CAPÍTULO 1
BIANCA NARRANDO
Eu sempre fui a menina do cabelo loiro, liso, batendo na cintura. Daquelas que chamam atenção por onde passam, principalmente aqui no morro.
Minha pele clara e meus olhos verdes também não ajudavam.
— Olho de gato! — era o que o pessoal vivia falando.
Eu já tinha perdido as contas de quantas vezes ouvi que eu tinha “cara de comercial de xampu” ou que não parecia ser dali.
Mas eu era.
Nasci nesse morro, cresci nessas ruas e, se Deus permitir, é aqui que quero envelhecer.
Aqui é minha casa.
Desde adolescente eu era grudada no celular. Gravava dancinha, dublava música, fazia graça, inventava qualquer coisa só pra arrancar uma risada de quem estava do outro lado da tela.
Minha mãe, no começo, achava aquilo uma perda de tempo.
— Menina, larga esse celular e vem me ajudar!
— Só mais um vídeo, mãe!
— Vídeo não enche barriga, Bianca!
Mal sabia ela que, alguns anos depois, seria justamente aquele celular que mudaria nossas vidas.
Aos dezesseis anos, comecei a ganhar dinheiro com os vídeos.
No começo, era pouco. Tão pouco que eu nem levava a sério. Mas continuei.
Gravava de manhã, de tarde, de noite. Aprendi a editar, a divulgar, a conversar com meus seguidores e, principalmente, aprendi que não precisava ser outra pessoa pra conseguir conquistar espaço na internet.
Eu só precisava continuar sendo eu.
Até que um dia consegui juntar dinheiro suficiente pra olhar pra minha mãe e dizer:
— A senhora não precisa mais trabalhar pros outros.
Ela ficou me olhando sem entender.
— Como assim?
— Eu vou cuidar da senhora agora.
Minha mãe chorou.
Eu chorei também.
Aquele foi um dos dias mais importantes da minha vida.
Depois de tantos anos lavando roupa, limpando casa e ouvindo desaforo de patroa, finalmente eu podia dar a ela um pouco do descanso que ela merecia.
Hoje sou eu que sustento nossa casa.
Não somos ricas. Longe disso.
Mas não falta comida na mesa, as contas estão pagas e minha mãe não precisa mais acordar cedo pra trabalhar na casa de ninguém.
Pra mim, isso já é riqueza.
Ela diz que foi Deus quem colocou tudo no meu caminho.
Minha mãe é dessas mulheres que não perde um culto. Ora antes de dormir, agradece pela comida, pela chuva, pelo sol e até pelas coisas que ainda nem aconteceram.
Eu não sigo religião.
Nunca segui.
Mas acredito em Deus. Do meu jeito.
Tenho minha fé quieta, aquela que não precisa de igreja pra existir.
E, apesar de não entendermos tudo da mesma forma, minha mãe nunca tentou mudar quem eu sou.
Talvez esse seja o maior amor que existe.
Respeitar mesmo quando não entende.
E foi assim que eu virei a Bianca que todo mundo conhecia.
A menina dos vídeos.
A loira dos olhos verdes.
A que fazia graça pelas ruas do morro e colocava metade da comunidade pra rir.
Mas, por trás das câmeras, existia uma Bianca que quase ninguém conhecia.
Uma filha que faria qualquer coisa pela mãe.
Uma mulher que tinha construído sua própria vida com as próprias mãos.
E que, não fazia ideia de que tudo estava prestes a mudar.
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O sol ainda nem tinha esquentado direito quando sentei na laje de casa com o celular na mão.
A luz batia de lado no meu rosto.
Meu ângulo favorito.
Abri a câmera, ajeitei o cabelo e comecei a gravar.
— Bom dia, meu povo!
Sorri pra tela.
— Hoje o clima tá desses de fritar formiga, mas cadê a energia? Bora acordar, porque hoje vai ter resenha!
Terminei o vídeo e comecei a rir sozinha.
Era assim todos os dias.
Eu nem precisava planejar.
Ligava a câmera e deixava a boca correr.
Em poucos minutos, os comentários começaram a aparecer.
“Bia, você é a alegria dessa comunidade.”
“Mulher, só de olhar seus vídeos eu já começo a rir.”
“Casa comigo, Bianca!”
Balancei a cabeça, rindo.
— Vocês não prestam.
Guardei o celular no bolso e desci as escadas.
No caminho, quase bati de frente com dona Célia, que vinha subindo com um balde de água.
— Menina! Qualquer dia você quebra esse pescoço descendo essas escadas desse jeito!
— Relaxa, dona Célia. Eu tenho sete vidas!
— Tem nada! Depois quem vai cuidar de você sou eu?
— A senhora pode deixar que eu dou pouco trabalho!
Saí correndo antes que ela pudesse responder.
