Capítulo 7 . Casamento Civil (Mariana)

2362 Words
Eu não vesti branco. Não porque eu não tivesse dinheiro para comprar um vestido desses, não porque eu desprezasse a ideia de casamento. Eu não vesti branco porque branco, pra mim, sempre pareceu a cor da mentira. Quantas vezes eu vi fotos de noivas sorrindo de branco enquanto, lá dentro, estavam em pedaços? Eu não seria mais uma delas. Então escolhi pêssego. A cor do meu perfume, da minha pele quando pega sol, do batom que Tainá diz que parece beijo engarrafado. Pêssego. Eu sabia exatamente o que estava fazendo, mesmo que, em voz alta, eu jurasse que não tinha intenção nenhuma. Intenção é algo que a gente esconde nos detalhes: na cor, no tecido, na forma como o vestido abraça o corpo e sussurra você só vai olhar. O tecido descia justo do peito até a cintura, marcando curvas que eu passei a vida pedindo desculpa por ter. A barra era simples, sem volume, mas se movia comigo como se entendesse que eu precisava de espaço para respirar. Ombros à mostra, clavículas expostas, costas quase nuas. Eu olhei no espelho e, por um segundo, quase não me reconheci. Não era a filha obediente. Não era a mulher domesticada por um narcisista. Era outra. Era eu, finalmente. Tainá entrou no quarto sem bater, como sempre, parando na porta com a mão na boca. — p**a que pariu, Mariana. Eu ri, virando ligeiramente de lado. — Isso é bom ou r**m? Ela se aproximou, rodando ao meu redor como se estivesse analisando uma obra de arte. A mão passou de leve pela lateral do vestido, pelo quadril, pelo decote moderado mas teimosamente presente. — Isso é perigoso — ela murmurou. — Você tem certeza que quer ir assim pra um casamento de contrato? Eu respirei fundo, ajeitando a alça do vestido. — Se eu tiver que me sacrificar, pelo menos vou entrar bonita. Ela me olhou pelo reflexo do espelho, o rosto suavizando. — Você não está se sacrificando. Você está fazendo o melhor que consegue com as cartas que te deram. E, pela primeira vez, você escolheu a mesa. As palavras dela bateram num ponto sensível. Eu sorri sem mostrar os dentes, tentando não estragar a maquiagem. Minha mãe apareceu logo depois, com os olhos cheios de uma emoção misturada que eu já aprendi a decifrar: orgulho, culpa, alívio, medo. Tudo cabia ali. — Minha filha… você está linda. — Obrigada, mãe. Ela ajeitou um fio de cabelo que já estava no lugar. — Seu pai já foi na frente. Está no cartório. Claro que estava. Ele ia chegar antes, apertar mãos, sorrir, fingir que não tinha vendido a própria filha na mesa de negociação. Eu respirei fundo uma última vez, peguei a clutch pequena e o celular, e sai de casa com a sensação estranha de que estava deixando mais do que paredes para trás. O caminho até o cartório pareceu curto demais. Tainá dirigia, falando sem parar, tentando preencher o silêncio que insistia em se acumular na minha garganta. Eu só ouvia metade. A outra metade do meu cérebro estava ocupada com imagens que insistiam em voltar: o banheiro da festa, minha boca dizendo coisas que eu jamais diria sóbria, as mãos de Elias segurando minha cintura para eu não cair, a cama macia onde eu acordei com a camiseta dele cheirando a homem e a sabonete. E o contrato. As letras negras, o valor da minha liberdade escrito em números que eu nunca imaginei ver com meu nome ao lado. Quando chegamos, o cartório já estava cheio de outras histórias: casais de mãos dadas, gente rindo, gente séria, crianças correndo. O mundo não parava porque eu estava prestes a mudar o meu sobrenome por estratégia. A vida seguia, indiferente. Eu, de salto, respirando rápido demais, tentando parecer tranquila. Eu o vi antes dele me ver. Elias estava do outro lado, perto do balcão, conversando com o advogado. Terno escuro, camisa branca, gravata de um tom profundo que parecia vinho contra a pele n***a. Ele não era bonito só de rosto. Era bonito de presença. O corpo parecia ter sido desenhado para ocupar espaço com calma. Ombros largos, postura firme, mãos grandes. A barba bem feita definia o maxilar, como se alguém tivesse passado uma linha fina ali para marcar até onde eu não deveria ir. Os olhos… quando se levantaram e encontraram os meus, eu senti. Não no estômago. Na pele. Ele me despiu sem encostar um dedo. O olhar dele varreu meu corpo, subindo devagar do salto até o decote, passando pelo formato do vestido em cada curva, subindo pelo pescoço até finalmente estacionar no meu rosto. Não houve malícia barata, não houve sorriso cafajeste. Houve algo silencioso, mais antigo, quase reverente. Como