Melissa narrando.
Sinto o cheiro forte de desinfetante misturado com o ferro da roupa que Henrique usa como apoio. Ele está deitado na cama de seu quarto, ganhou pontos no corpo, está enfaixada e muito anestesiado, a camisa manchada de sangue seco foi jogada fora, seu peito nú me faz lembrar do atentado, do medo que senti por meu irmão, mas o seu olhar ainda é firme, carregado de silêncio. Ele não fala nada sobre a briga, sobre o que aconteceu, apenas segura minha mão com força.
Meu irmão sempre foi meu protetor, uma das melhores pessoas do mundo, sempre fui sua bonequinha, ele me protegeu sempre, e agora o minímo que posso fazer é estar ao seu lado.
— Quer água? Ou descansar? Me fala como posso te ajudar meu irmão.
Ele sorri fraco e sussurra:
— Fica aqui comigo, Mel, só isso.
O aperto é tão sincero que não há como negar. Sento-me ao seu lado, ajeitando o travesseiro atrás de sua cabeça, sentindo a pele morna da minha mão contra a dele. A dor que ele tenta esconder pulsa sob a bandagem, e eu sei que se contar aos pais, a discussão explodirá ainda mais.
Já tem um tempinho desde que o médico saiu, minha mãe chorou e saiu de casa para espairecer, disse que iria resolver isso, levou Daniel, nosso irmão mais novo, 15 anos e seu companheiro em tudo, mas ele apenas serviu de desculpa para nosso pai não a impedir de sair após tamanha confusão.
Mas também... o senhor Antonio deve estar muito ocupado tentando planejar vinganças, algo tão i****a. A briga é enorme, mas basicamente nossa família possui inimigos nessa cidade, somos um dos maiores produtores do agro no Estado, e os Valente também, o que quase ninguém sabe, é que quando se tem certo nível de poder, as regras não mais existem, todos se sentem reis, competindo ao máximo por tudo.
Já houve incendios de plantações, sabotagem em vendas com preços menores, roubo de clientes, e olha que nosso único mercado em comum é o café, imagina se fossem todas as produções e empresas, minha família também não é santa, sempre devolvemos, fazem pior... eu me isento em saber qualquer coisa, e eles mesmo me protegem, a mim e a Isabela, minha irmã, a primogenita da família.
Em total somos cinco, Isabela, Henrique, eu, Gabriel e Daniel. E eu me pergunto onde ela está no meio disso tudo.
Respiro fundo olhando meu irmão todo remendado e podrinho, é de apertar o coração, já houve agressão entre os lados, mas assim... assim nunca chegou perto. Então, permaneço em silêncio, concentrando-me apenas em Henrique.
— Posso costurar algo para você de presente? Te distrair desse repouso? — pergunto baixinho, tentando quebrar a tensão.
Ele me lança um olhar cansado, mas um pequeno sorriso escapa, quase imperceptível, como se agradecesse pela distração.
— Só você faria isso por mim, minha modista. Você sabe que eu sempre tenho aqui para você.
E eu sei mesmo
Sorrio, corando levemente, e retiro o tecido de uma das gavetas da comoda que comprei para ele.
Eu estudei moda, meu pai nunca deixou eu trabalhar, apenas se fosse em coisas das emprezas da família, então minha máima contribuição é nos uniformes, estudar necessidades, estética da empresa, praticidade, conforto.
E a maior parte do tempo eu faço meu guarda-roupa, roupa para à família, Isabela e minha mãe não gostam, mas os homens dessa casa me deixam brincar de boneca com eles, fazendo camisas, ternos... o que eu quiser.
Henrique é um dos que mais usa de verdade, aprendi a transformar cada pedaço de tecido em algo confortável e bonito, feito sob medida para ele.
Pego as coisinhas e começo a fazer uma mini roupinha, de retalho apenas por distração, enquanto passo a agulha com calma, Henrique observa cada movimento, concentrado. Ele gosta de me ver desenhando os detalhes, de acompanhar a forma como escolho a linha e ajusto os botões.
— Então, hoje vai ser uma camisa nova, mesmo? — pergunta ele, baixinho, quase sem força.
— Sim — digo, sorrindo. — Quero que você tenha algo que combine com você, não só com o que os outros esperam.
Ele segura minha mão novamente, e por alguns segundos, apenas permanecemos assim, conectados em silêncio, cada um respirando o medo e a tensão que pairam no ar. Gabriel, mais novo, aparece na porta, espiando com olhos curiosos e assustados ao mesmo tempo.
