Dra. Han Chae-won
O assoalho de madeira do meu apartamento parecia estalar a cada passo, como se o próprio ambiente estivesse chocado com a presença daquele homem. O trajeto de carro do hospital até o meu prédio, no bairro de Mapo, fora um exercício de puro terror psicológico e silêncio tenso. Eu dirigia com uma mão no volante e a outra tremendo no mastro da marcha, enquanto espiava pelo retrovisor Lee Shin, que observava os túneis iluminados e as pontes sobre o Rio Han com os olhos arregalados, paralisado diante da imensidão de metal e néon da Seul moderna.
Agora, na penumbra da minha sala de estar, a realidade batia com força total.
— Sente-se no sofá. Não suje o estofado com sangue — ordenei, tentando manter o tom profissional e distante de uma médica, embora por dentro meu cérebro estivesse em colapso total.
Shin não se moveu imediatamente. Ele encarou o sofá de couro cinza com extrema desconfiança, aproximou-se devagar e tocou o material com a ponta dos dedos antes de se acomodar com uma postura rígida, a coluna reta como uma espada. Ele parecia um rei num trono improvisado, totalmente inadequado usando uma túnica hospitalar azul rasgada e descalço.
Corri até o banheiro e voltei com a minha maleta de emergências médicas, luvas estéreis, gaze, antisséptico e fios de sutura. Ajoelhei-me diante dele na carpete.
— Preciso reabrir o curativo e dar novos pontos onde a ferida rasgou no hospital — disse, calçando as luvas de borracha. — Vai doer. Não tenho anestésico local aqui.
— Dor física é um mero detalhe, Chae-won — respondeu ele, olhando diretamente nos meus olhos. — Eu enfrentei a lâmina de traidores e o rasgar de uma feitiçaria nojenta. Uma agulha não me fará curvar a cabeça.
Suspirei, recusando-me a dar trela para o orgulho régio dele. Com cuidado, comecei a cortar a gaze empastada de sangue. Quando a pele de seu abdômen ficou exposta sob a iluminação do abajur, congelei.
Os pontos que eu havia dado há menos de duas horas não estavam apenas rompidos; a pele ao redor deles apresentava uma regeneração tecidual que desafiava qualquer tratado de patologia humana. A cicatrização estava ocorrendo em uma velocidade anormal, mas as bordas do corte profundo exibiam pequenas e tênues ramificações escuras que tentavam se fechar à força.
— Isso não é uma cicatrização fisiológica normal... — murmurei, aproximando a pinça. — O que é esse pigmento escuro nos seus tecidos? É um veneno? Uma infecção parasitária?
— É o resíduo da maldição — explicou Shin, a voz baixa e serena, embora uma leve contração no maxilar denunciasse que ele sentia a picada da agulha quando comecei a limpar a região com iodopovidona. — A feitiçaria que lançaram sobre meu sangue na era Joseon tenta corroer meu corpo por dentro a cada eclipse. Ela me transforma naquilo que o povo chama de b***a.
— Não existe 'feitiçaria', Shin — retruquei firmemente, tentando agarrar-me ao único pilar que me sustentara a vida inteira: a ciência. — Feitiçaria é apenas o nome que as pessoas do passado davam para fenômenos biológicos, toxinas ou patologias desconhecidas! Deve haver um vírus, uma mutação genética no seu DNA...
— Então como a 'ciência' da sua era explica o fato de eu ter saído de um palácio em 1615 e caído em um jardim cercado por torres de vidro nesta noite? — perguntou ele, inclinando-se ligeiramente para a frente.
Minha mão com a agulha travou no ar. Olhei para ele. A proximidade fez com que eu sentisse o calor emanando de seu corpo. O rosto de Lee Shin era de uma perfeição quase dolorosa, e a intensidade com que ele me encarava destruía qualquer barreira racional que eu tentasse erguer.
— Eu... eu ainda não sei explicar isso — admiti, a voz saindo quase como um sussurro. — Mas vou descobrir.
— Você não precisa descobrir a física deste mundo, Chae-won. Precisa apenas aceitar o que seus olhos já viram — disse ele, erguendo a mão esquerda e tocando levemente os meus dedos que seguravam a gaze.
