*Ponto de vista de Analu*
O sábado chegou muito rápido, eu ia cedo para a escola para o ensaio geral do show de talentos, depois todas as crianças iriam para casa se arrumar e eu ainda acertaria os detalhes de cenários e da surpresa do final do show, então seria a última a sair dali, com pouquíssimo tempo para sair, atravessar a cidade até minha casa, me arrumar e voltar. Felizmente, Jully ofereceu sua casa que era ali perto para eu me arrumar, então era um problema a menos.
Como de costume, fui tomar café na cafeteira do outro lado da rua antes de entrar na escola e ficar imersa num caos de crianças ansiosas pela apresentação e mil coisas para organizar. Mas já não era tão legal como antes desde que o meu barista preferido demonstrou interesse pela minha colega. Essa semana eu só entrava, pegava o meu café e saia. Fato que o bonitão notou (ah, isso você percebeu, né gênio?) e dessa vez ele estava com pouca gente para atender e me chamou antes que eu saísse.
- Oi, o que esta acontecendo?- Ele perguntou gentil e preocupado com aqueles olhos intensos e sotaque latino que me deixava de pernas bambas.
- Nada, estou com pressa... mas ja que estamos falando, como foi com a Jully?- Perguntei tentando soar como se tudo bem pra mim o homem por quem eu estava me derretendo há meses me pedir o número da minha colega que tinha acabado de ver pela primeira vez.
- Ah, não foi... acredita que ela falou na minha cara que esta interessada em outra pessoa? Você consegue imaginar uma coisa dessas?
- Na verdade consigo sim, melhor do que você pensa.- Falei sarcástica, mas acho que ele não entendia sarcasmo, algumas pessoas são assim mesmo.
- Pois é, mas tudo bem, vida que segue... você não tem mesmo um minuto? Tem donuts recém saídos do forno.- Ele falou com um jeito tão lindo e ainda mais... fazendo um biquinho...que não consegui resistir... também... tinha que ter lábios tão lindos e carnudos? Esse homem era mesmo uma perdição.
- Tudo bem então.- Falei e o segui de volta até o balcão onde ele me serviu o donut quentinho coberto com aquele açúcar fininho que combinava perfeitamente com meu capuccinno.
- Estou curioso... o que tem hoje na escola? Normalmente aos sábados é tudo bem mais tranquilo por aqui. - Ele falou curioso.
- Vai ter uma noite de talentos hoje, cada aluno que quis participar se inscreveu há meses atrás e se preparou para apresentar hoje para os pais e os demais colegas.
- E que tipo de coisas vão apresentar? Que oportunidade interessante!
- É mesmo bem interessante- Falei mordendo o donut e notei os olhos dele em direção aos meus lábios, será que finalmente ele estava me notando? Senti até um calor.- Tem crianças que vão cantar, tocar ou dançar, tem também um que vai pintar um quadro enquanto os colegas cantam, tem duas bandas de alunos, tem uma leitura de poesia e umas esquetes que são pequenas apresentações teatrais, normalmente de humor, por falar em humor, também vai ter um momento de humor, um aluno vai fazer stand-up comedy.
- O que seria esse último?- Acho que meu barista nunca tinha ouvido esse termo, embora ja deva ter visto alguém fazer uma apresentação dessas, nem que seja pela TV.
- Bem, é uma forma de comédia na qual um comediante se apresenta diante de uma platéia, contando piadas, histórias engraçadas e anedotas de forma direta e improvisada, ele faz observações do cotidiano, críticas sociais, e muitas vezes, esse tipo de comédia tem o toque pessoal do comediante em relação a suas próprias experiências e pontos de vista.
- Você deve ser ótima professora- Ele disse rindo.
- Não entendi, por que?
- Você explica muito bem as coisas.- Ele respondeu ainda com aquele sorrido lindo.
- Se você quiser, tenho um convite extra aqui, pode ir ao show e ver, mas saiba, alguns não são tão talentosos assim.- Confessei em tom de segredo.
- Vou gostar muito de ir.- Ele falou e piscou para mim antes de ir atender um cliente que havia chegado.
Já na escola fui começar a arrumar as coisas no teatro e encontrei Jully, ela logo me perguntou sobre a conversa que tive com aquele homem sobre o visto.
- Eu agradeço a ajuda Jully, mas não deu certo, o homem parecia mais interessado em conseguir um pagamento nada convencional pelos serviços.
- Oh my God, ele foi rude com você?- Ela perguntou preocupada.
