CAPÍTULO 1 — O NOIVO QUE NÃO ESCOLHI
Mariana
O vestido que minha madrasta deixou pendurado na porta do meu quarto me encarava como se fosse um lembrete de que a minha vida, de novo, não me pertencia. Branco demais. Perfeito demais. Um vestido que não escolhi para um casamento que não pedi. Encosto os dedos no tecido como quem toca uma ferida aberta e sinto aquela sensação antiga, quase um arrepio que sobe pela espinha, dizendo que algo dentro de mim vai quebrar se eu der mais um passo naquela direção.
Respiro fundo, mas o ar não entra direito. É sempre assim quando sinto que estou sendo empurrada. A sensação é a mesma de quando Gustavo, meu ex, fechava a porta atrás de mim com aquele sorriso de quem achava que era dono da minha alma. O medo vinha sem aviso, silencioso. Hoje ele não está aqui, mas a sombra do que ele fez ainda respira atrás do meu pescoço.
Me aproximo da janela. Lá fora, o céu está tão bonito que chega a irritar. Um tom aceso de fim de tarde, laranja misturado com um rosa forte, quase exagerado, como se a natureza tivesse resolvido fazer cena justo hoje. E eu queria desaparecer. Me esconder. Me encolher dentro de um lugar onde ninguém me empurrasse para o altar como se eu fosse uma peça de negociação. Um investimento. Um preço.
Levo a mão ao peito, tentando sentir algum tipo de firmeza, mas o que encontro é o mesmo vazio que me acompanha desde a última vez que Gustavo gritou comigo, tão perto do meu rosto que eu pude sentir o cheiro do álcool saindo da garganta dele. Lembro de como ele disse que eu jamais seria amada de novo. Que ninguém me escolheria sabendo o estrago que eu era. E, por mais que minha razão saiba que isso é mentira, o corpo às vezes acredita nas palavras ditas no escuro.
A porta bate leve e minha mãe coloca a cabeça para dentro.
— Filha… já são 11h. Precisa descansar pra amanhã.
Ela queria dizer se preparar. SPA marcado, unha, cabelo, porque minhas tranças era a minha dignidade.
Eu fecho os olhos. Ela não tem culpa. Ou talvez tenha, mas não da maneira que costuma aparecer nos filmes. Ela precisa que eu case. Precisa que a empresa da família sobreviva. Precisa que o dinheiro, que o respeito, que a herança continuem existindo. Tudo isso acima de mim. Nunca disseram com essas palavras, mas sempre foi claro.
— Mãe… — Minha voz falha. Tento de novo. — Eu não amo ele , eu nem o conheço.
Ela suspira. Um suspiro cansado, derrotado, como se eu tivesse acabado de decepcioná-la pela milésima vez.
— Amor vem depois, Mariana. Amor aprende. Amor cresce. E nossa família precisa muito deste casamento.
— E eu? — pergunto. — O que eu preciso?
Ela desvia o olhar. E esse pequeno gesto é como uma faca lenta entrando pela costela.
— Você precisa… — Ela hesita. — …dar uma chance ao que é melhor para todos.
“Todos”. Nunca “você”.
Sinto a garganta arder, mas seguro as lágrimas. Se eu começar, não paro. Eu sei.
Minha mãe sai, fechando a porta com cuidado, como se não quisesse quebrar o vidro que ela acredita existir em volta de mim. Mas eu não sou vidro. Sou caco.
Sento na beira da cama e deixo o vestido cair no chão. Não consigo mais fingir. Não consigo levantar e ser dócil. Não consigo sorrir no ensaio, não consigo posar para fotos, não consigo me imaginar dizendo “sim” para um homem que não sei se conhece a diferença entre uma esposa e um troféu.
Meu celular vibra. Uma mensagem de Tainá.
“Se você fugir, eu corro junto.”
Sorrio. Tainá sempre foi essa alma livre, feroz, que diz coisas que ninguém tem coragem de dizer. Ela sabe do casamento, sabe de tudo. E sabe, principalmente, do que Gustavo fez comigo. Ela me segurou na noite em que eu cheguei sangrando por dentro, tremendo por fora. Ela me disse que eu merecia mais. Que eu não era propriedade. Que não precisava se destruir para ser amada.
Pego a chave do carro. Enfio no bolso. Enfio a coragem onde houver espaço, eu vou pro SPA, mas depois vou rodar a cidade, até que meu pensamento entre em ordem.
Se eu tiver que ser arrastada para o casamento amanhã, que hoje eu possa respirar. Só hoje. Só por algumas horas. Só até minha alma lembrar como é existir sem ter alguém me empurrando para o próximo abismo.
Desço as escadas sem fazer barulho. A casa está cheia de vozes, preparativos, fornecedores, arranjos, ensaios, opiniões. Tudo sobre o casamento. Nada sobre mim.
Passo pela sala segurando a respiração, como se invisibilidade fosse algo que eu pudesse vestir. Ninguém me vê. Ninguém quer me ver. Estou cumprindo um papel, só isso.
Quando chego à porta, meu pai me intercepta.
— Onde pensa que vai?
Ele está de terno. Elegante. Sério. Parecendo um homem que sabe que está no controle.
Não respondo. Só olho para ele com a calma que não sinto.
