Melissa narrando.
Eu sempre achei que as casas grandes carregavam mais silêncios do que vozes. Apesar do barulho das galinhas, do gado berrando ao longe e do ronco pesado das máquinas na lavoura, dentro de casa havia sempre aquele vazio estranho, como se cada parede guardasse segredos que ninguém ousava contar. E naquela noite, o silêncio foi quebrado de uma forma que nunca esqueci.
O portão da frente bateu com violência, como se alguém tivesse sido lançado contra ele. O som metálico reverberou pela noite e me atravessou feito um trovão. Os cães latiram em desespero, correram de um lado para o outro, rosnando, arranhando a grade. Havia pressa nos latidos, havia medo também. Em seguida, o barulho de passos apressados cortou o pátio — não foi um só, foram vários. A terra seca gemeu sob as botas pesadas. Escutei vozes nervosas, atropeladas, uma mistura de ordens e súplicas que não consegui entender de imediato.
Congelei. Era como se o ar da sala tivesse sumido de repente. O pano que eu segurava escorregou da minha mão, e minhas pernas se recusaram a obedecer. Tudo em mim gritava para correr, mas eu permaneci paralisada, os olhos fixos na porta de entrada. Antes mesmo que eu conseguisse reagir, a voz de Gabriel, meu irmão mais novo, atravessou o ar como uma lâmina:
— Pai! Pai, corre aqui!
O grito dele não foi apenas de susto; foi de pavor. Era o tipo de chamado que nunca havia ecoado dentro daquela casa, um chamado que quebrou qualquer silêncio, qualquer ilusão de segurança.
Quando finalmente consegui dar um passo, vi Gabriel. Ele atravessou a soleira da porta quase tropeçando, com os olhos arregalados e o peito arfando. A primeira coisa que me prendeu foi a mancha escura em sua camiseta. Sangue. A cor era tão intensa que parecia brilhar sob a luz fraca da sala. Mas não era dele — percebi rápido, porque seus movimentos eram firmes, o corpo não vacilava.
Ainda assim, a marca estava lá, espalhada pelo tecido branco, denunciando algo que não deveria ter acontecido.
O olhar de Gabriel me atingiu antes mesmo que ele dissesse qualquer palavra. Ele tinha apenas dezoito anos, mas os olhos, sempre tão cheios de vida e travessura, agora refletiam um medo que eu não conhecia. Era como se tivesse envelhecido em segundos, como se tivesse visto algo que ninguém da nossa idade deveria ver. O peito dele subia e descia rápido, como se ainda corresse dentro da própria mente.
Meu coração disparou. Gabriel não era de confusão. Nunca fora. Era brincalhão, curioso, mas inteligente demais para se perder em brigas de bar ou em provocações baratas. Ele sempre soube quando recuar, quando calar, quando rir de si mesmo para evitar que a situação escalasse. Então, se ele chegava assim, coberto de sangue que não era dele, era porque algo grave tinha acontecido. Algo
que fugia ao controle, algo que já não tinha volta.
— O que você aprontou, Gabriel? — pensei, mas a pergunta não saiu. Minha garganta secou, o nó me impediu de falar.
Ele me encarou como se lesse meus pensamentos. Por um instante, não reconheci o menino que sempre improvisava piadas para
aliviar o peso dos dias. O que vi à minha frente foi um reflexo quebrado, um irmão que trazia nos olhos a certeza de que a noite só estava começando — e de que o sangue em sua roupa era apenas um aviso.
Meu corpo se enrijeceu. Em segundos, meu pai surgiu na porta, o rosto grave. Aproximei-me também, sem entender direito, e então vi: Henrique, meu irmão, estava sendo carregado nos braços do meu pai e de Gabriel. O corpo dele pendia, a camisa branca marcada por uma mancha vermelha que crescia rápido demais.
— Santo Deus! — minha mãe soltou o telefone que segurava, o aparelho caiu no chão. Ela correu até eles, desesperada. — Onde foi? Onde foi?! Foram eles não é?? Aqueles desgraçados, essa disputa tem que acabar logo!
Meu pai não respondeu. Colocou Henrique sobre a mesa de jantar, derrubando pratos, toalhas e vasos. O barulho da louça quebrando no chão pareceu anunciar o caos. Henrique gemeu baixo, os olhos semicerrados, a respiração curta, apesar dos 26 nos agora ele era um garoto, o rosto frágil, parecendo relaxar agora em casa, sabendo que seria cuidado.