se ele tivesse visto algo que não esperava encontrar. Eu engoli em seco. Talvez eu também não estivesse preparada para ele armado. Não com uma arma de verdade, mas com aquele terno, aquele olhar, aquele silêncio que dizia coisas que nenhuma palavra alcançaria. Tainá, óbvia, cutucou meu braço. — Se arrependa depois, Mari. Agora vai. Ele deu alguns passos em minha direção, e o cartório inteiro pareceu diminuir. As vozes foram ficando distantes, o som das senhas sendo chamadas perdeu força, o mundo foi ficando embaçado nas bordas. Só havia o som cadenciado dos passos dele no piso e a batida do meu coração tentando acompanhar. — Mariana — ele disse, parando a uma distância respeitosa, mas suficientemente perto para eu sentir o perfume. Amadeirado, limpo, com uma nota quente que prometia coisas sem nome. — O vestido… — Escolha minha — respondi antes que ele terminasse, erguendo o queixo. — Não foi parte do contrato. Um canto do lábio dele levantou. — Eu ia dizer que está… apropriado. — Apropriado pra quê? — Pra lembrar que eu sou só espectador — ele murmurou. — Pelo menos hoje. Eu deveria ter ignorado. Eu deveria ter recuado. Mas aquele tipo de frase entra num lugar em que a autodefesa não aprendeu a gritar. Eu senti o vestido tocar levemente minhas pernas, como se também reagisse. A fotógrafa nos chamou. Uma mulher n***a, cabelo crespo preso num coque alto, sorriso larguíssimo. — Casal lindo, vem pra cá! Vamos registrar esse momento. Fiquem de frente um pro outro, isso, isso, assim mesmo. Mais perto. Mais perto. Duas palavras simples. Mas, quando dei o passo que nos aproximou, o mundo pinçou o ar. O peito dele quase encostou no meu. O cheiro de amadeirado encontrou o de pêssego como se estivessem se reconhecendo de novo. Eu senti a respiração dele bater no meu pescoço, quente, lenta, firme. Era como se cada expirada dissesse eu sei exatamente o que estou fazendo com você. Minha pele arrepiou inteira. — Relaxa, noiva — a fotógrafa disse, rindo. — Parece que está indo pra um velório. Isso é casamento civil, mas ainda é casamento. Se ela soubesse. — Inclina um pouco a cabeça, Mariana — a voz dela continuou. — Isso, ótima postura. Elias, chega mais pertinho. Segura a cintura dela. A mão dele pousou na minha cintura, firme, inteira, como se sempre tivesse sido o lugar dela. Não foi carícia. Foi posse discreta. Um aviso. Meu corpo respondeu com uma onda de calor tão imediata que eu precisei travar o maxilar para não reagir. — Agora um olhando dentro dos olhos do outro… isso, perfeito. Nossa, que química. Química. Se ela soubesse o quanto essa palavra era perigosa naquele momento. Eu olhei nos olhos dele. Escuros, profundos, alguma coisa quebrada no fundo, mas segurando minha atenção como se eu fosse a única coisa viva na sala. Por um segundo, esqueci por que estávamos ali. Não era contrato, guarda, dinheiro, empresa, pais. Era só ele e eu. Dois feridos fingindo que sabiam o que estavam fazendo. — Agora um beijo — a fotógrafa pediu, animada. — Só um selinho apaixonado, vai. Eu congelei. Um beijo. A palavra subiu como um alerta interno. Senti Elias respirar mais fundo. A mão dele apertou um pouco a minha cintura, não ao ponto de doer, só o suficiente para me ancorar ali. Ele baixou o rosto, e quando a boca dele se aproximou, o tempo pareceu escorrer por uma f***a escondida no chão. Eu podia ter virado o rosto. Podia ter seguido o script das noivas tímidas. Mas não virei. Fiquei. Com o coração na boca, a respiração presa, a alma num ponto sem retorno. Os lábios dele encostaram nos meus. Não foi um beijo longo. Não foi obsceno. Não foi cena de filme. Mas foi um recado. Claro, direto, urgente. Um aviso silencioso: não me provoque. Havia comando naquele toque, um domínio que não vinha de ego, mas de uma certeza que eu não sabia nomear. A mão dele na minha cintura, os dedos abrindo espaço no tecido, a respiração quente colada na minha, o cheiro dele entrando em mim junto com o próprio ar. Meu corpo tremeu. Por fora, talvez ninguém tenha visto. Por dentro, todas as minhas linhas foram redesenhadas. Quando ele se afastou, milímetros apenas, os olhos ainda grudados nos meus, eu sabia que o problema não era o beijo em si. O problema era tudo o que ele prometia sem dizer. O problema era o meu corpo respondendo como se conhecesse aquele homem há anos. — Perfeito — a fotógrafa disse, satisfeita. — Vai vender foto, viu? Eu engoli em seco, soltando o ar só quando me virei meio de lado, como se estivesse arrumando o vestido. Na verdade, eu estava tentando me