon falou, saindo da cozinha:
— Vem, a Kim está esperando.
Ela foi atrás dele, nervosa, suando frio, tremendo. Ele puxou a mão dela pra ver o teste, falou baixinho:
— Deu negativo. Entendeu? Não está grávida!
Ela balançou a cabeça que sim. Quando chegou na porta, o Ramon bateu. O Noah falou:
— Pode entrar!
Rebeca entrou sozinha. Ele estava sentado na cadeira atrás da mesa e a Kim encostada na mesa, de costas para o Noah e de frente para a Rebeca. Ela era loira, cabelo liso médio com ondulação, olhos azuis, magra, muito bem maquiada e vestida, usava um conjunto de alfaiataria off white, escarpim vermelho, falou séria reparando na aparência de Rebeca:
— Acabei de chegar e, pelo o que estou vendo, essa casa está bem agitada desde sua chegada! Queria te dar as boas-vindas, seja bem-vinda.
— E agora, pode começar a falar! Está achando que está grávida? Veio pra cá fugida, não me parece muito sociável ou inteligente. Sabe que é difícil te empregar estando grávida, né?
Rebeca balançou a cabeça que sim, disse que deu negativo. Kim falou:
— Vamos fazer um exame de sangue. Nas primeiras semanas é comum que dê falso negativo. Caso você esteja grávida, vai querer prosseguir com isso? Podemos ir a um bom profissional, quanto antes souber, melhor.
Ao ouvir isso, Rebeca ficou séria, franziu a testa e falou confusa:
— Abortar?
Kim respondeu:
— É, você sabe quem seria o pai? Tem intenção de contar e ir embora? Rebeca, eu preciso que você seja sincera comigo!
Quando a Kim perguntou se ela sabia quem era o pai, Rebeca olhou para o Noah querendo chorar, constrangida, confusa, mais logo voltou a olhar para a Kim e começou a falar:
— Eu tinha alguém que me machucou. Independente do que aconteça, não vou voltar. Quando aconteceu, eu não sabia como me prevenir, ainda não sei, na verdade, e não tenho interesse nesse tipo de coisa.
— Se é essa sua preocupação, pode ficar tranquila, eu não sou assim, não quero nada com ninguém daqui. Preciso desse trabalho, essa oportunidade é a única coisa que eu tenho.
— Só pensei que podia estar grávida porque me sinto estranha todo o tempo e eu não entendo meu corpo. Ninguém nunca me ensinou essas coisas, fui criada só pelo meu tio. Fazem semanas que eu não durmo, não como, que não me sinto bem.
Kim falou, interrompendo com pena:
— Noah, dá licença pra nós, por favor?
Noah levantou e saiu. Kim continuou falando.
— Você tomou muitos remédios fortes, passou por muitas coisas nesses últimos dias, tudo isso reflete no seu emocional, que manda sinais para seu corpo de que não está bem.
— Esse alguém te forçou a fazer algo? Ele abus.ou de você?
Rebeca balançou a cabeça que não. Ela continuou falando:
— Vamos fazer assim, você faz o exame de sangue amanhã cedo, depois do resultado nós vemos o que vamos fazer primeiro. Vou marcar médico pra você, ginecologista, já foi alguma vez?
Enxugando as lágrimas, Rebeca balançou a cabeça que não. Kim continuou falando:
— É normal, ele vai te olhar, examinar, pedir exames de rotina, ver se está tudo em ordem, sabe? Com seu corpo, sua saúde íntima.
— Fica tranquila, independente do resultado, sua vaga aqui está garantida! Só não vai me processar por acidente de trabalho, hein? Parece que a Nora não gostou muito de você.
Rebeca disse que não foi nada demais, agradeceu. Kim foi saindo, disse que era pra ela ir conhecer a casa, ficar de olho no funcionamento de tudo. Rebeca voltou pra cozinha.
Estavam lá só o Ramon na mesa e a Estela lavando louça. Rebeca se aproximou e perguntou se podia secar e guardar. Estela falou séria:
— Para de tentar ser boazinha comigo. Agradeço pelo o que fez, mais não quero ser sua amiga!
Rebeca falou irônica, indignada:
— E quem disse que eu quero ser sua? m*l-educada, acabei de pôr o meu emprego em risco pra te ajudar. Desde que cheguei aqui, você me trata m*l e eu nem te fiz nada!
Ramon deu risada e falou pra Estela:
— Você não tem que ser como sua mãe. Ninguém gosta dela e você tá indo para o mesmo caminho.
Ele levantou, colocou a louça suja dele na pia, afrontando a Estela. Falou para a Rebeca, indo para a direção dos quartos:
— Já almoçou? Eu não comprei mais de quinhentos reais de remédios pra você não tomar.
