A Sombra de Joseon e o Clarão de Seul
Lee Shin (Príncipe Herdeiro)
A escuridão que engolia o Palácio de Changdeok não era aquela trazida pelo repouso natural da noite, mas sim uma névoa densa, carregada do cheiro ferroso de sangue iminente. Era o ano de 1615. No alto dos céus de Hanyang, a lua cheia começava a sofrer uma mordida invisível. O eclipse avançava lentamente, e com ele, uma tonalidade carmesim, profunda e violenta, passava a tingir as telhas curvas dos pavilhões reais. Para o meu povo, era o sinal da fúria dos deuses. Para mim, era o início da minha agonia excruciante.
Trancado em meus aposentos privados, eu segurava as bordas da mesa de madeira maciça com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos. Minhas vestes reais de seda vermelha, bordadas com o dragão dourado de quatro garras, pareciam pesar toneladas sobre os meus ombros. Eu arfava, o peito subindo e descendo em um ritmo frenético enquanto o calor infernal subia por minhas veias. Sob a minha pele, linhas negras e pulsantes começavam a se ramificar como raízes corrompidas, subindo pelo pescoço até alcançarem a linha do meu maxilar.
— Mais uma vez... — sussurrei para o silêncio do quarto, a minha voz já arranhada, perdendo a cadência humana. Senti meus olhos, geralmente escuros e contidos, lampejarem em um tom dourado e felino.
A maldição encomendada pelos meus inimigos políticos na corte — uma feitiçaria sombria alimentada pela inveja e pelo desejo vil de tomar o trono — exigia o seu tributo. A cada eclipse total, a minha humanidade era empurrada para o abismo, dando lugar a uma criatura faminta, uma b***a mística cuja sede de sangue era quase incontrolável. Eu me isolava para proteger o reino e a mim mesmo, mas naquela noite, percebi tarde demais que o meu isolamento era uma armadilha perfeita.
De repente, o silêncio do palácio foi quebrado pelo som seco de metal colidindo contra metal. Gritos abafados ecoaram no pátio externo. Ergui a cabeça, meus sentidos aguçados pela transformação captando o som de passos rápidos e determinados aproximando-se das minhas portas. Os guardas de minha total confiança estavam sendo massacrados.
As portas de correr de papel de arroz foram violentamente rasgadas. Um grupo de homens mascarados, vestidos com trajes pretos de assassinos, invadiu o recinto com espadas empunhadas. À frente deles estava o Ministro da Esquerda, Kim Ja-heon, o homem que havia arquitetado a minha desgraça desde o início.
— Veja só o monstro que finge ser o futuro desta nação — zombou o ministro, desembainhando sua lâmina com uma lentidão sádica. — O rei jamais saberá que o executamos. Para todos os efeitos, Vossa Alteza sucumbiu à loucura e nós apenas protegemos o trono.
Tentei me levantar, mas a dor da transformação travou meus músculos. Caí de joelhos, cravando as garras recém-formadas no assoalho. A lua lá fora estava quase completamente coberta por uma sombra de sangue.
— Afastem-se... — rugi, um som gutural que fez os assassinos hesitarem por um breve segundo.
— Matem-no! Agora que ele está fraco! — ordenou Ja-heon.
Três assassinos avançaram simultaneamente. Instintivamente, o meu orgulho e o meu treinamento militar falaram mais alto que a dor. Com um movimento circular, usei o próprio corpo para desviar do primeiro golpe, arrancando a espada de um dos atacantes e cortando o ar em um arco perfeito. O sangue jorrou, manchando o tapete real. No entanto, o esforço acelerou o veneno em minhas veias. Uma pontada aguda no coração me fez vacilar, e a lâmina do segundo assassino cortou profundamente o meu abdômen.
Recuei até a parede, o sangue real escorrendo por entre os meus dedos. Foi nesse momento de desespero absoluto que um amuleto que eu carregava junto ao peito — uma antiga relíquia de jade deixada por minha falecida mãe — começou a pulsar em sincronia com a lua carmesim. Uma luz ofuscante, de um azul celestial misturado ao vermelho do eclipse, emanou do objeto, expandindo-se em uma onda de choque que arremessou os assassinos contra as paredes.
O ar ao meu redor começou a se distorcer como o reflexo da água sob uma tempestade. A realidade parecia rasgar-se diante dos meus olhos. Sob o comando místico do eclipse total, o chão sob os meus pés desapareceu, e eu despencuei em um vácuo de silêncio e luz ofuscante, deixando para trás o som das espadas e o cheiro de traição de Joseon.
Dra. Han Chae-won
No ano de 2026, o Hospital Universitário de Seul operava em seu ritmo habitual de caos e urgência. No centro cirúrgico do pronto-socorro, eu terminava de dar o último ponto no abdômen de um paciente vítima de um acidente de trânsito. Removi as luvas cirúrgicas com um movimento mecânico, sentindo o peso de um plantão que já passava das trinta e seis horas seguidas.
Eu sempre fui uma mulher guiada estritamente pela lógica, pela ciência e por dados mensuráveis. Para mim, o corpo humano é uma máquina complexa que precisa de reparos técnicos, e o destino nada mais é do que uma desculpa esfarrapada para aqueles que não sabem planejar a própria vida. O amor, as superstições e o misticismo nunca tiveram espaço na minha rotina friamente calculada.