— Mel… — diz ele, quase sussurrando. — Mamãe chegou… ela está discutindo com o pai.
Meu coração dispara. A tensão da casa nunca foi tão densa quanto agora, beijo o rosto de Henrique que não questiona enquanto me retiro. Deixo a agulha de lado e deslizo para fora da cama, descendo silenciosamente os degraus que rangem a cada passo, tentando ouvir sem ser percebida. Paramos no meio da escada, escondidos.
O corredor está imerso em sombras, e cada respiração parece amplificada. Quando chego perto da porta da sala de estar, os gritos se tornam claros. A voz da minha mãe ecoa pelo corredor, firme e autoritária:
— Está decidido, Antônio! — ela grita. — Isabela, nossa primogênita, vai casar com Dante! Assim a paz entre as famílias será selada. Eu já arrumei isso com a mãe dele hoje, dei nossa palavra!
O impacto das palavras me deixa gelada. Meu pai, do outro lado, rebate, a voz carregada de fúria e orgulho:
— Como pode, Helena? Isso significa perder minha honra! Minha palavra como pai e homem está sendo ignorada! Temos que revidar, não perder parte de nossa família.
Sinto o estômago apertar. Isabela, minha irmã mais velha, aparece no corredor, os olhos arregalados, congelada diante da realidade que escuta de longe. Gabriel aperta minha mão com força, assustado, sem entender direito toda a magnitude do que foi decidido.
Fico ali, encostada na parede, tentando absorver cada detalhe. Minha mãe continua, implacável:
— A paz precisa vir antes do sangue, Antônio. Não há outro jeito. Você entende que estamos em risco, que a honra de ninguém vale mais do que a vida de nossos filhos?
O som de pratos batendo contra a mesa acompanha suas palavras, a violência da discussão se mistura com o perfume das flores na sala, com o brilho frio do sol entrando pelas janelas. Cada detalhe me dá a sensação de que estou vivendo uma peça teatral na qual não escolhi meu papel, mas sou obrigada a encenar.
Enquanto ouço, memórias do passado me invadem. Lembro-me de quando ainda éramos crianças e a rivalidade entre Valente e Monteiro era apenas uma ameaça distante, uma história contada por adultos. Agora, tudo parece esmagadoramente real. Cada decisão tem peso de vida ou morte, e nós, filhos, somos as peças de um tabuleiro que jamais escolhemos jogar.
Isabela se retira, os passos ecoando pelo corredor como se marcassem a distância entre nossas posições familiares. Gabriel solta minha mão e corre para o quarto, provavelmente para se esconder. Respiro fundo, tentando organizar pensamentos que se embaralham cada vez mais.
Sinto uma mistura de raiva, medo e uma estranha tristeza que aperta o peito.
Volto para Henrique, que continua deitado, respirando lentamente, mas com a testa franzida de preocupação. Ele sente, como eu, a tensão que permeia cada canto da casa. Sento-me ao seu lado novamente e acaricio seu cabelo, tentando transmitir alguma sensação de normalidade.
— Eles decidiram… — sussurro, sem olhar para ele. — Isabela vai casar com Dante.
Henrique fecha os olhos, deixando a informação penetrar lentamente, como se já estivesse preparado para isso, mas ainda assim, sente o peso da notícia.
— Então… — sua voz é baixa, hesitante. — Tudo continua como sempre. Sem espaço para nós… sem escolhas… Aquele desgraçado, ele não presta irmã, sinto tanto por Isa.
Assinto, sentindo lágrimas queimarem meus olhos. Tento me concentrar na agulha e na linha, nos detalhes da camisa que estou costurando para ele, como se esse ato pudesse proteger nosso mundo interno de toda a destruição externa. Cada ponto que faço é uma promessa silenciosa: estarei ao lado dele, custe o que custar.
Henrique se vira levemente, olhando para mim com um sorriso cansado, mas verdadeiro.
— Mel, obrigada. Por ficar comigo aqui. —
— Sempre, Henrique. Sempre. — respondo, segurando sua mão com força.
A sensação de responsabilidade pesa sobre mim. Não sou apenas a irmã que cuida, sou a confidente, a protetora e, de certa forma, a guardiã da nossa família em meio à tempestade que se forma. A guerra entre as famílias não é apenas política; é pessoal, e cada decisão deles nos toca de maneira profunda e inevitável.
O som da discussão ainda ecoa pelos corredores, mas eu tento me concentrar no presente.