Capítulo 44 RUSSO NARRANDO Eu não lembro de ter respirado. Juro. O ar ficou preso em algum lugar entre o peito e a garganta, como se meu corpo tivesse esquecido como funciona depois que eu vi ela. Fernanda. Viva. E aqui, bem na minha frente, dando selinho em outro homem, chamando ele de amor, como se eu fosse só um delírio antigo. Uma história enterrada. Meu sangue ferveu tão rápido que eu senti o gosto metálico na boca. O barulho do baile voltou aos poucos, mas parecia longe, como se eu estivesse dentro de uma bolha de ódio. A batida do funk vibrando no chão, os gritos animados, as risadas, os flashes, tudo normal pra todo mundo. Menos pra mim. Pra mim, o mundo tinha acabado de virar uma sentença. Eu vi a mão do Zangão na cintura dela. Um gesto casual. Possessivo. De quem se