- Eu o cortei antes que pudesse se insinuar mais, mas sim, ele agiu muito m*l, agora não sei se terei chance porque eu não me venderia dessa forma por um visto, nem por nada, é absurdo as pessoas acharem que estamos à venda, não é mesmo?
- Sim, me desculpe por indicar, ele ajudou um primo meu, pensei que poderia te ajudar, eu não queria perder minha única amiga aqui, a única outra brasileira que conseguiu trabalhar nessa escola. Só nós sabemos o quanto foi difícil, o quanto merecemos estar aqui, os demais não entendem isso.- Ela falou sincera.
- É verdade. Mas vai dar tudo certo, vamos ter fé.- Eu disse e depois ja saí carregando caixas para liberar o palco para os ensaios.
Deu tudo certo nos ensaios, também consegui me arrumar como eu queria, ainda mais sabendo que o barista viria. Até perguntei para Jully se ela tinha certeza que não estava interessada, mas ela confessou estar apaixonada por ninguém menos do que o administrador da escola, o que era um baeta problema na verdade.
No show correu tudo bem, a hora mais esperada finalmente chegou (não que eu estivesse esperando para ver o conquistador barato do Scott, mas ia ser um momento especial para a Hope). Começou a tocar a música "Shut up anda dance" e as meninas, usando saias no estilo de uniforme colegial dançavam... até decorei a coreografia também...
(recomendo dar o play na música "Shut up and dance" do WALK THE MOON para melhor visualização da cena... cada linha abaixo representa a parte da coreografia em uma frase da música)
Introdução- elas estão de costas e se viram lentamente
Frase 1- Um, dois para a direita
Frase 2- Um, dois para a esquerda
Frase 3- Um, dois para trás
Frase 4- Indicador nos lábios como quem pede silêncio
Frase 5- Aponta para a frente, levanta o braço direito,
Frase 6 - abaixa o braço e gira com o indicador nos lábios
Elas seguiram com a coreografia até mais ou menos metade da música e todos já estavam animados aplaudindo ao som daquela antiga música de discoteca até que as cortinas se ergueram e o público foi ao delírio gritando ao ver Scott no palco, ele fez um solo no teclado enquanto eu entrei e rapidamente coloquei o microfone na Hope, fixando a caixinha em seu cinto, passando o fio e prendendo em sua cabeça a outra parte (era como aqueles microfones usados por guias turísticos, mas muito, muito mais moderno e com certeza bem mais caro). Scott veio na direção de Hope, e eu ja estava de saída mas ela não me deixou sair do palco, as demais meninas me puxaram para dançar com elas e... porque não? Ia ser divertido.
Hope tinha uma voz linda, e Scott (ignore meu suspiro) ah, Scott era mesmo um grande artista, não é a toa que as mulheres vivem aos seus pés, ele tem charme e tem pegada... opa, quero dizer... bem... o que aconteceu no final da música me fez pensar que ele tem pegada, quando estava terminando a música, Hope deu um jeito de me deixar perto de Scott que me puxou para si e me deitou em um dos braços em um final perfeito para a coreografia, a plateia foi ao delírio enquanto as cortinas fechavam e as meninas comemoravam felizes em torno de Hope. Acontece que eu e Scott simplesmente congelamos naquele momento, nossos olhos se encontraram e eu podia jurar que senti como um choque, demorou um pouco para acordarmos daquele transe estranho e então ele me levantou e disse baixinho.
-Obrigado Analu.
- Por nada Scott. - Eu respondi ainda sem conseguir desviar meus olhos dos dele, mas se ele pensa que vou cair na magia dos Lapish, ele esta enganado, não vou cair nessa, eu sei exatamente o que acontece quando nos deixamos levar por eles... não vou deixar isso acontecer comigo.
Saí e fui procurar o barista, ele ja estava de saída.
- Ué, vai sem falar comigo?
- Parece que mais uma vez nosso timing não esta funcionando, agora é você que tem outra pessoa.- Ele falou apontando com a cabeça para Scott.
- Não, aquilo foi só uma coreografia, eu nem sabia que ele ia fazer isso.
- Se você quer se enganar, Analu, tudo bem, mas eu vi as faíscas enquanto vocês se olhavam, não vou competir com ele.
O barista saiu e eu fiquei tentando entender tudo aquilo, mas logo vários pais me cercaram para me parabenizar, o que foi bom para eu me distrair. Depois eu soube que Scott foi embora rápido para não causar tumulto, foi com a Hope de helicóptero, assim evitava problemas na saída.