Anne adormeceu antes mesmo do céu decidir se escurecia de vez. Era aquele tipo de cansaço bonito, o das crianças que brincam até o último fio de energia, como se a vida fosse sempre urgente. Eu estava sentada no sofá da sala, depois de ter ajudado Lúcia a guardar os brinquedos espalhados, quando senti o peso leve do corpo dela subir no meu colo. Ela veio sem pedir, sem avisar, sem cerimônia. Só veio. Como se sempre tivesse vindo. Encostou a cabeça na minha barriga, respirando fundo, e eu fiquei ali, com os dedos passando devagar por aqueles cachinhos que pareciam sempre úmidos de piscina, mesmo quando não tinham visto água o dia inteiro. Ela tinha um cheiro próprio: doce, leve, cheio de alguma coisa que eu só podia chamar de infância protegida, apesar de saber que não tinha sido protegida

