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Celine chegou no hotel animada com uma grande sacola de croissants e tortinhas. Ela sorria largo somente em imaginar a reação do homem que foi tão grosseiro com ela e que por ter agido tão m*l, pagaria o seu café da manhã. Mas ele tinha chamado sua atenção, não pela sua grosseria ou pelo seu tamanho absurdamente grande, nem pela forma séria que se comportava, ou pelo seu jeito de se vestir tão impecavelmente, tampouco pelas suas tatuagens que ela sempre gostou e achou atraente em homens. Mas o seu olhar, o olhar dele tinha um mistério que lhe atraia, algo nos olhos dele a seduzia, mas aqueles olhos também guardavam segredos que ela adoraria desvendar.
Da sacada do quarto do hotel, a vista era belíssima, mas não era o que ela iria ver em suas manhãs, seus minutos naquele lugar estavam contados e logo estaria instalada na casa de um completo desconhecido, onde passaria um mês à espera da chegada de sua família, onde em trinta dias teria que conviver diariamente com um homem que nunca tinha visto em sua vida e não só na casa dele, mas que teriam que trabalhar juntos também.
— Celine, você é louca. Como faz isso com um estranho? Você nem sabe quem ele é. E se por acaso você encontrá-lo novamente? Já passou pela sua cabeça que ele pode te procurar para cobrar isso que fez? — A irmã de Celine lhe enchia de perguntas pelo celular, após ela falar da sua pequena aventura e travessura de mais cedo.
— Calma Karine, vamos por partes, vou responder suas perguntas. Primeiro, ele era um estranho muito arrogante e egoísta. Que custava dividir um pedacinho da mesa dele? No lugar dele, eu dividiria. Ele só estava apenas tomando um cafezinho. Segundo, acho impossível eu encontrá-lo novamente, só se for naquele mesmo café, caso ele seja um cliente regular, mas eu não vou ir lá com frequência. Terceiro e último, o terno que ele vestia, o relógio que ele estava usando e os sapatos que estava calçando não é qualquer um que pode pagar por eles, então, não é o tipo de homem que iria atrás de uma pessoa por causa de 25 euros, isso é algo tão irrelevante para ele quanto um grão de areia na praia. — Falou sem se preocupar.
— Talvez não pelo dinheiro, mas pela sua audácia. Eu no lugar dele iria e ainda cobrava o meu dinheiro, só por você ter agido assim. Você foi malcriada e indelicada sim. Ele foi arrogante e egoísta e você agiu como uma garota de doze anos mimada querendo aparecer e chamar atenção. — Karine disse do outro lado da tela.
— Quem tem você como irmã não precisa de inimigos. Seu espírito de justiça às vezes é c***l. Eu sou sua irmã, esqueceu? — Perguntou, mordendo uma tortinha de morango, que derreteu em sua boca.
— Não, eu não esqueci e às vezes acho que eu sou a mais velha. Talvez nossos pais tenham se confundido com as nossas idades. — Respondeu.
— Você é uma chata! Precisa sair um pouco da bolha e não ver as coisas com tanta seriedade assim, o mundo já é triste e c***l demais para não nos divertirmos um pouco. — Karine negou.
— Celine, a realidade vai muito além dos livros que você lê, não estamos em um conto de fadas e o cara que você provocou na confeitaria pode ser qualquer coisa, inclusive alguém muito m*l com péssimas intenções. — Celine riu.
— Não sei se ele é m*l, ele parece mais que saiu de um filme desses de super herois, sei lá, tem um porte físico tipo o aquaman, ou o superman? Não sei, só sei que parece um guarda-roupas. Sabe aqueles caras grandes, fortes e lindos? — Karine bufou, passando as mãos pelos cabelos.
— Você é uma mulher com 32 anos, Celine. Precisa mudar seu comportamento e encontrar a seriedade que a sua idade e profissão pede. — Aconselhou.
— Eu não quero ser séria assim. A vida já é amarga demais, séria demais para que eu deixe a minha essência e espírito alegre. Eu não vou fazer isso, sou feliz assim e sinto muito se isso te incomoda, se ser assim envergonha você e os nossos pais. — Falou, dessa vez mudando sua expressão.
