Eu não sabia que vergonha também dava gosto metálico na boca, mas era exatamente assim que eu me sentia quando abri os olhos. Boca seca, língua pesada, cabeça latejando como se o mundo tivesse dançado em cima dela com salto agulha. Levei a mão à testa e fiz uma careta. O teto que eu encarava era branco demais. Liso demais. Não era o teto do meu quarto.
Meu peito apertou.
Eu me virei devagar, com medo do que encontraria. O lençol era macio, cheiroso, de um algodão caro que eu reconhecia só de encostar. A janela ocupava quase a parede inteira, e além dela a cidade se derramava em prédios, luzes pálidas de manhã nublada e um pedaço de céu que parecia cansado.
Não era minha casa.
Não era o quarto de hóspedes de ninguém que eu conhecia.
Não era lugar nenhum que eu pudesse nomear.
Foi quando percebi a camiseta.
Um tecido grande, cinza, caindo um pouco além do meu ombro, deixando à mostra a alça inexistente de um sutiã que eu não usava. Eu estava nua por baixo. Meu coração disparou como sirene.
Eu me sentei de supetão, o corpo protestando, e senti o tecido deslizar sobre a pele nua das coxas. Corri os olhos pelo quarto, tentando juntar as peças da noite anterior. Festa. Música alta. Um bar. Um copo. Dois. Três. Um par de olhos escuros me encarando do outro lado. O cheiro dele amadeirado mexendo comigo. O meu cheiro Pêssego me dizendo me alertando e algo masculino me envolvendo.
E a minha própria voz, embriagada, sem filtro, cuspindo verdades que eu jamais diria sóbria.
Eu engoli em seco quando a frase me atravessou inteira, como um tapa que eu mesma dei no meu rosto:
Eu te daria aqui mesmo no banheiro da festa.
Meu estômago revirou.
Não. Eu não tinha dito isso.
Eu não poderia ter dito isso.
Eu… disse.
Levei as mãos ao rosto, quente de vergonha. Tentei lembrar o depois. Lembrei do braço dele me segurando pela cintura. Do jeito como meu corpo encaixou no dele como se já conhecesse aquele formato. Lembrei da sensação de estar sendo carregada, deitada num banco de carro, o mundo passando em borrões pela janela. Lembrei do cheiro que grudou na minha pele, do peito dele sob meu rosto, firme, quente.
Eu não lembrava de ter chegado a este quarto. Não lembrava de ter tirado meu vestido. Não lembrava de ter colocado esta camiseta. Não lembrava de ter deitado. E isso me deixou mais assustada do que eu queria admitir.
Um medo velho esticou o corpo dentro de mim.
Gustavo.
Aquela vez em que ele disse que eu tinha chorado, que eu tinha implorado por ele, e eu não lembrava de metade da noite. A sensação de invasão. De culpa que, no fundo, eu sabia que não era minha, mas que grudava como se fosse.
Respirei fundo. O cheiro do quarto invadiu minhas narinas. Não era o meu perfume, não era o cheiro da casa dos meus pais. Era ele. Amadeirado, limpo, caro, misturado com um leve resquício de café preto.
Eu não estava num quarto de motel barato.
Eu estava num apartamento luxuoso.
O piso era de madeira escura, brilhando. Um tapete grosso se espalhava diante da cama. Havia uma poltrona de couro num canto, uma luminária alta, um quadro com arte afro centrada na parede, rostos negros, coroas douradas, olhos fechados como uma força silenciosa.
Quem quer que morasse ali não era qualquer um.
Era alguém que sabia o valor da própria história.
Meu peito relaxou meio centímetro. Ainda assim, o medo e a vergonha se abraçavam dentro de mim.
A maçaneta da porta girou com um clique suave, e eu quase pulei da cama.
A porta se abriu.
E ele apareceu.
Corpo molhado. Toalha branca enrolada na cintura. Ombros largos, peito definido, gotas de água escorrendo preguiçosas pela pele escura, descendo em caminhos que a minha boca não deveria estar imaginando. O cabelo curto ainda úmido, o rosto sério, mas com um cansaço antigo nos olhos.
Meu corpo reagiu antes da minha razão. Senti um calor subir pelas coxas, uma lembrança do que eu tinha dito, do que eu não lembrava, do que podia ou não, ter acontecido.
Porra.
Que despedida de solteira foi essa?
Eu queria lembrar.
Ele me olhou por inteiro, mas não de um jeito sujo. O olhar dele desceu, viu minha perna descoberta, a barra da camiseta roçando mais alto do que deveria, e subiu de novo para o meu rosto como se tivesse puxado o próprio desejo de volta pelo colarinho.
Ele não sorriu.
Não precisou.