recompor, encaixar de volta as partes de mim que tinham se deslocado. O resto da cerimônia foi rápido. Papel, caneta, nomes, assinaturas. O juiz de paz falou algumas palavras sobre união, respeito, compromisso. Palavras que eu já tinha ouvido antes e que, naquela sala pequena, ganharam um segundo significado. Eu olhava para o documento e pensava: é isso. Entre sair de casa algemada à vontade dos meus pais e entrar num contrato em que, pelo menos, meu “sim” foi consciente, eu escolhi a segunda opção. Quando tudo acabou, meu pai apertou a mão de Elias com entusiasmo exagerado, como se tivesse acabado de fechar o melhor negócio da vida. Minha mãe me abraçou forte, sussurrando no meu ouvido que tudo ficaria bem, como se essa frase, repetida desde a infância, tivesse algum poder real. Tainá me abraçou por último, demoradamente, e sussurrou outra coisa: — Qualquer coisa, eu te busco. Aquilo, sim, era promessa. Voltamos para o carro dele. Não havia caravana, arroz jogado, música alta, nada disso. Era um casamento limpo, seco, eficiente. Exatamente como um contrato deve ser. Eu entrei no banco do passageiro, sentindo o vestido deslizar pela pele. O cheiro de pêssego parecia mais forte depois do beijo, como se o corpo tivesse entendido o recado antes da mente. No caminho, o silêncio entre nós não foi desconfortável. Era denso, mas não desagradável. Como se cada um estivesse conversando com os próprios fantasmas enquanto o outro apenas testemunhava. O prédio dele surgiu imponente, de vidro e linhas retas, contrastando com minhas lembranças de casas antigas. A portaria nos recebeu com sorrisos discretos. Eu subi no elevador pensando: é aqui que eu vou morar. É aqui que meu perfume vai impregnar paredes. É aqui que uma criança que eu ainda nem conheço vai aprender meu nome. Quando a porta do apartamento se abriu, fui engolida por um espaço amplo, claro, com quadros de arte n***a nas paredes, esculturas que lembravam raízes, máscaras, figuras femininas fortes. Não era uma casa branca querendo parecer moderna. Era uma casa preta, assumida, orgulhosa. E, por um segundo, eu senti vontade de ficar por motivos que não tinham nada a ver com dinheiro. Ele caminhou na frente, os passos seguros, e me levou por um corredor até um quarto claro, amplo, janela enorme com vista para a cidade. A cama era grande, lençóis brancos, cabeceira estofada, um tapete macio que parecia nuvem debaixo do salto. Havia flores simples num vaso, minha cor preferida no arranjo, algumas roupas já dobradas no closet aberto, cabides ocupados com peças que claramente não eram dele. Eu reconheci uma blusa minha. Outra. O vestido que eu quase escolhi e não escolhi. — Sua mãe já enviou suas malas pelo motorista — ele disse, encostando no batente da porta, as mãos nos bolsos. — Lúcia arrumou tudo no seu quarto. “Seu quarto.” Não era “o quarto de hóspedes”. Não era “o quarto da esposa”. Era meu. Eu passei a mão pelo lençol, sentindo a textura sob a ponta dos dedos. Tudo naquele espaço gritava que eu teria onde deitar, onde chorar, onde existir sem pedir licença. Eu não sabia chorar em paz há anos. — Se precisar de alguma coisa, Pêssego, pode pedir. A voz dele me atravessou inteira. Profunda, rouca, cheia de um cansaço bonito. Mas não foi só o timbre. Foi o apelido. Pêssego. Saindo da boca dele daquele jeito. Senti uma onda de calor subir do peito pro pescoço, descendo pela coluna num rastro fino. Foi uma excitação tão rápida, tão involuntária, que eu odiei. O corpo respondeu antes da mente. Meus m*****s endureceram sob o tecido. As coxas ficaram mais pesadas. Não precisei me olhar no espelho para saber que meu perfume tinha se intensificado. — Não me chame assim — respondi, áspera demais. Ele riu. Não alto, não debochado. Um riso baixo, curto, que escorreu pela pele como se fosse toque. — Como quiser, Mariana. Quando ele virou para sair, eu fiz a coisa mais infantil possível: bati a porta com um pouco mais de força do que precisava. A madeira fez um som seco. Eu encostei a testa nela por um segundo e, contra toda a minha vontade, sorri também. Porque, no meio do meu drama interno, uma verdade simples escapava: ele me provocava, mas não me esmagava. E meu corpo… meu corpo tinha entendido essa diferença. Ainda encostada na porta, ouvi a voz dele ecoando pelo corredor, mais distante, mas ainda clara: — Desça para o jantar se desejar. Se desejar. Não era ordem. Era convite. Eu não respondi. Não em voz alta. Por dentro, eu já estava respondendo demais.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD