Capítulo 4
GT NARRANDO
Depois de escutar tudo que o Russo queria, desliguei o rádio e voltei pra salinha.
Dei de cara com filho da putä que tava todo arrebentado, cuspindo sangue, cara inchada, olho quase fechando. Apanhou tanto que mäl conseguia ficar sentado. Não gosta de bater? Agora tava provando do próprio veneno.
E, sinceramente?
Eu não senti pena nenhuma.
Nem eu nem o Russo somos príncipes encantados. A gente não se ilude com isso. Aqui no morro, a regra é simples: o errado não passa por certo nem fodendö. Claro que a gente faz merdä. Claro que tem coisa que pesa na consciência. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Violência contra mulher, ainda mais contra vulnerável, não tem conversa . Não tem acordo . Não tem desculpa .
— EU JÁ DISSE QUE NÃO FIZ NADA! — ele gritou de novo, a voz falhando, desesperada .
— Cala a boca, porrä! — falei, já perdendo a paciência. — Não tô te perguntando caralhö nenhum!
Acertei ele em cheio . O murro saiu seco . Direto. O sangue escorreu do nariz dele e pingou no chão imundo da salinha .
— Você vai me matar? — ele perguntou, a voz tremendo agora .
Abaixei na frente dele, cheguei perto o suficiente pra ele sentir .
— Querer, eu quero. Mas não vou. — falei devagar. — Tu vai meter o pé do morro e aqui tu não entra mais nunca . Mas antes vai passar uns dias com nós aqui . Sentindo na pele o gosto do próprio veneno .
Levantei e completei, com um sorriso torto:
— Doce veneno.
Fiz sinal pros vapores continuarem o serviço . O som dos socos voltou a preencher a sala enquanto eu saía . Isso aqui não era justiça divina, não . Era consequência . Simples assim .
Eu tinha mais coisa pra resolver e já tinha perdido tempo demais com esse vacilão.
Desci as escadas já puxando a chave do bolso. Montei na moto e dei partida. O motor roncou alto, abafando qualquer pensamento que tentasse vir. O morro tava em movimento, como sempre. Criança correndo, gente gritando, som alto saindo de alguma casa. Vida acontecendo em cima do caos.
No caminho, quase passei por cima da Samara.
Freei em cima, a moto parando a centímetros dela. Ela me olhou com raiva, mãos na cintura.
— Passa por cima logo, GT, tá louco?
Olhei. Não tinha como não olhar. Samara tava mais gostosa do que nunca. Short curto, top colado, cabelo solto. Putä que pariu. Meu pai do céu.
— Tô precisando de uma parada — falei, desligando a moto. — Tá com tempo?
Ela cruzou os braços.
— Pra você, não.
— Mesmo assim vou falar.
Ela fez menção de sair, mas segurei no braço dela, firme, sem machucar.
— Preciso que você compre umas paradas pra mim — continuei. — Roupa de mulher, produto de higiene, absorvente, essas coisas. Tudo que vocês precisam, tá ligada. Vou te dar uma meta, você compra tudo e manda entregar na casa do Russo.
Ela me olhou como se eu tivesse xingado a mãe dela.
— Eu virei o quê agora? Empregada? Mandada? Vai se föder, GT.
— Aê, Samara — falei sério, soltando o braço dela devagar. — Fala direito comigo, falou? Já dei meu papo. Faz o que tô mandando e não enche.
O clima pesou. A gente se conhecia demais. Já fomos namorados. Já erramos juntos. Já recaímos mais vezes do que eu gosto de lembrar. Mas nós dois sabemos: eu e Samara nunca ia dar certo. Nunca deu. Nunca vai.
Ela respirou fundo, passou a mão no cabelo.
— Cadê o dinheiro? — perguntou. — Me dá logo que eu vou comprar essas porräs aí.
— Vou mandar um vapor te levar — respondi. — Pode ir agilizando.
Ela não falou mais nada. Virou as costas e saiu sem olhar pra trás. Montei na moto de novo e saí a milhão.
Tinha coisa demais pra resolver.
Fim de semana tinha baile. Segurança, bebida, som, entrada, tudo tinha que tá nos conformes. Qualquer vacilo vira problema grande. Fui rodando o morro, resolvendo um corre aqui, outro ali, falando com vapor, ajustando esquema.
Mas minha cabeça tava em outro lugar.
Na casa do Russo.
Isso não saía da minha mente.
O Russo nunca trouxe problema pra dentro de casa. Nunca. A casa dele sempre foi território sagrado. Onde ele baixa a guarda, onde ninguém manda nada além dele. E agora tinha uma menina lá dentro. Uma menina quebrada. Silenciosa. Assustada.
Isso não combinava com ele.
( ... )
Em algum momento da tarde, parei num ponto mais alto do morro e fiquei olhando a vista. O mar lá embaixo parecia calmo demais pra realidade que a gente vivia aqui em cima. Tirei a chave do contato e passei a mão no rosto.
Eu conheço o Russo desde moleque. Conheço o jeito dele andar quando tá incomodado. Conheço o silêncio dele quando alguma coisa sai do controle. E o que eu vi hoje não me agradou nem um pouco.
Ele tava inquieto.
Defensivo.
E pela voz, o jeito acelerado de falar tava usando drogä de novo.
Isso nunca era bom sinal.
Quando o Russo entra nesse modo, ninguém segura. Ele vira uma muralha por fora e um caos por dentro. E qualquer coisa que encoste nesse caos se perde junto.
( ... )
No fim do dia, passei de novo perto da casa dele. Não entrei. Não era hora. Mas fiquei observando de longe. Vi luz acesa no andar de cima. O quarto onde a menina tava.
Suspirei pesado.
— Isso vai dar merdä. — murmurei pra mim mesmo.
Não porque ela fosse problema. Ela não era. O problema era o Russo. O jeito dele viver. O jeito dele se perder sem admitir.
E eu tava no meio disso tudo.
Leal ao meu chefe. Leal ao meu amigo.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, com um peso estranho na consciência .