Capítulo 35
Assim que saíram, a Rebeca sentou perto da cama. O Daniel falou:
— E aí, por que você tá aqui?
Ela disse sem jeito:
— Ahhh, eu ouvi falar de você e achei que seria legal te fazer uma visita.
Ele falou irônico:
— Legal? O que tem de legal em vir a um hospital, ver alguém numa cama, sem poder se mexer, alguém que você nunca nem viu antes?
Ela levantou, foi indo pra perto onde ele podia vê-la melhor, e respondeu séria:
— Quer competir? Eu sou ótima em fazer drama, chantagem emocional. Não tenho casa, não tenho família, moro de favor no meu trabalho e eu vivo para trabalhar, sou cercada de pessoas que fazem questão de me lembrar sempre como sou ingênua, imatura, blá-blá-blá.
— Ahhh, meu pai morreu, eu nunca tive mãe. E vir aqui me pareceu bom, porque eu não tenho amigos, pensei que talvez alguém como você, que necessita de repouso, poderia ser mais aberto a fazer amizade comigo, pra sair do tédio, porque eu não sou muito boa coisa, então, quem tem mais opções não perde tempo comigo.
Ele sorriu e falou animado:
— Gostei de você.
Ela sorriu, disse que nem estava querendo diminuir ele, mas que se fosse ela lá na cama, estaria sozinha, abandonada, sem família, sem ninguém. Ele respondeu:
— Eu não gosto da forma que todo mundo me olha com pena, eu só queria melhorar logo, e as dores são a pior parte.
Ela falou chegando mais perto da cama, pensando em tocar ele sutilmente:
— O que você mudaria no passado se soubesse que hoje é seu último dia de vida?
Ele falou nostálgico:
— Tudo o que me levou a ficar assim, ganância. Auto confiança. E você?
Ela falou chateada:
— Estaria em casa quando meu pai morreu. A morte é simples, a vida é mais complicada!
Ele perguntou onde ela estava. Ela falou:
— Em uma festa cercada de gente estranha. Eu estava m*l, triste, revoltada e comecei a sair, eu gosto de carros e ia ver as corridas pra me distrair.
Ele respondeu curioso:
— E por que você ficou assim? Seu pai não era bom pra você?
Ela continuou falando sentida:
— Ele dava o melhor dele, eu nunca vou me perdoar por tudo o que aconteceu. Às vezes eu penso que é tudo culpa minha. Por que eu tinha que estar pra rua? Eu nunca tinha virado a noite toda fora, até aquele dia.
Ele disse que não era culpa dela, que não faria diferença ela estar lá ou não, porque quando chega a hora de partir, ninguém pode fazer nada. Ela só concordou com a cabeça, mas sabia que no caso dela, poderia sim ter impedido o pior.
Ele começou a falar de como sempre gostou de aprontar, contou um pouco da vida dele, disse que roubava carros de luxo, para vender as peças, também que fazia escolta armada de qualquer pessoa que pagasse. Ela disse que não tinha vivido muitas coisas, mas que queria e perguntou se o Ramon tinha ido lá naquela semana. Ele falou:
— Veio esses dias, por quê? É por isso que você veio aqui então?
Ela disse que não, que foi lá por ser xereta mesmo. Ele respondeu:
— Vou fingir que acredito, ainda é cedo demais pra ter uma opinião formada sobre você.
Ela falou rindo:
— Pode ser tarde ou cedo, sou a mesma, você vai logo se cansar de mim.
Ele falou brincando que não ia cansar de nada, já que não fazia nada além de ficar deitado pensando nas possibilidades que o futuro guardava pra ele.
Ela perguntou se ele mexia no celular. Ele disse com graça:
— Com o poder da mente? Claro!
Ela sugeriu que trocassem os contatos. Ele falou interrompendo:
— Não, calma. Preciso pensar! Vai me adicionar? Nas redes sociais?
Ela falou que não tinha nada daquilo. Ele respondeu surpreso:
— É, pelo jeito você realmente está pior que eu. Me promete uma coisa?
Ela falou irônica:
— Eu não, acabei de te conhecer. Promessa é dívida!
Estela estava entrando no quarto com o primo dele. Rebeca falou que era para o primo do Dani salvar o número dela. As duas se despediram deles.
O Daniel disse que não ia sair de lá, que elas podiam voltar mais vezes. Rebeca falou irônica:
— Vou pensar, é muito cedo pra decidir isso.