No milésimo de segundo em que sua pele encostou na minha, uma sensação morna e reconfortante percorreu meus braços, fazendo os pelos da minha nuca se arrepiarem. Vi as pequenas linhas escuras sob a pele do abdômen dele se retraírem instantaneamente, como se estivessem fugindo do meu toque. A ferida parou de expelir o líquido escuro e a inflamação cedeu.
Puxei a mão de volta como se tivesse me queimado, o peito subindo e descendo aceleradamente.
— Pare de fazer isso... — pedi, sem conseguir encarar seu olhar.
— Fazer o quê?
— Isso... essa coisa inexplicável! Toda vez que eu toco em você, seu corpo reage como se eu fosse um tipo de antídoto. Eu sou uma cirurgiã, não um remédio mágico!
— Em Joseon... — Shin começou a dizer, o tom de voz mudando para uma melancolia profunda que cortou o ar da sala — ...Yeon-hee era a única que conseguia me segurar quando a b***a tomava conta da minha mente. Quando o eclipse cobria os céus e eu perdia o controle, a voz dela e o toque de suas mãos eram as únicas coisas capazes de me manter humano.
— Eu já disse que não sou essa mulher! — levantei-me de golpe, tirando as luvas e jogando-as no lixo da cozinha.minha voz ecoou pelo apartamento. — Meu nome é Han Chae-won! Eu estudei dez anos da minha vida, passei noites em claro em plantões para me tornar médica! Tenho uma história, uma vida, um nome! Não sou o fantasma do seu passado!
Lee Shin (Príncipe Herdeiro)
A fúria de Chae-won ressoou pelas paredes daquele quarto estranho e iluminado por luzes artificiais. Fiquei em silêncio, observando a forma como suas mãos tremiam enquanto ela apoiava os braços no balcão da cozinha, de costas para mim.
Ela estava assustada. Não apenas com os monstros que nos atacaram no hospital, mas com a ruptura do mundo perfeito e previsível em que vivia.
Levantei-me do sofá devagar, sentindo a estabilidade voltar ao meu corpo graças à cura que a presença dela me proporcionara. Caminhei em direção a ela. Meus passos descalços não faziam barulho no piso suave. Parei a um passo de distância de suas costas.
— Peço desculpas — disse calmamente, a voz grave e sincera.
Ela se virou, surpresa com a minha aproximação repentina, o olhar defensivo ainda erguido como um escudo.
— O herdeiro do trono de Joseon pedindo desculpas? — ironizou ela, embora o tom tivesse perdido a agressividade.
— Eu sou um príncipe, mas não sou cego — respondi, encarando os olhos dela com gravidade. — Vejo a sua força. Vejo a sua mente afiada e a habilidade inacreditável das suas mãos ao salvar vidas. Você não veste os trajes de Yeon-hee, não fala com a submissão que exigiam das mulheres da minha época e carrega uma coragem que eu raramente vi em homens de guerra. Você é Han Chae-won. E eu respeito a mulher que você é.
Chae-won piscou, pega de surpresa pelas minhas palavras. Um leve tom rosado subiu por suas bochechas, e ela desviou o olhar por um segundo, limpando a garganta.
— Que bom que entendeu — murmurou ela. — Agora... precisamos pensar no que fazer. O hospital deve estar cercado de policiais a esta hora. Aqueles dois homens amaldiçoados que nos atacaram... quem eram eles na verdade?
— Eram receptáculos — expliquei, caminhando até a grande janela de vidro do apartamento e observando a metrópole brilhante lá fora. — O Ministro Kim Ja-heon e os magos que o serviam usavam selos de sangue. Quando o eclipse abriu a f***a temporal e me arremessou para esta era, a energia da maldição vazou para este mundo. Aqueles homens eram apenas cascas vazias nesta era, cujas mentes foram dominadas pela intenção de matar que reside no selo. Se a maldição está ativa em Seul, significa que...
— Significa que mais pessoas podem ser atacadas — completou Chae-won, juntando as peças com uma rapidez impressionante. — O hospital, a polícia... qualquer um que cruzar o caminho dessas coisas pode morrer.
— Não apenas isso — virei-me para ela. — Se o selo de sangue atravessou o tempo, o responsável por ele também pode ter atravessado. O Ministro Kim ou seus descendentes podem estar nesta era, buscando completar o ritual e reivindicar a energia que habita em mim.
Chae-won levou a mão à testa, desfazendo o coque e deixando seus cabelos escuros caírem pelos ombros. Ela parecia exausta, mas a determinação em seus olhos não se apagava.