A rua principal já estava movimentada.
O carrinho de pipoca do seu Adilson anunciava a chegada com a buzina irritante de sempre. As crianças corriam pela rua. Um funk tocava baixinho em alguma casa e as meninas do salão já estavam na porta conversando.
Cumprimentei um, acenei pra outro e gravei mais alguns segundos pros meus seguidores.
Até que, perto do campinho, vi Ruan.
Encostado no muro.
Braços cruzados.
Sorriso de canto.
Assim que me viu, ele desencostou e veio na minha direção.
— Ih, lá vem ela.
— Lá vem quem?
— A mulher mais bonita desse morro.
Revirei os olhos.
— Começou cedo, Ruan.
Ele soltou uma risada.
— Eu só tô falando a verdade.
— Você fala isso pra todas.
— Não. Só pra você.
Ri, tentando esconder o sorriso.
Ruan sempre foi assim.
Desde moleque, gostava de me provocar. Sempre teve esse jeito solto, brincalhão e convencido de quem sabia exatamente o efeito que causava.
E eu conhecia aquele jogo muito bem.
— Você não sabe o auê que causa quando aparece por aí — ele continuou.
— Eu?
— Você mesma.
— Tá exagerando.
— Tô nada.
Ele parou na minha frente.
— Toda vez que eu te vejo, fico doido.
Senti meu rosto esquentar.
— Você é muito convencido.
— E você gosta.
— Quem disse?
— Seu sorriso.
Dei uma risada e balancei a cabeça.
Eu já conhecia aquele papo.
Eu sabia que ele gostava de mim.
Sempre soube.
Desde a adolescência.
Ruan nunca fez questão de esconder. Era o mais atirado, o que chegava junto, fazia graça e jogava aquele papo mole pra cima de mim sempre que tinha oportunidade.
Mas ele não era o único.
Foi então que meus olhos foram parar um pouco mais atrás.
Douglas.
O irmão dele estava sentado na mureta perto da quadra, com o capuz na cabeça e o celular na mão.
Quieto.
Como sempre.
Douglas nunca foi de falar muito.
Desde criança, ele era assim. Enquanto Ruan fazia barulho, Douglas observava.
E eu também sabia o que ele sentia.
Douglas gostava de mim.
Só que, diferente do irmão, nunca ficou me cercando.
Durante anos, eu simplesmente ignorei.
Eles eram meus amigos de infância. Os dois moleques que cresceram correndo pelas mesmas ruas que eu.
Eu nunca tinha dado trela pra nenhum dos dois.
Ou, pelo menos, era isso que eu dizia pra mim mesma.
Nossos olhos se encontraram.
Douglas desviou primeiro, fingindo mexer no celular.
Sorri de canto.
— Tá olhando o quê? — Ruan perguntou.
Voltei a atenção pra ele.
— Nada.
— Meu irmão?
— Não começa.
Ele riu.
— Tá com vergonha?
— De você? Nunca.
— Ainda bem.
Ruan se aproximou mais um pouco.
— Porque eu tava pensando em te chamar pra sair esse fim de semana.
— Você?
— Eu.
— E pra onde você vai me levar?
— Isso é surpresa.
— Então já sei que não presta.
— Confia em mim.
Ri.
— Vou pensar.
— Pensa rápido.
Ele estendeu a mão.
— Vem. Eu te acompanho até em casa.
— Não precisa.
— Eu faço questão.
Olhei pro relógio no celular.
— Minha mãe deve estar terminando o almoço.
— Melhor ainda. Te entrego na porta.
Revirei os olhos, mas acabei sorrindo.
— Tá bom.
Segurei a mão dele.
Começamos a caminhar.
Ruan falava sem parar sobre o tal passeio do fim de semana, enquanto eu fingia prestar atenção.
Mas, por algum motivo, minha cabeça estava longe.
Eu já sabia que aqueles dois gostavam de mim.
Sabia havia anos.
Só que alguma coisa estava diferente naquele dia.
Talvez fosse o jeito que Ruan tinha falado comigo.
Talvez fosse o frio estranho na barriga quando ele segurou minha mão.
Ou talvez eu simplesmente estivesse começando a perceber que aqueles dois moleques que viviam atrás de mim desde adolescentes tinham crescido.
E, pela primeira vez, eu não tinha tanta certeza de que queria continuar fingindo que não percebia.
Olhei por cima do ombro.
Douglas ainda estava sentado na mureta.
Parado.
Quieto.
Observando a gente se afastar.
Nossos olhos se encontraram mais uma vez.
Ele desviou.
Como sempre.
Eu sorri de canto e voltei a caminhar ao lado de Ruan.
Eu sabia exatamente o que aqueles dois sentiam por mim.
Só não fazia ideia do que vinha por aí.