Eu nunca gostei de ver alguém lendo meus contratos como quem lê uma sentença. Aqueles papéis nasceram para proteger minha filha, minha empresa e o resto do que sobrou de mim depois da traição. Mas, naquela manhã, quando Mariana leu cada linha em silêncio absoluto, eu senti outra coisa se mover dentro do peito. Não era preocupação. Não era culpa. Era… espera. Uma espera que tremia devagar, como se meu corpo reconhecesse que a vida estava prestes a mudar forma.
Ela segurava a caneta com a mão um pouco trêmula, não de medo, mas de decisão. E existe algo profundamente bonito quando uma mulher ferida escolhe o próprio destino. Aquilo me atravessou como uma memória que nunca vivi: o som de alguém ficando.
A amiga dela estava na sala também, encostada na mesa como quem observa um ritual. Tainá, eu lembrava o nome. Língua solta, energia forte. Havia nele a coragem típica das mulheres que sempre precisaram defender umas às outras. Assim que Mariana assinou, Tainá a puxou para um abraço tão apertado que quase derrubou os dois perfumes no aparador.
E, quando elas se afastaram, ouvi nitidamente a frase que Tainá sussurrou, sem nenhum pudor, como se eu fosse decorativo ali:
— Mana, eu ia te matar. Mas agora eu entendi por que você aceitou. Ele é delicioso. Senta com força.
Eu mantive a seriedade.
Por fora.
Por dentro, sorri do jeito que não sorria há anos.
Porque, antes de qualquer coisa, eu percebi Mariana rindo. Não de mim, mas da i********e entre amigas. Da leveza. Um tipo de riso que não devia existir em alguém que já foi destruída do jeito que ela foi. Mas estava ali. Vivo.
E o riso dela tem som quente.
O tipo de som que a pele reconhece antes da mente.
Quando ela ergueu os olhos para mim, com as sobrancelhas arqueadas num gesto de quem se desculpa e desafia ao mesmo tempo, eu senti o perfume.
O maldito perfume.
Aquele que me perseguiu desde a festa.
Pêssego.
Mas não o pêssego doce das prateleiras.
Era outro.
Um pêssego quente, encorpado, misturado ao sal da pele e ao calor da nuca dela.
Naquela noite da festa, quando ela passou por mim com aquele vestido escuro que a cintilava nos ombros, eu senti o aroma antes de ver o rosto. E meu corpo reagiu como se fosse chamado pelo nome.
O cheiro dela.
Mariana inteira cheira a promessa.
E eu não lido bem com promessas desde que Clara destruiu o que sobrou do meu coração.
— Precisamos combinar horário e local — ela disse, guardando a cópia do contrato na bolsa.
A voz dela entrou devagar no meu peito.
Firme, porém suave o suficiente para amolecer algo que eu não sabia que tinha endurecido tanto.
— Cartório do Centro. Dez da manhã — respondi.
Ela assentiu, sem hesitação.
O tipo de mulher que não se curva.
Eu gosto desse tipo.
Talvez porque eu mesmo vivi tempo demais curvado pelas traições.
Tainá cruzou os braços, me encarando com a ousadia típica de quem não teme homem nenhum.
— Se fizer ela chorar… eu te quebro todinho, bilionário ou não.
— Ele não vai — Mariana disse, antes que eu pudesse responder.
E havia convicção naquela frase.
Convicção demais.
O estranho é que eu senti vontade de merecê-la.
Como se aquela frase tivesse sido dada a mim como promessa e eu quisesse honrá-la.
Quando Mariana virou de costas para sair, algo em mim se mexeu com violência. Uma inquietação. Um aviso.
Aquele contrato ia mudar tudo.
O papel, a assinatura, o compromisso… nada ali era apenas jurídico.
Havia camadas.
Havia destino.
E eu sabia, desde a primeira vez em que ela desviou o olhar para não me mostrar a dor, que o destino é teimoso.
— Mariana.
Ela virou.
O cabelo dela caiu no ombro, brilhando como se tivesse engolido o sol.
A boca, suave.
Os olhos, atentos.
Eu poderia ter dito qualquer coisa.
Poderia ter dado instruções, regras, avisos.
Mas o que saiu da minha boca foi a verdade mais crua que eu tinha dentro de mim:
— A assinatura muda tudo.
Ela respirou fundo.
E o peito dela subiu devagar, como se quisesse guardar aquele ar para sempre.
— Eu sei — respondeu.
Mas ela não sabia.
Não fazia ideia.
Tainá puxou o carro e Mariana entrou, ajeitando o vestido com a mesma elegância despretensiosa que me deixou sem fôlego na festa.
Quando a porta fechou, a fragrância dela ainda ficou na minha sala.
Pêssego quente.
Pele viva.
Algo que atiçava o pior e o melhor de mim.
Fiquei parado por um longo tempo, olhando para o espaço onde ela tinha estado.
Eu já não era homem de se impressionar.
Já tinha visto muita beleza, muito corpo, muita mentira.
Nada mais mexia comigo de verdade.
Mas Mariana…
Mariana mexia.
E não fazia esforço.
Não flertava.
Não seduzia.
Não sorria demais.
Não arqueava o quadril.
Não fazia charme.
Ela apenas existia.
E isso era o bastante para quebrar minhas defesas como se eu fosse feito de vidro.
Peguei o contrato de volta, passei os olhos pelas cláusulas e percebi uma verdade estranha:
eu tinha criado todas aquelas regras para manter distância.
Distância dela.
Distância do mundo.
Distância do amor.
Mas, por algum motivo, desde a festa… o cheiro dela vinha aparecendo nos meus sonhos.
Pêssego quente.
Respiração curta.
Pele que arrepia o ar.
Eu não devia sentir nada disso.
Não depois de Clara.
Não depois de tudo.
Só que existem mulheres que o mundo não consegue ignorar.
Mariana era uma delas.
E eu sabia — aquele contrato não era o começo da nossa história.
Era o gatilho.
O ponto sem retorno.
A partir dali, não haveria mais silêncio que me protegesse.
Nem distância que me salvasse.
Nem passado que me mantivesse frio.
Ela estava vindo.
Com seu cheiro, sua dor, sua coragem.
E, no íntimo, apesar de tudo que eu tentei negar…
Eu queria que ela viesse.
Eu queria.
Com uma força que eu não admitia nem para mim.
A festa tinha acendido algo.
A assinatura acendia o resto.
E, quando ela deixou a sala, levando com ela aquele perfume que me perseguia desde a primeira noite, eu soube:
O contrato durava um ano.
Mas meu desejo por ela…
Esse não tinha prazo.
E eu ia descobrir, cedo ou tarde, que naquele corpo havia cicatrizes que conversavam com as minhas.
Que na dor dela havia um espelho da minha.
E que no sorriso que ela escondeu atrás do cabelo havia tudo o que eu já não sabia que queria novamente.
Quando saí da sala, já não era o mesmo homem que entrou.
Era um homem que carregava o silêncio — mas que, pela primeira vez em anos, queria quebrá-lo.
E se o destino fosse justo pela primeira vez…
ela seria o som.