O Refúgio e a Lógica Quebrada.

2233 Words
​ Dra. Han Chae-won ​O assoalho de madeira do meu apartamento parecia estalar a cada passo, como se o próprio ambiente estivesse chocado com a presença daquele homem. O trajeto de carro do hospital até o meu prédio, no bairro de Mapo, fora um exercício de puro terror psicológico e silêncio tenso. Eu dirigia com uma mão no volante e a outra tremendo no mastro da marcha, enquanto espiava pelo retrovisor Lee Shin, que observava os túneis iluminados e as pontes sobre o Rio Han com os olhos arregalados, paralisado diante da imensidão de metal e néon da Seul moderna. ​Agora, na penumbra da minha sala de estar, a realidade batia com força total. ​— Sente-se no sofá. Não suje o estofado com sangue — ordenei, tentando manter o tom profissional e distante de uma médica, embora por dentro meu cérebro estivesse em colapso total. ​Shin não se moveu imediatamente. Ele encarou o sofá de couro cinza com extrema desconfiança, aproximou-se devagar e tocou o material com a ponta dos dedos antes de se acomodar com uma postura rígida, a coluna reta como uma espada. Ele parecia um rei num trono improvisado, totalmente inadequado usando uma túnica hospitalar azul rasgada e descalço. ​Corri até o banheiro e voltei com a minha maleta de emergências médicas, luvas estéreis, gaze, antisséptico e fios de sutura. Ajoelhei-me diante dele na carpete. ​— Preciso reabrir o curativo e dar novos pontos onde a ferida rasgou no hospital — disse, calçando as luvas de borracha. — Vai doer. Não tenho anestésico local aqui. ​— Dor física é um mero detalhe, Chae-won — respondeu ele, olhando diretamente nos meus olhos. — Eu enfrentei a lâmina de traidores e o rasgar de uma feitiçaria nojenta. Uma agulha não me fará curvar a cabeça. ​Suspirei, recusando-me a dar trela para o orgulho régio dele. Com cuidado, comecei a cortar a gaze empastada de sangue. Quando a pele de seu abdômen ficou exposta sob a iluminação do abajur, congelei. ​Os pontos que eu havia dado há menos de duas horas não estavam apenas rompidos; a pele ao redor deles apresentava uma regeneração tecidual que desafiava qualquer tratado de patologia humana. A cicatrização estava ocorrendo em uma velocidade anormal, mas as bordas do corte profundo exibiam pequenas e tênues ramificações escuras que tentavam se fechar à força. ​— Isso não é uma cicatrização fisiológica normal... — murmurei, aproximando a pinça. — O que é esse pigmento escuro nos seus tecidos? É um veneno? Uma infecção parasitária? ​— É o resíduo da maldição — explicou Shin, a voz baixa e serena, embora uma leve contração no maxilar denunciasse que ele sentia a picada da agulha quando comecei a limpar a região com iodopovidona. — A feitiçaria que lançaram sobre meu sangue na era Joseon tenta corroer meu corpo por dentro a cada eclipse. Ela me transforma naquilo que o povo chama de b***a. ​— Não existe 'feitiçaria', Shin — retruquei firmemente, tentando agarrar-me ao único pilar que me sustentara a vida inteira: a ciência. — Feitiçaria é apenas o nome que as pessoas do passado davam para fenômenos biológicos, toxinas ou patologias desconhecidas! Deve haver um vírus, uma mutação genética no seu DNA... ​— Então como a 'ciência' da sua era explica o fato de eu ter saído de um palácio em 1615 e caído em um jardim cercado por torres de vidro nesta noite? — perguntou ele, inclinando-se ligeiramente para a frente. ​Minha mão com a agulha travou no ar. Olhei para ele. A proximidade fez com que eu sentisse o calor emanando de seu corpo. O rosto de Lee Shin era de uma perfeição quase dolorosa, e a intensidade com que ele me encarava destruía qualquer barreira racional que eu tentasse erguer. ​— Eu... eu ainda não sei explicar isso — admiti, a voz saindo quase como um sussurro. — Mas vou descobrir. ​— Você não precisa descobrir a física deste mundo, Chae-won. Precisa apenas aceitar o que seus olhos já viram — disse ele, erguendo a mão esquerda e tocando levemente os meus dedos que seguravam a gaze. ​No milésimo de segundo em que sua pele encostou na minha, uma sensação morna e reconfortante percorreu meus braços, fazendo os pelos da minha nuca se arrepiarem. Vi