CAPÍTULO 2 — O HOMEM DA FESTA (ELIAS)

1521 Words
Ela me apareceu como um sopro quente num lugar que sempre foi frio demais pra mim. Nem sei por que aceitei vir àquela festa; talvez porque Jorge insistiu que eu precisava sair de casa, respirar, fingir que ainda era humano. Eu estava nervoso. Eu casaria amanhã , e pensei em desistir, mas não era só em mim que eu pensava, eu pensava em proteção. Proteção a alguém que jurei casar e não consegui protegê-la. Eu não acredita nas no amor. Eu já não acreditava nisso há anos. Mas aquilo ali… aquele salão cheio de gente que eu não pretendia olhar nos olhos… virou cenário de algo que me atravessou antes que eu tivesse chance de fugir. Eu senti primeiro o cheiro. O cheiro dela. Pêssego. Não aquele doce infantil; era pêssego quente, maduro, de pele úmida. Um cheiro que me pegou pela garganta como se fosse memória. Um cheiro que mexeu com um pedaço de mim que eu mantinha algemado há muito tempo. Quando virei o rosto, ela estava lá. A única pessoa da festa que parecia desconfortável, deslocada, querendo desaparecer. E ainda assim… chamando atenção sem fazer esforço nenhum. A pele dela estava iluminada sob as luzes suspensas, dando a impressão de que alguma força antiga tinha decidido brincar com meus nervos. Um vestido vermelho colado ao corpo, mas não o tipo de vestido que grita; era o que sussurra, pedindo para ser descoberto devagar. E eu, que sempre fui sóbrio até demais, me vi avançando um passo. Depois outro. Era como se algo na vibração dela tivesse puxado um fio preso dentro de mim. Eu já conhecia Mariana Correia. Mas nunca tinha visto assim tão quente, tão mulher, ela pra ela ter casado comigo, mas o pai aceitou uma oferta maior. Sabia do escândalo do ex abusivo, eu conhecia Gustavo, meu inimigo, o motivo das correrias do pai dela tentando evitar que a ruína da família viesse como avalanche. Sabia até do contrato de casamento arranjado que arrumaram, eu o escrevi, sabia que era errado, que estava a tratando como se mulher fosse moeda antiga e facilmente substituível, mas percebi no pai e na madrasta o inimigo silênciodo e mortal que enfrentei desde que o pai dela não aceitou a minha proposta, o narcisismo, a diferença que ela estave no relacionamento por escolha dos pais, e eu sofrendo por ela estava no. relacionamento amarrado a princípios familiares, o divórcio com Carla foi dolorido ela usava a minha filha o tempo todo como moeda de troca até que pedi o divórcio, e agora para ter a guarda dela preciso de uma relação estável. Eu deveria ter ficado longe. Mas nunca fui muito bom em fazer o que dizem. Quando me aproximei, percebi que ela estava tonta. De álcool. De tristeza. De algo que não sei nomear. O entorno dela parecia rodopiar, mas ela mantinha o queixo erguido, como se recusasse dar o gosto ao mundo de vê-la cair. Eu reconheço esse tipo de orgulho. É o mesmo que eu carrego no peito desde a traição da minha ex, desde a noite em que descobri que a pessoa que dormia comigo era a mesma que me enterrava com mentiras. — Você tá bem? A pergunta saiu antes que eu pudesse pensar. Ela ergueu os olhos e eu senti o golpe no peito. É estranho como algumas pessoas não precisam falar nada pra f***r com o nosso controle. — Você é lindo… — ela murmurou, e o sorriso dela era meio triste, meio sincero, um sorriso que me desmontou, mas sabia que aquela coragem vinha do álcool. Eu deveria ter me afastado. Mas não fiz. Ela cambaleou um pouco e, num reflexo, eu a segurei pela cintura. A pele dela queimou na minha mão como se o universo tivesse acendido um fósforo dentro do meu corpo. — Acho que eu bebi demais — ela confessou, com uma sinceridade tão vulnerável que quase me fez esquecer quem eu era. Ela não sabia meu nome. Eu não disse. Queria ouvir aquela voz sem que ela me vinculasse a nada, sem que soubesse da minha história, do meu dinheiro, do meu passado sujo de mágoas. Ela precisava de alguém que a enxergasse sem etiqueta. E eu precisava ser alguém que me fizesse esquecer por uma noite. Levei-a para um canto mais silencioso do salão, apoiando o braço dela no meu. O cheiro dela ficou mais forte, mais quente, mais próximo. Pêssego. Flor. Pele. Algo que me fez apertar a mandíbula para não fazer besteira. — Qual seu