Capítulo 5. Murilo.

992 Words
Todas as minhas visitas à vila, sempre que tinha oportunidade, eu perguntava ao Rael sobre sua irmã. E a única coisa que recebia em troca era um aviso para esquecê-la, pois, segundo ele, mulher como Aline tinha que viver sozinha — ela não valia nada. Fiquei horrorizado ao ouvi-lo dizer isso da própria irmã, mas imaginei que ela devia ter aprontado algo sério, porque meu amigo não carregaria tanto ódio sem motivo. Em alguns dias, o meu "casamento" com Aline completará cinco anos, e, durante todo esse tempo, eu nunca sequer beijei sua mão. Desde que voltei para a vila, só a vi uma única vez — mas acho que ela nem me percebeu. Estava com um grupo de pessoas, rindo muito [...] e parecia genuinamente feliz. Ao ver aquela cena, decidi não me aproximar. Não queria estragar a felicidade dela. Dei meia-volta e segui meu caminho. Aquela foi a última vez que a vi de perto... até hoje. Guto me avisou que Aline estava vindo para nossa casa e que havia pedido uma reunião. Supliquei para estar presente, e, com alguma insistência, ele permitiu. Pediu que eu descesse até seu escritório em dez minutos, pois os soldados já haviam avisado que ela estava entrando. Nesse momento, um nervosismo tomou conta de mim. Por que, depois de cinco anos, ela marcaria essa reunião? Teria acontecido algo? Não consegui esperar os dez minutos. Desci às pressas. Foi quando vi o exato momento em que ela entrou e seguiu em direção ao escritório de Augusto. Ao chegar à porta, respirei fundo e a abri. Ela permaneceu como estava, sem sequer virar o rosto. Guto me mandou sentar ao lado de Rael. Em seguida, Sônia pediu que Aline começasse a falar. Quando ela abriu a boca, foi como se me atingisse com uma facada, seguida de uma paulada no coração. Mas o pior foi ver, com meus próprios olhos, as cicatrizes espalhadas por todo o seu corpo. Quem fez isso com ela só pode ser um psicopata. Mesmo marcada, minha mulher continuava linda. Rael afirmou que Aline estava mentindo — que o pai deles a tratava como uma princesa. Ela apenas soltou uma gargalhada irônica, mas tão gostosa que eu daria tudo para ouvi-la todos os dias, mesmo que cheia de sarcasmo. Meu irmão, firme, pediu provas. E ela, como se já esperasse por isso, lhe entregou um pen drive. E, por Deus... naquele momento, desejei morrer por traição antes de ver o que a fiz passar. O pai de Aline teve a pior reação possível: desferiu socos com força em todo o corpo dela até que ela desmaiasse. Não consegui acreditar no que vi. Achei impossível sentir tanto ódio por uma pessoa até assistir àquele vídeo — o vídeo do meu amigo, que se dizia irmão da minha mulher. O pior veio depois: ver Aline inconsciente de tanto apanhar do próprio pai... E então, testemunhar seu irmão tentando usar tudo aquilo para me culpar, como se ela tivesse me expulsado de casa. Como se a culpa do meu abandono fosse dela — quando, na verdade, sua única culpa foi amar um homem de m***a como eu. Augusto declarou que Aline estava liberada do casamento e que poderia ir embora. Isso quase me destruiu. Foi como levar um soco no rosto. Só de imaginar ela longe daqui, correndo todos os perigos possíveis, meu corpo se encheu de pânico. Ainda tentei argumentar com ele, questionei se estava louco por deixá-la sair assim. Ele apenas disse que eu não tinha mais nada a ver com ela, que agora Aline era uma mulher livre para tomar suas decisões — e que o único culpado por tudo era eu. Enquanto ainda tentava processar tudo que havia sido dito, ouvi a voz de Rael. E então, toda a minha razão desapareceu. Avancei sobre ele com fúria e acertei um soco. Continuei batendo por cima dele até ser contido pelo meu pai e pelo meu sogro. Quando me virei para este último, ainda mais enfurecido, me preparei para acertá-lo também. Mas meu irmão me deteve com uma ordem firme, pois percebeu exatamente o que eu estava prestes a fazer. — Muito bem, senhores. Chamei todos aqui para comunicar que Aline não faz mais parte da nossa família. E depois de amanhã, ela será oficialmente uma mulher divorciada. — Eu nunca vou permitir isso! O que essa garota tem na cabeça? Ela não aprende nunca! Mesmo com o tempo, continua sendo uma menina burra e mimada! — esbravejou o pai dela. Comecei a respirar fundo para não perder a razão de novo. — Não se preocupe, Don. Amanhã trarei ela de volta. Ela nem vai lembrar dessa besteira de divórcio. — E como pretende fazê-la esquecer? — perguntou meu irmão, empurrando o rato direto para a armadilha. — Vai bater nela de novo? Ou vai exigir exames para provar que ela não se deitou com ninguém nesses cinco anos? — Eu não sei o que aquela garota falou aqui, mas eu nunca levantei um dedo para ela. Ele tentou mentir. Mas, antes que pudesse continuar, meu irmão colocou novamente o vídeo — soltando exatamente na parte em que ele espanca minha mulher. Meu pai ficou em choque. Meu sogro empalideceu como uma folha de papel em branco. — Coitada... O que essa pobre garota fez para merecer isso? — murmurou o antigo Don, com lágrimas nos olhos. — Você ainda pergunta, Richard? Ela m*l havia se casado e já foi abandonada no mesmo dia. No dia em que você me procurou para selar o acordo de casamento, jamais imaginei que aquela i****a iria transformar minha família em motivo de chacota. — E que culpa ela teve? Aline não pediu para ser deixada no altar! Se alguém teve culpa nisso tudo, fui eu! Se eu sequer imaginasse o que ela passaria, nunca teria te procurado para esse casamento acontecer — disse meu pai, tirando o último resquício de chão que eu ainda tinha.
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