Os dois já se gostaram logo de cara. Antes delas chegarem em casa, ele mandou uma mensagem:
“Não precisa prometer, é só voltar, qualquer dia, foi legal te conhecer.”
“Você é meio esquisita, eu gosto de gente assim.”
“Estranha.”
Ela respondeu:
“Quando eu voltar vou te levar uma coisa, vc não é curioso não né??”
Ele disse que não, perguntou como era o nome dela completo. Ela disse que era “Pobre Rebeca”. Ele respondeu:
“kkkk vou me lembrar disso.”
O Noah tinha acabado de chegar na casa nova e estava olhando as conversas da Rebeca. Ele não chegou a mostrar para a Kim, mas soube o que estava acontecendo, novamente Rebeca escondendo as coisas deles.
Eles estavam de saída quando as duas chegaram na casa. Ele perguntou para a Rebeca como tinha sido no exame. Ela disse que foi tudo bem. Ele falou sério:
— Foram em mais algum lugar?
Ela olhou nos olhos dele e mentiu, disse que não. Ele respondeu:
— Você está precisando de alguma coisa? Dinheiro?
Ela disse que não. Ele não disse mais nada, o incomodava muito ver ela mentindo olho no olho, tão calma.
A Kim disse que tinha consulta no médico, pediu para as duas ficarem com o Toni. A Iolanda estava lá ainda organizando a casa. Noah foi com a Kim.
A Estela arrumou todas as coisas da Rebeca primeiro. Ela tinha muita coisa que era da Aisha, deixaram o quarto impecável. A Estela separou tudo por cor e tipo, ficou falando que a Rebeca devia usar mais as coisas. Os cosméticos da Aisha estavam todos lá com as duas.
O Toni queria nadar, estrear a piscina da nova casa. A Estela ficou morrendo de medo, não podia vestir biquíni. Rebeca disse que ia nadar com ele, foi se trocar e não queria pôr nada do que tinha ganhado, era tudo muito pequeno. A Estela falou mexendo no guarda-roupa:
— Você não precisa ter tanta vergonha, porque é bonita e ninguém vai ficar reparando em você.
— Tipo, a gente sabe que você é bonita, eu também sou, a Kim é maravilhosa, super segura de si. Você não mora mais no mesmo lugar e não vai ser a mesma de antes para sempre.
— Sabe do que vou sentir falta? De te ensinar a ser mais esperta!
Rebeca estava na cama sentada. As duas fechadas no quarto com o Toni. Ela se levantou, chegou bem perto da Estela, a abraçou por trás e falou baixinho, colocando a mão em sua barriga:
— Também vou sentir. Mas o peixinho vai estar melhor longe!
Estela correspondeu ao abraço, disfarçando, colocou suas mãos em cima das mãos da Rebeca e falou, ajeitando a mão dela mais pra baixo onde o bebê “estava”:
— Sinto muito por ter ficado implicando com você e falando aquelas coisas, que você era uma sociopata estranha. Eu nem imagino quanto você já sofreu, e ainda assim me aceitou.
Rebeca falou surpresa, rindo, se afastando, pegando o biquíni:
— Está grande né? Dura.
Estela concordou, sorriu, ficou toda feliz. Ninguém a tocava assim, ninguém falava desse bebê, ela ainda não estava conseguindo acreditar em tudo aquilo. E já amava a ideia da barriga grande, o bebê mexendo.
Rebeca se trocou, colocou um biquíni e um vestido por cima. Chegando na piscina entrou na água só de biquíni, contou para a Estela sobre a primeira vez que ela usou biquíni, disse que foi coisa da Aisha, tocou no nome do Neto, que sentiu ciúmes na época.
Estela perguntou se ela tinha tido notícias dele. Ela falou:
— Não, nada. A Tassiane me mandou mensagem, mas eu não respondi. Logo ela cansa!
Estela aconselhou ela a conversar com a amiga, porque eles pareciam amigos de verdade e talvez ela fosse precisar deles um dia.
A Estela falou que o quarto delas tinha câmera, só o do Noah e do Ramon que não, sugeriu que a Rebeca fosse no quarto do Ramon ligar para a Tassiane. A Iolanda estava começando a lavar o quintal.
Rebeca foi lá, ligou. A Tassiane atendeu, perguntou se ela estava bem. Ela respondeu que sim, com poucas palavras, ficou quieta.
A Tassiane falou:
— Por que você não me responde? É verdade mesmo que está com o Noah?