Melissa narrando. Tranco a porta do ateliê com um cuidado que parece quase sacrílego, como se aquele pequeno clique pudesse selar também o resto da minha vida. O ar dentro é morno, perfumado por tecidos novos e cola de costura; o sol entra tímido pela janela e desenha linhas douradas sobre o vestido pendurado no manequim. Ele é lindo — delicado, bordado à mão, um trabalho que minha mãe sempre sonhou ver em mim. Mas naquele instante o brilho do cetim me lembra algemas: cada dobra parece feita para prender, cada renda, para sussurrar que agora eu pertenço a outro. A costureira sorri com profissionalismo e me pede para virar. Sinto o zíper deslizar, a pele abafada pelo tecido. O vestido encaixa como uma promessa que eu não pedi. Minhas mãos ficam presas no ar, não sabem onde pousar; tento