nome? — perguntei, sabendo muito bem quem ela era, mas querendo ouvir da boca dela. — Mariana… — Ela respirou fundo, como se falar o próprio nome doesse. — Eu não devia estar aqui. Eu… estão tentando me casar com um homem que eu não quero. Meu pai… ele acha que isso vai salvar tudo. Aquilo me atingiu como pancada seca. Casamento por obrigação. Contrato emocional. Sim, eu sabia muito bem o que era isso. — E por que estão fazendo isso com você? — perguntei, tentando manter minha voz baixa, mesmo que a vontade fosse tirar ela dali no colo. — Porque eu sou a filha obediente — ela riu com tristeza. — A que sempre resolve a merda que os outros fazem. Só que dessa vez… eu não quero. Eu não quero casar com ninguém. Ela encostou a testa no meu peito como se precisasse de um ponto firme no mundo que girava rápido demais. E eu, i****a, permiti que ela ficasse ali. Meu corpo inteiro ficou alerta. A respiração dela tocou minha camisa, e eu senti os pelos do meu corpo reagirem. — Você não deveria contar isso pra um estranho — eu disse, e ainda assim puxei ela um pouco mais para perto. — Estranho? — Ela ergueu o rosto, e havia algo embriagado, mas verdadeiro, nos olhos dela. — Você parece mais protetor do que todo mundo nessa festa. Proteção. Essa palavra sempre me perseguiu. Sempre precisei ser a fortaleza do mundo. Nunca o protegido. Ela continuou: — Eu não quero casar. Não quero contrato. Não quero nada disso. Eu só queria… liberdade. E foi aí que eu falei a besteira que virou destino. — E se eu te dissesse que eu também preciso de um casamento? Ela piscou devagar. Eu senti a tensão no ar mudar. — Casamento? Você? Por quê? Respirei fundo. Não podia dizer tudo. Não ainda. Mas o escândalo com minha ex estava prestes a vazar. E eu precisava abafar. Precisava de blindagem. Precisava proteger a minha filha. — Digamos que um contrato resolveria muita coisa na minha vida — respondi. — Eu assino. — Ela suspirou, como se aquilo fosse alívio. — Qualquer coisa que me tire dessa prisão que minha família construiu. Eu deveria ter parado ela. Mas quando alguém decide sangrar a alma na sua frente, você não vira as costas. — Sabe o que está dizendo? — perguntei, segurando o rosto dela entre minhas mãos. A pele dela estava quente, macia. O perfume dela subiu, me invadiu, me deixou duro por dentro como desejo que a gente tenta disfarçar. — Sei. — A voz dela era firme apesar da bebida. — Faça um contrato comigo. Um ano. Só isso. Eu te ajudo, e você me ajuda. Meu corpo inteiro reagiu. A proposta era minha e agora era ela que me escolhia como salvação. Um ano com ela. Com esse cheiro. Com essa pele. Com essa vulnerabilidade que me desarmava mesmo sem tentar a tanto tempo. — Você vai esquecer disso amanhã — eu murmurei, mesmo sabendo que eu seria o único a lembrar. — Então me lembra. — Ela sorriu, encostando o dedo no meu peito. — Me lembra de que eu disse sim. Eu nunca esqueço quando digo sim, quando prometo alguma coisa, eu tenho honra. E antes que eu pudesse responder, ela se desfez nos meus braços, derrotada pela bebida e por tudo que a vida tinha jogado sobre ela. Eu a segurei. Levei até meu carro. Cuidei dela como não cuido de ninguém a muito tempo. E enquanto ela adormecia no banco, com o rosto sereno como se o mundo tivesse parado de ferir por alguns instantes, eu soube. Aquele cheiro de pêssego não era acaso. Aquela mulher não era coincidência. Ela era problema. Ela era perigo. Ela era uma lembrança viva de tudo que eu jurei nunca sentir outra vez. Mas, enquanto dirigia e a observava dormir, o que me assustou não foi o desejo. Foi a paz estranha que ela trouxe para dentro do carro. Como se o silêncio dela tivesse encontrado lugar dentro de mim. Talvez eu devesse ter evitado tudo ali. Mas não evitei. Eu deixei acontecer. Porque quando ela encostou a cabeça no vidro e murmurou meu nome dormindo… eu entendi que estava perdido. Mesmo sem saber que, naquela noite, Mariana assinou um destino comigo. Sem saber que o homem desconhecido que cuidou dela era o mesmo bilionário de quem ela fugiria no dia seguinte. E eu, Elias Andrade, percebi tarde demais: algumas mulheres não entram na nossa vida. Elas invadem. E queimam tudo o que tocam.
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