— Mariana, não faça drama. É apenas um casamento. Vai garantir nosso futuro. O seu, o nosso, o da empresa. Tudo que pedimos é que você seja sensata.
Sensata. O contrário de sentir. O contrário de ser humana.
— Eu preciso respirar — digo, baixo. — Só isso.
Ele bufa, irritado. Mas não me impede. E, por um segundo, acho que isso já é uma vitória.
Saio. Entro no carro. O ar quente toca meu rosto como um tapa. Dirijo sem destino. Só dirijo. As ruas passam como borrões de luzes e buzinas, como se a cidade inteira estivesse acelerada demais para sentir alguma coisa.
Depois do cabelo feito, maquiagem impecável e do vestido vermelho,sexy demais que se ajustou ao meu corpo, me deixando com mais vontade de dizer não pra vida que escolheram pra mim.
Acabo parando em frente a um hotel onde sei que está acontecendo uma festa grande, barulho demais, música demais, gente demais. Perfeito. Lugar onde ninguém olha fundo demais nos olhos de ninguém. Lugar onde posso ser só um corpo no espaço, e não uma noiva em dívida com o mundo.
Quando entro, a música me acerta no estômago. O grave faz meu peito vibrar, e por um momento sinto algo parecido com alívio. As luzes piscam, a bebida brilha nos copos, e eu ando com a sensação de que estou dentro de um filme que não pedi para participar, mas que pelo menos não exige que eu sorria.
Vou até o bar. Peço algo forte. Não quero o sabor, só o efeito. O gelo bate no vidro. Tomo de uma vez. E sinto aquela ardência que acorda o corpo.
A segunda bebida chega antes de eu pedir. O barman aponta discretamente para o lado. Um homem encostado na parede me observa, que olhar penetrante, e lindo, eu já disse lindo, não sei se foi a bebida, mas eu apesar de todos os traumas eu daria pra ele no banheiro se ele me chamasse, uma despedida de solteira quente talvez me animaria, contrai as pernas como se tivesse sentindo a imaginação vagar com a imagem, acho que ele percebeu, vi um riso no canto da boca deliciosa dele, preciso sair daqui já estou vendo coisas.
Ele nunca olharia pra mim. Alto. n***o. Elegante. O tipo de presença que não pede espaço, toma. O terno escuro abraça o corpo dele como se tivesse sido feito sob medida. A postura é firme, quase arrogante. Mas os olhos… são outra história. Há algo quebrado ali. Uma sombra. Uma dor que reconhece a minha como se fossem da mesma família.
Ele levanta o copo numa espécie de cumprimento silencioso.
Eu deveria virar as costas. Eu deveria voltar ao carro. Eu deveria ser sensata, como meu pai quer. Mas hoje… hoje eu quero respirar. Só isso.
Caminho até ele. Cada passo parece diminuir o mundo. E penso da onde saiu essa coragem.
— Eu… — começo, mas minha voz some. Ele me olha como se já soubesse.
— Não precisa dizer nada — ele fala, voz baixa, profunda. — Às vezes, só estar aqui já é dizer tudo.
Eu rio. Um riso torto, quase triste.
— Você não tem ideia do tamanho da merda que está acontecendo na minha vida.
— Talvez eu tenha — ele responde, inclinando a cabeça. — Todo mundo carrega seu próprio desastre.
Encosto na parede ao lado dele. O cheiro dele chega antes do toque. Um cheiro quente, masculino, que invade. Que provoca.
— Estou presa num casamento — digo. — Um casamento que não escolhi. Vou me casar amanhã e nem sei como quem.
Pensei, porque c*****o estão falando isso pra ele.
Ele não reage com pena. Nem com surpresa. Só com uma calma estranha, perigosa.
— Se você não quer, por que aceita?
Olho para o chão.
— Porque preciso salvar minha família.
Ele bebe devagar. Os olhos nunca saem do meu rosto.
— Existe outra saída — ele diz.
— Qual?
Ele vira totalmente para mim. A voz dele vira promessa, ameaça, tentação.
— Faça um contrato comigo.
Meu coração dispara.
— Que tipo de contrato?
— Case comigo por um ano.
O ar some. Meu corpo inteiro se apreende.
— O quê?
— Você não quer casar. Eu preciso apagar um escândalo. Você me ajuda, eu te ajudo. Um ano. Sem amor, sem cobranças, sem dor e sem sentimentos.
Eu quase rio. Quase choro. Quase desmaio.
— Você é louco?
Ele encosta o corpo no meu, sem tocar. Quase. Suficiente para minha pele acender.
— Talvez. Mas não mais louco do que aceitar se casar com um homem que você não ama.
E eu não sei se é o álcool. Ou o desespero. Ou a sensação de que, pela primeira vez em meses, alguém está me oferecendo uma saída — ainda que torta, proibida e impossível. Mas está me dando uma opção para que eu escolha o que véu quero, que eu decida.
Eu digo sem pensar:
— Eu topo.
Ele sorri. Um sorriso lento, perigoso e cheio de promessa.
— Ótimo. Então você vai ser minha esposa.
E eu não tenho ideia de que acabei de assinar com a palavra na minha vida…
para o mesmo homem que está me olhando assim agora, como se quisesse me devorar e me proteger ao mesmo tempo. Eu nunca me senti assim.