Só apontou para o criado-mudo ao lado da cama, com um gesto breve de queixo.
— Água — ele disse, voz grave, baixa, acariciando o ar. — E um comprimido pra ressaca. Ainda tá na embalagem, antes que pense alguma besteira.
Eu virei o rosto e vi: um copo grande com água e uma cartela com um comprimido redondo, intacto.
Por algum motivo, aquilo me fez respirar.
Se estivesse aberto, se estivesse esmagado, se qualquer coisa ali parecesse mexida, eu teria entrado em pânico.
Peguei a cartela, tirei o comprimido com dedos um pouco trêmulos, coloquei na boca e bebi a água como quem engole mais do que remédio. Engoli também um pouco de orgulho, uma parte do medo, um bocado de vergonha.
Ele se apoiou na lateral do batente, ainda de toalha, como se fosse a coisa mais natural do mundo estar quase nu diante de uma mulher que acordou na cama dele. Mas o clima não era de conquista barata. Havia um cuidado estranho ali, silencioso, pesado.
— Eu… — comecei, sem saber por onde cortar a corda da situação.
Ele ergueu uma das mãos, num gesto calmo.
— Antes que você pense qualquer coisa, eu vou deixar claro — disse, me encarando como se soubesse exatamente o que passava pela minha cabeça. — Eu não troquei sua roupa. E riu com canto da boca, ele era lindo, desculpa ter usado o banheiro, o outro está em reforma.
As palavras caíram no quarto como pedras arrancadas do meu peito.
Ele continuou:
— Foi a Joana, minha funcionária. Ela é casada, tem cinquenta e poucos anos, trabalha comigo há anos. Eu pedi pra ela vir. Ela chegou, te trouxe até aqui, tirou seu vestido, colocou essa camiseta e te cobriu. Eu fiquei na sala até ela sair. Só entrei de novo pra ver se você tinha febre. Não toquei em você. Dormi no quarto ao lado com .. não terminou a frase.
Meu corpo inteiro amoleceu. Uma parte de mim queria chorar de alívio. Outra parte queria se enfiar dentro da fronha e nunca mais sair, só pra não encarar o fato de que eu tinha acordado nua por baixo da camiseta de um homem que eu m*l conhecia.
Eu devia suspirar.
E suspirei.
O ar entrou rasgado e saiu um pouco menos pesado.
— Obrigada… — eu sussurrei, a voz arranhada. — De verdade.
Ele deu de ombros, mas os olhos não acompanharam a indiferença do gesto.
— Você tava m*l — ele disse. — Eu não ia te mandar de volta pra casa daquele jeito. Nem deixar alguém se aproveitar de você.
A palavra “aproveitar” mexeu em algum lugar escuro dentro de mim.
— Eu já… — As palavras travaram, mas saíram. — Eu já passei por algo assim.
Ele me olhou como se isso não fosse novidade pra ele. Como se já tivesse lido isso nas linhas tortas da minha postura, nos recuos do meu olhar, na forma como meu corpo estava sempre pronto pra se defender de um golpe invisível.
— Eu sei — ele murmurou.
Meu coração tropeçou.
— Como assim, você sabe?
Ele hesitou por um segundo. Um músculo pulou em sua mandíbula.
— Eu sei como é quando a gente é traído num lugar onde deveria estar seguro. — A voz dele engrossou, mas não comigo. — Não é difícil reconhecer esse tipo de marca.
Ele não estava falando do meu passado com Gustavo diretamente, mas parecia. Como se a dor dele e a minha conversassem num idioma que não precisa de detalhes.
O silêncio entre nós se deitou no quarto por alguns instantes. Um silêncio espesso, cheio de coisa.
Eu o observei. Não só o corpo — embora fosse quase impossível ignorar a forma como a toalha agarrava nos quadris dele, como a linha do abdômen descia, como a água escorria e sumia ali onde meu olhar não deveria descansar. Eu vi o cansaço nos ombros, a sombra nos olhos, o tipo de peso que não é físico.
— Eu falei alguma coisa… muito i****a ontem? — perguntei, sentindo a vergonha subir antes mesmo da resposta.
Ele encostou a cabeça no batente por um segundo, como se estivesse decidindo quanto me poupar.
— Você falou várias coisas — respondeu. — Mas nenhuma que eu vá jogar na sua cara.
Minha pele queimou.
— Entre essas coisas… — forcei. — Tinha alguma frase… muito… muito…
Ele arqueou uma sobrancelha. Eu quis cavar um buraco no colchão.
— Você tem certeza de que quer saber?
— Não. — Eu fechei os olhos com força. — Mas preciso.
Ele respirou fundo. Quando falou, não havia deboche na voz. Só fato.