— Você não envergonha os nossos pais, eles adoram seu jeito, mas confesso que às vezes você me deixa envergonhada. Eu te amo, amo muito, você sabe disso, mas tem horas que você faz e fala coisas que me deixam desconfortável. — Respondeu com sinceridade.
— Eu amo a sua sinceridade e amo muito você também. Sinto muito por te envergonhar, no futuro espero não fazer mais isso. Na sua presença tentarei me controlar. — Respirou fundo e sorriu. — Mas cadê os nossos pais? — Perguntou.
— Eles saíram para resolver algumas coisas sobre a mudança e a transferência da empresa daqui para Madrid. Eu também vou trabalhar na empresa quando chegar aí. — Disse Karine.
— Isso é uma ótima notícia, que bom que resolveu trabalhar conosco. — Disse.
— Sim. Ah, tem mais uma novidade: o papai desistiu daquele apartamento e optou por uma casa mesmo, na verdade uma mansão. Além disso, ela não precisa de reforma e a decoração vai ser bem mais rápida que a do apartamento. — Celine sorriu, feliz com a nova aquisição dos seus pais. Mas não voltaria a morar com eles em Madrid.
Ela tinha planos para o seu futuro, planos onde ela queria sua independência e não ser mais questionada sobre sua vida pessoal. Queria poder ter seu próprio lugarzinho, do seu jeitinho e ir e vir sem dar satisfações.
— Bom, agora eu preciso desligar, daqui a pouco o motorista do amigo do papai vem me buscar. — Karine sorriu.
— Você está ansiosa para conhecer o homem que vai te ter como hóspede por um mês? — Ela negou.
— Nem um pouco. Se o papai diz que ele é confiável e um homem gentil como o pai dele, eu acredito e sei que não teremos nenhum problema. Vamos trabalhar juntos, temos que ter uma boa convivência. — Disse sorrindo.
— Acho que o papai e o amigo dele querem bem mais do que apenas uma parceria de trabalho entre vocês dois. — Celine riu.
— Agora quem está fantasiando as coisas, indo além da realidade é você. — Brincou.
— Ah, eu não ficaria surpresa se os dois revelassem que vocês estão prometidos e que terão que se casar. — Riu.
— Meu Deus, Karine, isso não. Isso nunca, jamais eu aceitaria algo desse tipo, e o papai não é do tipo que faria isso com suas filhas. — A expressão no rosto de Celine era engraçada.
— Ah, seria interessante ver você se casando com um desconhecido. — Gargalhou.
— Então é isso que você deseja para sua irmã? Você deve me amar muito mesmo. Vou até finalizar essa ligação, ela já deu o que tinha que dar. — Karine negou.
— Não fique com raiva, eu estou brincando, sua boba. — Brincou.
— Eu não fiquei. Mas é que eu tenho que ir mesmo, não quero deixar as pessoas esperando e causar uma má impressão logo no primeiro encontro. — Respondeu.
— Vai lá e não esquece de ligar ou mandar mensagem falando sobre esse homem tão perfeito que o papai tanto elogia. — Karine pediu.
— Tudo bem, eu ligo a noite para você. Antes de ir até a casa dele eu já irei conhecer onde vou trabalhar com ele e confesso que essa é a minha maior curiosidade. Fala para os nossos pais que eu liguei, até mais tarde. — Sorriu, acenando para a irmã, em seguida finalizou a chamada de vídeo.
Celine juntou suas coisas e em seguida recebeu uma ligação da recepção do hotel, informando que o motorista de Alan já se estava à sua espera.
— O senhor percebeu que destruiu a decoração da minha sala? — Perguntou Maximus, irritado com o pai.
— Decoração? Desde quando se preocupa com essas coisas? — Perguntou surpreso.
— Eu sempre me preocupei com um ambiente de trabalho harmonioso, onde eu pudesse trabalhar em paz. Sabe quantos designers de interiores eu tive que procurar até encontrar alguém que me entregasse esse resultado? — Alan negou rindo.
