Capítulo 5
RUSSO NARRANDO
Já tinha passado tempo demais. E a noite tinha chegado.
A mina não tinha saído do quarto, não tinha comido, não tinha feito porrä nenhuma e eu já tinha cheirado mais do que devia. Isso me irritava ainda mais. Quando eu exagero, a cabeça acelera, o pensamento vira uma bagunça, e tudo que já tava fora do lugar começa a gritar dentro de mim.
O rádio chiou no braço do sofá.
— Chefe — o vapor avisou — as coisas chegaram. O GT mandou trazer tudo certinho.
Levantei na hora. Não por vontade, mas porque ficar parado tava me deixando pior. Fui até a porta, peguei as sacolas, caixas, o pacote de coisas básicas que o GT tinha providenciado. Olhei pra isso tudo como se não fosse comigo. Como se eu não tivesse pedido nada disso.
Subi as escadas e parei em frente à porta do quarto dela. Não entrei. Nem pensei em entrar. Bati de leve com as pontas dos dedos e falei sem levantar a voz:
— É o seguinte: tem umas paradas aqui pra você. Vou deixar na porta e tu pega.
Silêncio.
Nem um movimento. Nem um som.
Isso começou a me deixar putö. Não por ela. Pelo conjunto todo. Pelo dia. Pela situação. Pela porrä da decisão que eu tinha tomado sem pensar.
Deixei tudo no chão, encostado na parede, e saí. Desci as escadas rangendo os dentes, fui pra cozinha e coloquei a marmita no balcão. Eu sabia que não ia comer. Depois de cheirar, meu estômago fecha. Mas ela devia estar com fome.
Acendi um baseadö e encostei no balcão, puxando a fumaça devagar, tentando acalmar o corpo. O efeito veio leve, misturado com o resto do pó. Não resolveu porrä nenhuma.
Os minutos foram passando. O relógio da cozinha parecia debochar de mim. Pensei em deixar quieto. Pensei em não insistir. Mas aí me veio um pensamento atravessado: depois vão dizer que eu também maltratei a menina. Que deixei passar fome. Que fiz vista grossa.
Apesar de eu querer que se fodä o que pensam, eu não ia deixar essa merdä acontecer.
— Nem sei por que tô sendo babá dessa mina — murmurei pra mim mesmo. — Não vejo a hora dela ir embora logo.
Subi as escadas com passos firmes e bati na porta.
— Ô — falei. — Vem comer.
Silêncio.
Bati de novo, mais forte.
— Ei!
Nada.
A paciência começou a ir embora. Um pensamento idiotä atravessou minha cabeça por um segundo e se essa porrä fugiu?
Balancei a cabeça na hora.
— Não viaja, caralhö… — falei baixo.
Não tinha como ela sair daqui sem eu saber. Se eu não visse meus soldados avisariam na hora. A casa era monitorada. Isso era paranoia minha, coisa de cabeça acelerada.
Até que escutei um barulho estranho, será que essa porrä caiu ou se jogou da janela, girei a maçaneta e empurrei a porta devagar.
O quarto tava vazio.
Meu estômago deu um nó.
Passei o olho rápido pelo espaço. A cama desarrumada, as sacolas no chão, algumas ainda fechadas, o quarto grande demais pra ausência dela. Dei alguns passos pra dentro e fui seguindo o instinto, o único lugar possível.
O banheiro.
A porta tava entreaberta.
Quando me aproximei, imediatamente meus olhos viram o que não era pra ver, vi que ela tinha acabado de sair do banho, cabelo molhado, cheiro de sabonete, ela tava se olhando no espelho, peitö com o bico duro, bucetä raspadinha, lisinha... Não vou mentir dizendo que não vi. Vi. Mas não era pra ver. Não era pra estar aqui. Não era pra acontecer isso.
Meu corpo travou por um segundo, imaginei umas paradas que não era pra imaginar, meu päu ficou duro e latejou.
— Caralhö… que porrä eu tô fazendo! — murmurei, virando o rosto na mesma hora.
Saí do quarto rápido demais, o coração batendo errado, a cabeça fervendo. Desci as escadas quase tropeçando e fui direto pra sala, tentando apagar da mente a imagem que eu não devia ter visto. Não tinha nada de sensual ali. Tinha vulnerabilidade. Exposição. Fragilidade.
E isso era ainda pior.
Peguei o prato de novo, estiquei outra carreira e puxei com força .
— Tá louco… — falei pra mim mesmo. — Que porrä é essa?
A drogä bateu, mas não limpou. Não apagou. Não resolveu .
— Tô louco de ter pensamento torto com uma mina desse jeito — rosnei. — Aí eu viro mais doente que o pai dela .
Esperei alguns minutos, respirando fundo, tentando organizar o caos dentro da cabeça. Peguei a marmita, subi as escadas de novo e bati na porta, mantendo distância agora. Distância de tudo .
— É o seguinte caralhö! — Falei mais alto. — Tu não comeu o dia todo, tem comida aqui na porta, tu pega e ver se aprende a responder quando eu falar com você! Sou nenhum otáriö não! Tá louco porrä, tô sendo maneiro e tu fica nessa loucura aí .
Minha voz saiu dura, sem paciência. Mas a verdade era outra. Eu tava querendo saber como era a voz dela .
— Tomar no cü viu! — continuei. — Não me obriga a ser diferente .
Fiquei parado aqui por alguns segundos que pareceram longos demais .
Então aconteceu .
— Eu… — uma voz saiu de dentro do quarto .
Baixa. Rouca. Fraca .
Mas real .
Meu corpo inteiro congelou .
— E-eu j-já vo-vou… — ela completou, quase num sussurro e gaguejando como se não soubesse falar .
Fechei os olhos por um instante. Um segundo só. Quando abri, dei dois passos pra trás, respeitando o espaço como prometi .
— Tá — respondi, mais baixo do que pretendia. — Deixo aqui..
Desci as escadas com o coração acelerado, sentindo um peso estranho no peito. A voz dela ainda ecoava na minha cabeça..
Sentei no sofá e passei a mão no rosto, tentando entender quando foi que essa situação deixou de ser só um problema temporário.
Eu não queria isso .
Não pedi por isso .
Mas já tinha acontecido .