— No corredor do banheiro, quando te levei pela saída dos fundos. .— ele disse devagar — você encostou em mim, olhou pra mim e disse: “Eu te daria aqui mesmo no banheiro da festa.”
Eu queria morrer.
Ali.
Na hora.
Levei as mãos ao rosto de novo.
— Eu vou sair por essa janela — murmurei. — Vou pular. Depois você só diz pra minha mãe que eu fui abduzida.
Ele riu. E o riso dele não era leve; era rouco, bonito, como se a garganta também carregasse cicatrizes.
— Relaxe — ele falou. — Eu não aceitei.
A frase me pegou desprevenida.
Eu abaixei as mãos, encarando-o.
— Não?
— Não — ele repetiu. — Você estava bêbada, trêmula, com o coração quase saindo pela boca. Eu já fiz muita coisa errada na vida, mas essa nunca entrou na minha lista. Se eu um dia te quiser… — Ele deixou a frase suspensa no ar por um segundo loooooongo demais. — …vai ser sóbria. E dizendo sim porque quer, não porque está tentando esquecer um não que o mundo te deu.
Meu estômago virou numa mistura de humilhação, respeito e um desejo que eu não queria estar sentindo. Eu não estava acostumada com homem dizendo “não” pra uma oportunidade tão óbvia. Não depois de Gustavo. Não depois de tantas histórias que eu colecionei de amigas que foram tocadas quando estavam vulneráveis demais pra reagir.
Ali, sentada na cama dele, de camiseta e pele nua por baixo, eu percebi que aquele desconhecido não era só corpo bonito e dinheiro óbvio.
Ele era limite.
Ele era controle.
Ele era protetor.
Ele era… perigoso de outro jeito.
Porque não era o tipo de perigo que machuca o corpo.
Era o tipo que mexe com a alma.
— Obrigada — repeti, mais firme. — Você não tinha… obrigação nenhuma de cuidar de mim.
Ele me olhou com uma atenção que pesava.
— Tinha, sim — ele corrigiu. — Eu estava lá. Eu ouvi suas verdades. Eu fiz uma proposta que você nem vai lembrar direito depois. O mínimo que eu podia fazer era garantir que você acordasse inteira.
Meu coração travou.
— Proposta?
Ele apertou a toalha na cintura com uma das mãos, como se precisasse de algo físico pra se ancorar.
— Você não lembra de nada?
Eu fechei os olhos por um instante, tentando puxar o fio da memória. Fragmentos voltaram em flashes: minha voz dizendo que não queria casar. A dele dizendo algo sobre contrato. Minhas palavras se jogando num acordo absurdo, porque qualquer coisa parecia melhor do que a gaiola dourada que minha família construíra.
Meu peito subiu e desceu.
— Lembro de… algumas coisas. De falar que… faria um contrato com você. Um ano. — Meu olhar se encontrou com o dele. — Isso aconteceu mesmo?
Ele sustentou o contato com uma firmeza que me arrepia até agora.
— Aconteceu. E você disse que era pra mim te lembrar, mas que você nunca esquece de uma promessa.
O ar ficou denso.
— E você…?
— Eu levei a sério — ele disse, simples. — Mas a gente fala disso quando a sua cabeça não estiver batendo tambor.
Eu deveria dizer “não”.
Deveria levantar dessa cama, colocar meu vestido, sumir dali, fingir que ele foi só um erro alcoólico no meio do desespero. Deveria voltar pro plano original: ser a noiva obediente, cumprir a promessa, salvar a família e me perder no processo.
Mas algo no jeito como ele me olhava — sem pena, sem pressa, sem posse — fez uma rachadura no meu roteiro ensaiado.
Eu assenti, engolindo seco.
— Tá.
Ele se endireitou, afastando-se da porta.
— A Joana vai subir daqui a pouco com roupas suas. Eu mandei um motorista buscar na sua casa. — Ele fez uma pausa. — Você ligue pra sua família. Não quero ninguém achando que você desapareceu.
Uma parte de mim se irritou com a forma como ele falava, mandando no fluxo das coisas como se estivesse habituado a resolver a vida dos outros com frases curtas.
Outra parte se sentiu… estranhamente segura.
— E você? — perguntei. — Quem é você, afinal?
Ele parou à beira do corredor. Virou apenas o suficiente pra que eu visse metade do rosto, o traço forte do maxilar, a gota de água escorrendo do queixo até o ombro.
— Elias — ele disse. — Só Elias, por enquanto.
E sumiu do meu campo de visão, deixando comigo a ressaca, a camiseta, o gosto de remédio… e a sensação de que, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha desabado no colo de um homem que não aproveitou isso pra me quebrar ainda mais.
E isso, pra quem vinha de onde eu vim, já era perigoso o suficiente pra chamar de início.