— Por que você está tão nervoso? Está agindo assim por causa da mesa na sua sala ou por que terá que dividir seu espaço com outra pessoa, uma mulher? — Maximus negou freneticamente.
— Não estou bravo com isso. Só queria ter sido informado sobre tudo antes e não às vésperas dessa mulher chegar. Em poucos minutos ela vai entrar por essa porta e eu terei que fingir que estou de acordo com tudo e que estou bastante feliz em recepcioná-la em minha casa, em dividir a minha sala com ela e principalmente em tê-la como companheira de trabalho. — Falou irritado.
— Eu espero que você trate essa moça muito bem e lhe dê todo o suporte que ela precisa, não eu não espero, eu exijo, Maximus Wade. — Ele ficou ainda mais irritado.
— Será que dá para o senhor não me chamar de Wade? — Perguntou.
— Mas esse é o seu nome. — Disse.
— Eu odeio esse nome, não sei porquê me deram um segundo nome tão ridículo. — Respondeu.
— Sabe que se falar isso para a sua mãe vai magoá-la bastante, foi escolha dela esse nome. — Ele respirou fundo.
— Ela nunca vai saber disso, eu não pretendo magoá-la. — Deixou seu pai mais calmo.
— Acho bom mesmo, você é o único que nunca nos deixou magoados, bravos ou tristes. — Maximus ergueu as sobrancelhas.
— Bem que o senhor deveria levar isso em consideração e não me colocar em uma situação como essa que me colocou agora. — Respondeu.
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Depois você vai me agradecer por estar fazendo isso. — Quando Maximus pensou em retrucar, batidas foram ouvidas na porta da sala do filho. — Ouça! É ela. Seja educado e não se esqueça, essa moça e a irmã dela são filhas de um grande amigo, o que faz delas pessoas de muita importância para mim. — Sussurrou, para que ninguém do outro lado da porta os ouvissem.
Maximus respirou fundo, tentando colocar a sua melhor expressão de satisfação em estar sendo basicamente forçado a ser um babá para a mulher que ele só sabia o nome e quem ele teria que tratar muito bem ou pelo menos tentar. Maximus não queria ter problemas com o seu pai, então ser o mais simpático possível era o que ele pretendia fazer.
— Boa tarde! — A voz da mulher não lhe soou estranha.
— Boa tarde, finalmente estou conhecendo uma das filhas do meu grande amigo, o que é vergonhoso diante da amizade de anos que temos. — Alan disse, ficando cara a cara com Celine, impedindo que seu filho visse a mulher.
— Para tudo tem o seu tempo. É uma grande satisfação conhecê-lo, meu pai sempre falou muito bem do senhor. — Cumprimentou o grisalho.
— Ele sempre falou muito bem das filhas dele e quando lhe contei sobre o projeto que tinha em mente, ele não demorou em indicar você. — Respondeu sorrindo. — Venha, entre e conheça o meu filho Maximus. — Celine tinha um sorriso gentil nos lábios.
Maximus já tinha dado alguns passos em direção ao seu pai, Alan então se afastou, liberando o campo de visão de ambos, permitindo que os dois ficassem frente a frente. O casal se encarou e em poucos segundos, vários pensamentos diferentes se passaram pelas cabeças de ambos.
— Você? — Perguntou, quando finalmente viu de quem se tratava.
Maximus xingou mentalmente por ser exatamente a mulher que o tinha irritado no café mais cedo e que tinha ocupado seus pensamentos durante todo o dia e quem ele ia hospedar em sua casa e trabalhar com ela em um dos projetos mais importantes da sua carreira. Por outro lado, Celine ficou tensa, não desejava encontrar nunca mais aquele homem que tinha sido tão grosseiro com ela, mas era ele, bem diante dos seus olhos e agora de pé parecia uma parede de músculos, fazendo-a ter certeza que era como uma joaninha perto dele. No entanto, ela era sagaz, e o sorriso continuou nos seus lábios, mostrando calma e serenidade.
Contudo, Alan percebeu a tensão que se instalou entre os dois e a pergunta do seu filho o deixou curioso. Aquela pergunta significava que os dois já tinham se visto e até mesmo se conhecido.
Mas de onde eles se conheciam?