Eu não acordei naquele dia pensando em beijar meu marido. Acordei pensando em listas. Lista de compras, lista de tarefas do trabalho, lista de coisas que eu queria conversar com a psicóloga na próxima sessão e que, provavelmente, não teria coragem de dizer. Acordei pensando no barulho da chuva da noite anterior, no modo como o som tinha cortado minha pele como memória, e no fato de que eu tinha atravessado o corredor quase descalça para bater na porta do quarto dele. Eu fingi que não lembrava da sensação de deitar naquela cama. Fingi que não lembrava do cheiro do travesseiro, de Anne se aconchegando entre nós, da respiração dele firme atrás das minhas costas, como um aviso silencioso de que ali nada ia me atingir. Mas lembrava. Lembrava de tudo. Passei a manhã ocupada com Anne. Desenho