Senti minhas pernas falharem.
— Mel, pega panos! Rápido! — minha mãe gritou, a voz embargada. — Daniel, segura a cabeça dele!
Obedeci sem pensar. Abri a gaveta com mãos trêmulas, puxei toalhas e lençóis, corri de volta. Meus dedos m*l obedeciam, mas eu segurei o pano contra o ferimento. O sangue quente escorreu pelas minhas mãos, e uma náusea subiu pelo meu estômago.
— Foi uma facada… — meu pai murmurou, tenso. — Uma briga na rua, não é filho?
Uma facada. A palavra se repetiu na minha mente como um sino. Henrique sempre fora explosivo, mas forte, acostumado a enfrentar qualquer um. Vê-lo ali, vulnerável, à beira do desmaio, foi como assistir a uma montanha desmoronar.
— Segura firme, meu filho, segura! — minha mãe chorava, ajoelhada ao lado dele. Ela segurava sua mão com tanta força que chegava a tremer. — O médico está vindo, eu implorei que viesse rápido… — repetia, como se isso pudesse manter Henrique vivo.
O pano nas minhas mãos se encharcou em segundos. O cheiro de ferro me invadiu, grudou na garganta. Senti que ia sufocar.
— Foi Dante Valente… — Gabriel murmurou de repente, com ódio na voz. — Foi ele. Depois eu explico pai, O Henrique provocou, mas não achamos que ele faria algo.
O nome caiu na sala como um raio. Dante Valente.
Meu coração disparou. Eu conhecia esse nome desde que me entendia por gente. O primogênito da família Valente. O herdeiro natural, o mais temido, o que carregava a aura de poder e brutalidade como se fosse um manto. Ele era a sombra que pairava sobre toda a região, o homem que fazia aliados curvarem a cabeça e inimigos se calarem.
Diziam que Dante era sedutor, que nenhuma mulher lhe resistia. Diziam também que era c***l, que o respeito que exigia vinha sempre acompanhado de medo. Eu nunca estivera perto dele — e agradecia por isso —, mas já o tinha visto de longe, em feiras agrícolas, nas raras vezes em que as duas famílias dividiam o mesmo espaço. Alto, de ombros largos, bronzeado de sol, olhos escuros que pareciam ver tudo. Sua presença era tão forte que até o ar parecia mudar quando ele aparecia.
E agora, era ele quem feria meu irmão.
— Cala a boca, Gabriel! — meu pai rosnou, mas não negou. O silêncio pesado dele foi a confirmação que ninguém queria ouvir.
Senti meu corpo tremer. O medo me tomou inteira. Dante Valente. O nome era um peso que me esmagava. O rosto dele, mesmo na
lembrança vaga que eu guardava, me dava a sensação de que eu era menor, frágil, impotente.
— Ele vai matar a gente… — murmurei, sem perceber que falava em voz alta. Meus olhos se encheram de lágrimas. Fiz o sinal da cruz com a mão ensanguentada, um pedido de proteção e de perdão. — Deus me protege…
Minha mãe me olhou, os olhos vermelhos. — Não fala isso, Mel, não fala… fica quieta menina, nem pensa nisso.
Mas ela também sentia. Eu via no rosto dela. A dor não era só pelo filho ferido, era também pelo medo do que ainda podia vir.
O médico chegou apressado, trazendo uma mala. m*l cumprimentou, já abriu o casaco e começou a trabalhar sobre Henrique. Pediu agulha, pediu água quente, pediu mais panos. O ambiente se transformou numa mistura de orações, ordens e soluços.
Eu ajudei, mas minha mente estava longe. Estava nele. Em Dante. O inimigo que parecia invencível. O homem que todos temiam, que todos respeitavam. O nome que corria de boca em boca como uma maldição.
— Foi Dante… — Gabriel repetiu baixinho, como um mantra de ódio.
E cada vez que o nome era dito, eu sentia minha fé vacilar. Respirei fundo, fechei os olhos, pressionei os panos ensanguentados contra a ferida de Henrique. Rezei em silêncio. Pedi a Deus que nos livrasse dele, que me livrasse dele. Que nunca, jamais, eu precisasse estar frente a frente com Dante Valente.
Mas, no fundo, uma certeza amarga se instalou: o destino não costumava ouvir pedidos como o meu.