RUAN NARRANDO
Me chamo Ruan, tenho vinte e quatro anos e não vou mentir pra você: sei que sou um dos manos mais cobiçados dessa área.
Alto, corpo definido, abdômen trincado de tanto malhar, umas tatuagens espalhadas pelo braço e pelo peito. Sempre andando alinhado, cheiroso, com aquele jeito que já chega e chama atenção. As minas se amarram em mim — é f**a, mas é verdade.
Só que, de todas elas, tem uma que realmente mexe comigo.
Bianca.
Aquela mina é mó gata, sem exagero nenhum.
Tento uma chance com ela desde o tempo da escola, e ela é difícil pra c*****o. Nunca vi ela se envolver com ninguém e, na moral? Agradeço a Deus por isso.
Porque, se outro cara tivesse chegado antes de mim, eu nem sei o que faria.
Ela só quer saber de gravar aqueles vídeos malucos dela, rindo, fazendo a alegria da quebrada inteira. E é isso que me deixa ainda mais amarrado nela. O jeito que ela é, leve, solta, sem ficar dando confiança pra qualquer um.
Pode ser difícil o quanto quiser.
Eu não desisto.
Uma hora ela vai ceder. Eu sei que vai.
Enquanto isso, vou vivendo minha vida. Pegando uma aqui, outra ali, sempre na encolha, sem ela ver nem saber.
Se não for assim, aí sim que eu não vou ter chance nenhuma.
Mulher não pode saber que a gente tá na luta com outras. Isso mata qualquer investida.
Já o Douglas, meu irmão, é o completo oposto de mim.
Enquanto eu ando sempre de sorriso no rosto, ele é fechadão. Só minha mãe consegue arrancar um sorriso daquele homem e, mesmo assim, é na maior dificuldade.
Depois que virou dono desse morro, então, parece que ficou ainda mais sério.
E ele também é amarrado na Bianca.
Se declarou pra ela na adolescência, igual eu fiz. Só que, quando ela fez pouco caso de nós dois, o Douglas ficou na dele.
Nunca mais insistiu.
Ficou só comendo ela com os olhos de longe, calado, guardando aquilo pra ele.
Eu não.
Eu vou pra luta.
Se eu quero uma coisa, vou atrás até conseguir.
E a Bianca?
Essa eu quero mais do que qualquer outra.
Não vou mentir: às vezes fico olhando aqueles olhos verdes e meu coração bate diferente. Uma parada que eu nunca senti por mulher nenhuma.
E, se ela realmente me der uma chance, papo reto, eu largo essa vida de ficar pegando uma aqui e outra ali.
Juro por Deus.
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Tava com o Douglas e uns menor ali perto do campinho, na maior resenha, quando vi ela vindo.
Na hora, meu olhar grudou nela.
Olho de gato, cabelo loiro balançando, aquele sorriso bonito estampado na cara enquanto cumprimentava todo mundo que passava.
— Já volto — avisei aos menor.
Nem esperei resposta.
Saí da rodinha e fui de encontro a ela.
— Qual foi, Bia? Tá indo pra onde nessa pressa toda?
Ela olhou pra mim e já soltou aquele sorriso debochado.
— Pra casa, ué. Quer que eu vá pra onde?
— Posso ir contigo.
— Quem disse que eu quero companhia?
— Ninguém. Mas também ninguém perguntou se podia.
Ela revirou os olhos, mas não recusou.
Saímos dali juntos.
No caminho, ficamos trocando ideia, eu provocando de um lado e ela me cortando do outro. Quando chegamos na casa dela, já era horário de almoço.
A mãe dela abriu a porta e, assim que me viu, abriu um sorriso.
— Já que tá aqui, fica pro almoço, Ruan. Tem comida de sobra.
Eu não ia perder essa oportunidade.
— Se a senhora tá mandando, quem sou eu pra recusar?
Entrei na maior i********e, como sempre fui tratado naquela casa.
Sentei à mesa e logo veio aquele prato caprichado.
A comida tava um vapo.
Arroz soltinho, feijão bem temperado, carne feita na panela... aquele cheiro de comida de mãe que bate diferente.
No meio do almoço, a mãe da Bianca puxou assunto sobre meu irmão.
— E o Douglas, como ele tá? Sempre foi calado esse menino, desde pequeno. Mas depois que assumiu o morro, parece que se fechou ainda mais.
Bianca soltou uma risadinha.
— O Douglas é estranho mesmo. Até com a senhora ele não fala direito, mãe.
— Mas ele tem o coração bom — a mãe dela respondeu. — É só o jeito dele.
— Já esse aqui só anda de dente aberto — Bianca disparou, apontando o garfo pra mim.
Caí na risada.
— Claro, pô. Tem que ser feliz.
Ela balançou a cabeça.
— Você não presta.
— Presto sim. Só tô esperando tu descobrir.
— E vai esperar sentado.
— Se for esperando por você, eu espero.
A mãe dela começou a rir.
Bianca revirou os olhos, mas também não segurou o sorriso.
Era sempre assim.
Ela jogava uma provocação, eu devolvia.
E, na moral, era isso que eu mais gostava nela.
Bianca nunca facilitava.
O almoço continuou na resenha. A mãe dela contou umas histórias antigas da época em que eu e Douglas éramos moleques, Bianca me zoou por umas merdas que eu tinha feito na escola e eu fiz questão de devolver na mesma moeda.
Quando terminei de comer, me levantei.
— Valeu pela comida, tia. Tava braba.
— Aparece mais vezes, Ruan.
— Pode deixar.
Bianca levantou logo depois.
— Eu acompanho ele até o portão.
A mãe dela olhou pra nós dois com aquele sorriso de quem já tinha entendido tudo.
— Sei...
— Mãe!
Eu ri e saí.
Assim que chegamos do lado de fora, o sol bateu forte. A rua tava naquele movimento de sempre, criança correndo, moto passando, gente conversando nas portas.
Olhei pra Bianca.
Era minha chance.
— Então, Bia... fala sério pra mim. Quando é que tu vai me dar uma chance?
Ela cruzou os braços e me encarou com aquele sorriso de quem adorava me deixar esperando.
— Vou pensar, Ruan. Só isso que posso te dizer por enquanto.
— Vai pensar?
— Vou.
— Já é alguma coisa.
— Não se anima.
— Tarde demais.
Ela riu.
Eu não aguentei.
Me aproximei rápido e roubei um selinho antes que ela conseguisse desviar.
— Ruan!
Ela me deu um tapa de leve no braço, ficando toda vermelha.
— Você é doido, é?
— Só um pouquinho.
— Eu vou contar pra sua mãe.
— Conta. Ela vai ficar feliz sabendo que finalmente tô tentando sossegar.
— Tentando? Você?
— Por você, eu tento.
Ela ficou me olhando por alguns segundos, sem saber o que responder.
— Pensa com carinho, Bia.
Dei as costas e comecei a caminhar de volta.
— Vou pensar! — ela gritou atrás de mim.
Olhei por cima do ombro.
— Já é um começo!
Continuei andando com um sorriso que não cabia na cara.
Eu podia até estar acostumado a pegar mulher.
Mas Bianca era diferente.
Com ela, eu queria mais.
Queria ganhar aquele coração.
E, na minha cabeça, era só questão de tempo.
O que eu ainda não sabia era que, enquanto eu tava nessa luta pra conquistar Bianca, meu próprio irmão podia estar guardando sentimentos muito maiores do que eu imaginava.
E, quando ele resolvesse entrar na disputa, isso podia mudar tudo entre nós.