— O que precisamos para quebrar essa maldição de uma vez por todas? — perguntou ela.
— O amuleto de jade — respondi, levando a mão ao peito. Percebi então, com um aperto no coração, que o artefato que minha mãe me dera não estava mais sob a minha túnica. — Onde está a relíquia?
Dra. Han Chae-won
Gelei. A lembrança veio como um estalo em minha mente.
— Quando a equipe do resgate cortou as suas roupas na sala de emergência... — disse, caminhando rapidamente até a minha bolsa médica e pegando um pequeno saco plástico de objetos pessoais que o enfermeiro Min havia me entregado antes da confusão. — Eles tiraram isso de você antes de entrarmos para a cirurgia.
Abri o saco de lacre e tirei de lá o amuleto. Era uma peça de jade n***o incrivelmente antiga, esculpida na forma de um dragão enrolado em torno de uma lua crescente. No centro da pedra, havia uma rachadura profunda, de onde uma luz fraca e azulada parecia pulsar em um ritmo quase imperceptível.
Shin se aproximou e pegou o objeto da minha mão. No momento em que seus dedos tocaram o jade, a luz azul brilhou com um pouco mais de força, refletindo no rosto austero do príncipe.
— Está danificado — disse ele, a voz carregada de preocupação. — A travessia temporal rachou o selo de proteção do amuleto. É por isso que a maldição vazou para este mundo e começou a possuir corpos nesta cidade.
— Tem como consertar isso? — perguntei.
— Apenas com o ritual correto e com o sangue daquele que carrega a linhagem guardiã — Shin olhou diretamente para mim, e o significado daquele olhar fez meu estômago dar um nó.
— Nem comece — avisei, dando um passo para trás. — Eu já concordei em te esconder aqui e cuidar da sua ferida. Não vou me envolver em rituais místicos de sangria!
Antes que Shin pudesse responder, o meu celular, jogado sobre o balcão da cozinha, começou a tocar e vibrar ruidosamente, fazendo um som agudo que fez o príncipe dar um salto e colocar a mão na cintura como se buscasse uma espada inexistente.
— O que é esse artefato barulhento?! — perguntou ele, tenso.
— É só o meu telefone — acalmei-o, pegando o aparelho.
O nome na tela fez meu sangue gelar: Dr. Kang Seok-jin, o diretor clínico do hospital e um dos homens mais influentes da medicina na Coreia.
Atendi imediatamente, tentando manter a voz firme.
— Sim, Diretor Kang?
— Chae-won? Onde você está? — a voz do diretor veio grave, mas estranhamente calma, sem a agitação que eu esperava após um ataque na emergência. — A polícia está aqui no hospital investigando o incidente na sala de trauma. Disseram que você saiu com o paciente misterioso sem autorização.
— Diretor, foi uma situação de emergência, o paciente estava instável e...
— Não precisa se justificar, Dra. Han — interrompeu o diretor, e havia um tom frio, quase metálico em sua voz que fez todos os alarmes da minha cabeça dispararem. — Na verdade, estou muito interessado nesse paciente. O histórico genético que coletamos do sangue dele antes de você fugir... é fascinante. O sangue dele pertence a uma linhagem que eu venho procurando há muito, muito tempo.
Segurei o celular com mais força, dando um passo involuntário para perto de Shin.
— Do que o senhor está falando, Diretor Kang?
— Traga-o para a minha residência privada em Seongbuk-dong, Chae-won. Se você não o trouxer até o amanhecer, a polícia emitirá um mandado de prisão em seu nome por cumplicidade em agressão e sequestro. E acredite... a polícia será o menor dos seus problemas.
A ligação caiu com um clique seco.
Olhei para o ecrã do celular, em choque. Ergui os olhos para Shin, que me observava com a expressão sombria.
— Quem era? — perguntou ele.
— O diretor do meu hospital... — respondi, o terror assentando-se em minha mente. — A voz dele... ele sabia sobre o seu sangue. Shin, como um médico moderno saberia sobre uma linhagem de quatrocentos anos atrás?
Shin fechou a mão em torno do amuleto rachado de jade, o olhar endurecendo como aço.
— O Ministro Kim Ja-heon não morreu em Joseon — disse ele, com uma certeza assustadora. — Ele encontrou uma maneira de atravessar... e esteve esperando por mim o tempo todo.