Eu achei que estava tudo bem. É curioso como o cérebro faz isso com a gente: pega um dia difícil, engole, engaveta e sussurra “passou”, como se o corpo não tivesse memórias próprias, como se os músculos não guardassem cenas como quem guarda cicatriz escondida debaixo da roupa. Depois que Carla foi embora, a casa ficou num silêncio estranho. Não o silêncio confortável de fim de dia, em que o barulho da cidade lá fora vira trilha sonora distante. Era um silêncio denso, espesso, como se as paredes ainda tivessem que engolir os restos do veneno que ela deixou no ar. Anne adormeceu no sofá, esgotada, a mãozinha ainda apertando um pedacinho da minha blusa, como se temesse que eu sumisse se ela soltasse. Elias a pegou no colo com cuidado, e eu acompanhei os dois até o quarto dela. Fiquei encost