as pequenas linhas escuras sob a pele do abdômen dele se retraírem instantaneamente, como se estivessem fugindo do meu toque. A ferida parou de expelir o líquido escuro e a inflamação cedeu. ​Puxei a mão de volta como se tivesse me queimado, o peito subindo e descendo aceleradamente. ​— Pare de fazer isso... — pedi, sem conseguir encarar seu olhar. ​— Fazer o quê? ​— Isso... essa coisa inexplicável! Toda vez que eu toco em você, seu corpo reage como se eu fosse um tipo de antídoto. Eu sou uma cirurgiã, não um remédio mágico! ​— Em Joseon... — Shin começou a dizer, o tom de voz mudando para uma melancolia profunda que cortou o ar da sala — ...Yeon-hee era a única que conseguia me segurar quando a b***a tomava conta da minha mente. Quando o eclipse cobria os céus e eu perdia o controle, a voz dela e o toque de suas mãos eram as únicas coisas capazes de me manter humano. ​— Eu já disse que não sou essa mulher! — levantei-me de golpe, tirando as luvas e jogando-as no lixo da cozinha.minha voz ecoou pelo apartamento. — Meu nome é Han Chae-won! Eu estudei dez anos da minha vida, passei noites em claro em plantões para me tornar médica! Tenho uma história, uma vida, um nome! Não sou o fantasma do seu passado! ​Lee Shin (Príncipe Herdeiro) ​A fúria de Chae-won ressoou pelas paredes daquele quarto estranho e iluminado por luzes artificiais. Fiquei em silêncio, observando a forma como suas mãos tremiam enquanto ela apoiava os braços no balcão da cozinha, de costas para mim. ​Ela estava assustada. Não apenas com os monstros que nos atacaram no hospital, mas com a ruptura do mundo perfeito e previsível em que vivia. ​Levantei-me do sofá devagar, sentindo a estabilidade voltar ao meu corpo graças à cura que a presença dela me proporcionara. Caminhei em direção a ela. Meus passos descalços não faziam barulho no piso suave. Parei a um passo de distância de suas costas. ​— Peço desculpas — disse calmamente, a voz grave e sincera. ​Ela se virou, surpresa com a minha aproximação repentina, o olhar defensivo ainda erguido como um escudo. ​— O herdeiro do trono de Joseon pedindo desculpas? — ironizou ela, embora o tom tivesse perdido a agressividade. ​— Eu sou um príncipe, mas não sou cego — respondi, encarando os olhos dela com gravidade. — Vejo a sua força. Vejo a sua mente afiada e a habilidade inacreditável das suas mãos ao salvar vidas. Você não veste os trajes de Yeon-hee, não fala com a submissão que exigiam das mulheres da minha época e carrega uma coragem que eu raramente vi em homens de guerra. Você é Han Chae-won. E eu respeito a mulher que você é. ​Chae-won piscou, pega de surpresa pelas minhas palavras. Um leve tom rosado subiu por suas bochechas, e ela desviou o olhar por um segundo, limpando a garganta. ​— Que bom que entendeu — murmurou ela. — Agora... precisamos pensar no que fazer. O hospital deve estar cercado de policiais a esta hora. Aqueles dois homens amaldiçoados que nos atacaram... quem eram eles na verdade? ​— Eram receptáculos — expliquei, caminhando até a grande janela de vidro do apartamento e observando a metrópole brilhante lá fora. — O Ministro Kim Ja-heon e os magos que o serviam usavam selos de sangue. Quando o eclipse abriu a f***a temporal e me arremessou para esta era, a energia da maldição vazou para este mundo. Aqueles homens eram apenas cascas vazias nesta era, cujas mentes foram dominadas pela intenção de matar que reside no selo. Se a maldição está ativa em Seul, significa que... ​— Significa que mais pessoas podem ser atacadas — completou Chae-won, juntando as peças com uma rapidez impressionante. — O hospital, a polícia... qualquer um que cruzar o caminho dessas coisas pode morrer. ​— Não apenas isso — virei-me para ela. — Se o selo de sangue atravessou o tempo, o responsável por ele também pode ter atravessado. O Ministro Kim ou seus descendentes podem estar nesta era, buscando completar o ritual e reivindicar a energia que habita em mim. ​Chae-won levou a mão à testa, desfazendo o coque e deixando seus cabelos escuros caírem pelos ombros. Ela parecia exausta, mas a determinação em seus olhos não se apagava. ​— O que precisamos para quebrar essa maldição de uma vez por todas? — perguntou ela. ​— O amuleto de jade — respondi, levando a mão ao peito. Percebi então, com um aperto no coração, que o artefato que minha mãe me dera não estava mais sob a minha túnica. — Onde está a relíquia? Dra. Han Chae-won ​Gelei. A lembrança veio como um estalo em minha mente. ​— Quando a equipe do resgate cortou as suas roupas na sala de emergência... — disse, caminhando rapidamente até a minha bolsa médica e pegando um pequeno saco plástico de objetos pessoais que o enfermeiro Min havia me entregado antes da confusão. — Eles tiraram isso de você antes de entrarmos para a cirurgia. ​Abri o saco de lacre e tirei de lá o amuleto. Era uma peça de jade n***o incrivelmente antiga, esculpida na forma de um dragão enrolado em torno de uma lua crescente. No centro da pedra, havia uma rachadura profunda, de onde uma luz fraca e azulada parecia pulsar em um ritmo quase imperceptível. ​Shin se aproximou e pegou o objeto da minha mão. No momento em que seus dedos tocaram o jade, a luz azul brilhou com um pouco mais de força, refletindo no rosto austero do príncipe. ​— Está danificado — disse ele, a voz carregada de preocupação. — A travessia temporal rachou o selo de proteção do amuleto. É por isso que a maldição vazou para este mundo e começou a possuir corpos nesta cidade. ​— Tem como consertar isso? — perguntei. ​— Apenas com o ritual correto e com o sangue daquele que carrega a linhagem guardiã — Shin olhou diretamente para mim, e o significado daquele olhar fez meu estômago dar um nó. ​— Nem comece — avisei, dando um passo para trás. — Eu já concordei em te esconder aqui e cuidar da sua ferida. Não vou me envolver em rituais místicos de sangria! ​Antes que Shin pudesse responder, o meu celular, jogado sobre o balcão da cozinha, começou a tocar e vibrar ruidosamente, fazendo um som agudo que fez o príncipe dar um salto e colocar a mão na cintura como se buscasse uma espada inexistente. ​— O que é esse artefato barulhento?! — perguntou ele, tenso. ​— É só o meu telefone — acalmei-o, pegando o aparelho. ​O nome na tela fez meu sangue gelar: Dr. Kang Seok-jin, o diretor clínico do hospital e um dos homens mais influentes da medicina na Coreia. ​Atendi imediatamente, tentando manter a voz firme. ​— Sim, Diretor Kang? ​— Chae-won? Onde você está? — a voz do diretor veio grave, mas estranhamente calma, sem a agitação que eu esperava após um ataque na emergência. — A polícia está aqui no hospital investigando o incidente na sala de trauma. Disseram que você saiu com o paciente misterioso sem autorização. ​— Diretor, foi uma situação de emergência, o paciente estava instável e... ​— Não precisa se justificar, Dra. Han — interrompeu o diretor, e havia um tom frio, quase metálico em sua voz que fez todos os alarmes da minha cabeça dispararem. — Na verdade, estou muito interessado nesse paciente. O histórico genético que coletamos do sangue dele antes de você fugir... é fascinante. O sangue dele pertence a uma linhagem que eu venho procurando há muito, muito tempo. ​Segurei o celular com mais força, dando um passo involuntário para perto de Shin. ​— Do que o senhor está falando, Diretor Kang? ​— Traga-o para a minha residência privada em Seongbuk-dong, Chae-won. Se você não o trouxer até o amanhecer, a polícia emitirá um mandado de prisão em seu nome por cumplicidade em agressão e sequestro. E acredite... a polícia será o menor dos seus problemas. ​A ligação caiu com um clique seco. ​Olhei para o ecrã do celular, em choque. Ergui os olhos para Shin, que me observava com a expressão sombria. ​— Quem era? — perguntou ele. ​— O diretor do meu hospital... — respondi, o terror assentando-se em minha mente. — A voz dele... ele sabia sobre o seu sangue. Shin, como um médico moderno saberia sobre uma linhagem de quatrocentos anos atrás? ​Shin fechou a mão em torno do amuleto rachado de jade, o olhar endurecendo como aço. ​— O Ministro Kim Ja-heon não morreu em Joseon — disse ele, com uma certeza assustadora. — Ele encontrou uma maneira de atravessar... e esteve esperando por mim o tempo todo.
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