Ele respondeu levando na brincadeira:
— Se depender de mim, vai. E muito.
Rebeca ficou evitando ter tanto contato físico, foi se vestir. Já não era a mesma coisa sentar muito perto, as brincadeiras bestas de ficarem se batendo, se pegando.
Aisha ficou esnobando Júlio, mas deu uns beijos e acabou indo para o quarto. Neto ficou mais próximo de Rebeca, a servindo, sentado perto.
O pessoal foi embora no final do dia. Enquanto ela estava limpando tudo, se pegou pensando em como era bom ter “amigos”.
Aisha tinha acabado de voltar do quarto. Ela chamou Rebeca de canto para falar que ele se declarou, disse rindo que estava apaixonado, pensando em se mudar para lá por causa dela. Rebeca perguntou qual era o problema. Aisha falou, desanimada:
— Eu nunca vou sentir o mesmo, a única pessoa capaz de ter o meu amor morreu. Não é justo com ele continuar!
— Eu gosto de homem mais velho sabe. Ele é um franguinho.
Rebeca falou que não entendia muito bem, mas que talvez ela devia tentar. Aisha respondeu, rindo:
— E ele lá é um bom partido? Não é!
— Irresponsável demais.
Rebeca concordou que não era mesmo.
Depois de limpar tudo, foi para casa. Estava cansada. Ainda se sentia fraca, um pouco indisposta, e parou de trabalhar por causa disso. No dia seguinte, Neto foi para a casa da avó. Passou dar tchau e a convidou, mais Rebeca não quis ir.
Antônio conversou com ela sobre se mudar, sozinha, ir morar com a madrinha dela, no nordeste.
Rebeca perguntou se era mais perto ou longe da família. Ele respondeu, chateado:
— Você sabe que não pode voltar, é perigoso. Eu conversei com ela e agora você já é quase maior de idade e vai poder...
Ela interrompeu e falou, com espanto:
— Conversou? Você me prometeu que ia deixar eu falar também, já fazem meses, que ela não me liga.
— Você não deixa ninguém se aproximar de mim. Eu nunca nem vi ela e agora, quer me mandar pra lá?
Ele disse que não era fácil a realidade deles e que ela precisava ser paciente. Rebeca ficou muito chateada e nem quis mais conversar. No fundo não queria ir embora e deixar Neto.
Na quinta feira, ela esperou Antônio dormir, saiu escondida. Foi para a cidade andando. Ao chegar na Arena tinham muitas pessoas, e mais motos do que carros. O evento do dia era diferente, estavam fazendo manobras, dando grau. A esperança dela era encontrar Aisha.
Ficou sozinha encostada assistindo as manobras. Viu de longe Noah chegando. Ficou encarando ele, tentando criar coragem de ir conversar. Ele estava cercado de gente, quando a viu acenou e sorriu.
Ela acenou e mudou de lugar, foi sentar nas mesas no escuro. Noah percebeu que ela estava querendo ser notada.
Ela já estava desistindo da ideia quando viu a hora e decidiu ir embora. Saiu andando por trás do estacionamento. Ele correu até ela e falou, entrando em sua frente:
— E aí, ruiva, já vai? Ficou me olhando tanto que eu até achei que você ia chegar em mim.
— E eu queria.
Ela parou, falou séria:
— Oi, Noah.
Ele disse que Aisha estava bem longe, viajando. Ela falou:
— Eu vim pra falar com você.
Ele disse, cheio de graça, pegando no cabelo dela, que estava ali para ouvi-la e que ficou imaginando várias coisas para fazer com ela desde que o deixou na vontade. Rebeca falou, se esquivando:
— Preciso de dinheiro!
Ele respondeu, surpreso:
— Beleza, quanto? Tá metida em algum problema? Se eu puder ajudar, tamo aí.
— É só falar um nome, e eu arrebento. Eu tô ligado que você deve ter algum problema.
Ela falou que não queria nada de graça, que só precisava de um trabalho que rendesse mais do que um salário mínimo em menos de um mês, e que sabia da fama dele. Ele cerrou os olhos, falou intrigado:
— Como assim? Eu posso te emprestar, mas pra que você quer tanto dinheiro? É por causa do que aconteceu no outro dia? Precisa ir no médico?
— Você tá doente? Eu fiquei bolado, preocupado com você.
Já arrependida, ela respondeu, frustrada:
— Deixa pra lá, só esquece isso e não fala nada pra Aisha.
— Não tô doente.
Ele a segurou pelo braço, dizendo que queria ajudá-la, mas que não podia sair dando tanto dinheiro assim do nada. Ela se soltou e falou, quase chorando:
— Eu sei, pessoas como você nunca dão nada a ninguém sem querer algo em troca. E olha só, antes de fazer qualquer piadinha de mau gosto, saiba que eu prefiro morrer do que me vender e ficar com alguém por dinheiro.
Ele não gostou e falou, bravo:
— Como se você valesse muito só porque é virgem, se enxerga, Rebeca. Eu posso ter qualquer mulher que eu quiser, uma p**a que dá de dez a zero em você, cobra menos que a metade de um salário mínimo.
— Se quer ajuda, tem que ser sincera.
Aquilo doeu, e muito. Rebeca se virou para ele, limpou as lágrimas, sorriu e falou, friamente:
— Que ótimo, né? Porque dinheiro não compra tudo e nem todos estão à venda. Deve ser difícil, né, Noah?
— Ter tudo e não ter nada, porque com certeza sem esse seu dinheiro ninguém aqui nem saberia quem você é.
— E eu já ouvi falar, que vive na sombra do seu pai.
Ele ficou muito bravo, chamou-a de louca, disse que nunca iria tentar nada assim com alguém como ela e que, se ela pensava aquelas coisas dele, estava só mostrando que não era tão bobinha quanto fingia ser.
A chamou de maluca, chata, garantiu que ela ia se arrepender, e quando precisasse de ajuda, ele não daria.
Rebeca o deixou falando sozinho e foi embora caminhando, revoltada com a vida. Desde que curou Aisha, algo nela mudou, sentia mais raiva de tudo, vontade de criticar e provocar as pessoas. Especialmente ele.
Começou a chover muito um temporal. Quando ela chegou na estrada de terra, que ia pro bairro dela, resolveu parar por causa dos raios e trovões. Escondeu-se embaixo de um galpão abandonado, ficou sentada no escuro. Não tinha ninguém passando.
Ela estava tremendo de frio, batendo os dentes, quando viu um carro se aproximando, correndo, dirigindo de qualquer jeito...