— Ótimo trabalho, Dra. Han. Vá descansar um pouco, nós assumimos daqui — disse o chefe dos residentes, oferecendo um aceno simpático.
— Obrigada. Só preciso de um café bem forte e dez minutos de silêncio — respondi, com a voz gasta, caminhando em direção à saída dos fundos do hospital. Havia ali um pequeno jardim interno onde nós, funcionários, costumávamos fugir para respirar ar puro.
Ao pisar no jardim, olhei para o céu por um instante. Embora a poluição luminosa da metrópole cobrisse a maioria das estrelas, a lua exibia o fenômeno raro que os jornais vinham anunciando há semanas: um eclipse lunar total. Ela estava imensa, tingida de um vermelho magnético e misterioso. Sorri ironicamente lembrando das histórias antigas que minha avó contava, dizendo que noites de lua de sangue atraíam espíritos e desgraças. Para mim, aquilo era apenas a luz solar sendo filtrada e refratada pela atmosfera da Terra. Nada mais.
Um estrondo violento quebrou a calmaria da noite. Não foi o som de algo desabando, mas sim o som de uma descarga de energia pura, como se um raio tivesse atingido o solo sem que houvesse uma única nuvem de chuva no céu. As luzes dos postes piscaram freneticamente antes de voltarem ao normal.
Franzi o cenho e caminhei na direção da fumaça tênue que subia perto dos arbustos de azaleias. Quando a névoa se dissipou, meu coração saltou no peito. Caído sobre a grama, tossindo e gemendo de dor, estava um homem.
— Ei! Você está bem? — Corri até ele, o meu instinto médico assumindo o controle no mesmo segundo. Ajoelhei-me ao lado do corpo caído.
Minha primeira reação foi de pura perplexidade. O homem vestia roupas absurdamente elaboradas, uma túnica de seda pesada com bordados dourados que pareciam ter saído diretamente dos bastidores de um drama histórico de época. Porém, o tecido estava rasgado, coberto de poeira e empastado com um sangue muito real e fresco que jorrava de um ferimento profundo em seu abdômen.
— Que tipo de filmagem louca eles estão fazendo por aqui?... — resmunguei para mim mesma, posicionando as mãos firmemente sobre o ferimento dele para aplicar pressão e conter a hemorragia. — Senhor, consegue me ouvir? Sou médica. Preciso que mantenha a calma.
Lee Shin (Príncipe Herdeiro)
Abri os olhos devagar. A visão daquele lugar me atingiu como um golpe físico: prédios gigantescos que tocavam o céu com janelas iluminadas, painéis que emitiam luzes coloridas ao longe e estruturas de vidro impossíveis. Pensei, com toda a certeza, que havia morrido e caído no próprio inferno. Minha respiração estava curta, e a b***a dentro de mim ainda arranhava as paredes da minha mente, rugindo pelo sangue que eu continuava a perder.
Sentia minhas veias negras pulsarem sob a pele do pescoço. A fúria mística lutava para emergir, me compelindo a atacar qualquer criatura viva que estivesse ao meu alcance para aplacar a dor da maldição.
No entanto, no segundo exato em que as mãos daquela mulher desconhecida pressionaram o meu ferimento, uma onda de choque percorreu o meu corpo. Não foi uma dor, mas sim um calor absurdamente reconfortante, como se uma calmaria milenar estivesse sendo despejada sobre as minhas veias inflamadas. Instantaneamente, as linhas negras sob a minha pele começaram a retroceder. Meus olhos deixaram o tom dourado e voltaram ao castanho, e a dor insuportável da transformação simplesmente desapareceu, deixando apenas o cansaço do ferimento físico.
Pisquei, focando a visão no rosto da mulher que me segurava com tanta firmeza. Meus lábios tremeram, e o ar faltou em meus pulmões por um motivo completamente diferente da dor.
Os traços delicados, os olhos determinados, a expressão de preocupação e coragem... Era ela. IDÊNTICA. Cada linha do rosto daquela mulher era a cópia exata de Yeon-hee, a nobre que havia sido o grande amor da minha vida em Joseon e que eu tinha visto morrer tragicamente em meus braços anos atrás.
— Yeon-hee... — sussurrei, minha voz falhando enquanto erguia uma mão trêmula e suja de sangue para tocar de leve o rosto dela. — Você... voltou para mim?
Dra. Han Chae-won
Congelei no momento em que a mão quente e manchada de sangue dele encostou na minha bochecha. Olhei para aquele homem, chocada com a intensidade e a dor que transbordavam do seu olhar, mas a minha mente lógica e científica rejeitou imediatamente o nome que ele havia pronunciado.
— Do que você está falando? Meu nome é Han Chae-won. Você está delirando por causa da perda severa de sangue — disse, firmando a voz e tentando ignorar o arrepio estranho e inexplicável que percorreu minha espinha com o toque dele. Virei a cabeça em direção às portas de vidro do hospital e gritei com toda a força dos meus pulmões: — Preciso de uma maca aqui fora, agora! Emergência!
O homem tentou segurar o meu braço, a mente claramente confusa diante das luzes do hospital e da minha presença.
— Não me deixe... — pediu ele em um sussurro fraco, antes que os olhos dele girassem e a inconsciência finalmente o levasse, fazendo-o apagar completamente nos meus braços sob a luz vermelha daquela lua de sangue.