Ela foi para o quarto, começou a mexer nas sacolas da farmácia, olhando tudo, tentando saber o que deveria tomar e quando. Ramon voltou, abriu a porta e falou pra ela:
— Vamos lá fora, estão chamando você. Já tomou? Acho que vai ser mais fácil se você anotar.
Ela falou com uma caixinha de anticoncepcional na mão:
— Ah, claro, se eu soubesse pra que serve cada um. Eu não sei nem pra que é isso, não tô entendendo nada. Não te deram uma lista mais simplificada?
Ele se aproximou, pegou da mão dela, olhou e falou debochando, rindo:
— Quantos anos você tem mesmo?
Ela não gostou, vendo que estava sendo tratada como boba. Falou, levantando:
— Não o suficiente pra fazer qualquer coisa direito, pelo jeito. Onde é pra eu ir?
Ele ficou sério, não era do tipo muito paciente. Foi andando na frente. Saíram para o quintal. O Noah estava na piscina brincando com um menino e com um cachorro. Falou pra ela:
— Vem aqui conhecer o Toni.
Ela se aproximou com medo do cachorro. Kim chegou logo atrás falando:
— Toni, essa é a Rebeca. Ela vai morar aqui com a gente, vocês podem ser amigos. Ela vai ajudar a Estela a cuidar da casa!
O menino perguntou por que não podia ser só amigo da Estela. Kim falou:
— Que modos são esses? Dê boas-vindas a ela!
Ele falou algo com ironia em inglês. Kim disse que era pra falar na língua dela. Ele deu risada, ignorou e voltou a brincar. O Noah falou para a Kim em inglês:
— Tem certeza disso? Ela não me parece ser o tipo que gosta de crianças e a Estela não vai gostar nada disso.
Kim sorriu, falou para a Rebeca:
— Você gosta de crianças?
Sem jeito, mentindo, ela disse que sim. O Toni começou a pedir para a Rebeca um lanchinho, disse que queria frutas com granola e mel. Os dois ficaram no canto da piscina. Ela se abaixou para falar com ele. O Noah deu risada e falou em inglês:
— Ela não gosta, dá pra ver que está apavorada com ele. Se você perguntar qualquer coisa, ela vai mentir. Ela quer se virar sozinha, vai aceitar qualquer coisa.
O Ramon estava perto, deu risada, falou em inglês com ironia:
— Qualquer coisa? Duvido!
Rebeca disse desconcertada que ia preparar o lanche do Toni, pediu licença. Ficaram falando dela na piscina. A Kim disse que tinha pena, que dava pra ver o quanto ela era humilde, sem instruções das coisas. O Ramon falou:
— E aquele teste? Ela nem sabia ver se era positivo ou negativo. Quando fui chamar ela agora há pouco, estava olhando o anticoncepcional sem saber pra que servia.
O Noah disse que ela foi criada pelo tio sozinho, que vivia com um amigo, sem receber atenção, instrução feminina. A Kim falou:
— Amigo? Não sei, acho que esse rapaz fez algo pra ela, a violentou talvez. Ela nunca falaria, ainda mais pra mim, que acabei de conhecê-la.
O Noah disse que era bem possível, porque ela não queria voltar e nunca pareceu ser o tipo que abandonava quem amava.
Rebeca foi para a cozinha, pediu ajuda para a Estela, disse que não sabia como preparar o que foi pedido. Sem falar uma palavra, a Estela começou a fazer tudo sozinha, deixou a bandeja pronta em cima do balcão e saiu da cozinha.
Quando Rebeca estava indo levar, a Kim entrou, pediu pra ela levar no quarto, porque o Toni ia tomar banho e comer lá em cima. Ela foi indo atrás dos dois. Quando chegaram na porta, a Kim falou:
— Você pode ficar com ele? Vou fazer uma ligação e já volto. Ele sabe se virar sozinho, só fica de olho mesmo, por favor.
Toni falou que queria a Estelinha. A Rebeca respondeu sem jeito:
— Eu posso chamar ela, mas depois. O que você acha de me mostrar como liga esse chuveiro? Eu nunca vi um chuveiro assim, sabia?
Ela nem tinha entrado no banheiro ainda. Ele falou desconfiado:
— Vai chamar mesmo? Promete? Eu não sei por que ela não quer mais ficar comigo, somos amigos, ela sabe que não pode me deixar sozinho.
Ela falou, ajudando ele a tirar a sunga:
— Eu sou nova aqui, preciso aprender a fazer de tudo, está vendo a minha mão? Foi a Nora, ela me mordeu. Não consigo cuidar da casa, por isso vou ajudar você um pouco.