Capítulo 4

1087 Words
Capítulo 4 — Peso que não se divide Narração: Lipe Tem coisa que a gente assume sem perceber o tamanho de verdade, só entende o peso quando já tá com tudo nas mãos e não tem mais como largar, e foi exatamente assim quando o Comandante caiu, porque até aquele dia eu era o cara que executava, que resolvia, que fazia acontecer, mas sempre tinha alguém acima pra dar a palavra final, alguém que carregava a responsabilidade maior, e quando ele foi levado, tudo isso veio direto pra mim sem aviso, sem preparação e sem espaço pra erro. O morro na Rocinha nunca foi lugar fácil de segurar, mas depois que ele saiu de cena, parece que todo problema resolveu aparecer ao mesmo tempo, como se n**o estivesse só esperando uma brecha pra testar limite, pra ver até onde eu ia aguentar, até onde eu tinha controle de verdade ou se aquilo tudo ia começar a desandar. E não é só tiro, invasão e disputa de território que cansa, porque isso aí a gente já tá acostumado, já sabe como funciona, já entra no automático, o complicado mesmo é o resto, é gente que não cumpre ordem, é aliado querendo crescer mais do que pode, é informação chegando pela metade, é decisão que precisa ser tomada rápido sabendo que qualquer erro pode custar muito mais do que só dinheiro ou ponto perdido. Eu sempre fui de resolver as coisas sem fazer muito barulho, sem precisar mostrar demais, mas quando você tá na frente, não tem como ficar na sombra, não tem como evitar olhar, cobrança e responsabilidade, e isso muda tudo, porque cada movimento seu passa a ser observado, cada decisão vira referência e qualquer vacilo vira oportunidade pra quem tá esperando você cair. Teve dia que eu m*l parei, virando noite sem sentir, resolvendo uma coisa atrás da outra, sem tempo pra pensar em mais nada além do que precisava ser feito naquele momento, porque parar ali significava perder ritmo, e perder ritmo naquele lugar é dar espaço pra problema crescer. Mas, mesmo no meio de tudo isso, teve coisa que ficou mais pesada do que o resto, coisa que não tinha a ver com o morro em si, mas com o que ficou pra trás quando o Comandante caiu. Eu conheço aquele cara há tempo suficiente pra saber que pouca coisa mexe com ele de verdade, porque ele sempre foi fechado, sempre segurou tudo dentro dele, sempre resolveu problema sem expor fraqueza, mas teve um momento que nem ele conseguiu esconder, e foi quando ele mandou a Vanessa ir embora com a filha. Aquilo ali não foi decisão de chefe, foi decisão de homem tentando proteger o que não cabia dentro daquele mundo, e mesmo entendendo o motivo, mesmo sabendo que era o certo, não deixou de ser pesado de assistir. Eu tava lá naquele dia, não dentro da casa, mas perto o suficiente pra entender o clima, pra sentir que tinha coisa séria acontecendo, porque quando o Comandante fica daquele jeito, andando de um lado pro outro, sem paciência, sem foco, é porque a situação passou do ponto. Depois que ela saiu, eu vi ele sozinho, coisa rara, parado sem fazer nada por alguns segundos, como se estivesse tentando organizar a própria cabeça, e aquilo ali me marcou mais do que qualquer discussão ou ordem que ele já deu, porque não era o líder que tava ali, era só um cara que tinha acabado de perder o que mais importava. Ele nunca falou muito sobre isso, nunca entrou em detalhe, nunca ficou remoendo na frente de ninguém, mas não precisava, porque quem conhece sabe, quem vive junto percebe, e dava pra ver que aquilo ficou, que aquilo não foi só uma decisão jogada pra resolver problema, foi uma escolha que ele carregou depois, mesmo sem admitir. Quando ele caiu, essa foi uma das primeiras coisas que passou pela minha cabeça, não só o morro, não só o que ia acontecer com tudo, mas também aquilo que ele deixou pra trás, porque eu sabia que, independente de qualquer coisa, família sempre foi o ponto que mais pesou pra ele, mesmo que ele nunca tenha mostrado do jeito comum. Assumir o comando foi automático, não teve reunião, não teve votação, não teve conversa longa, porque ali não funciona assim, quem pode assume, quem não pode obedece, e eu sabia que não tinha outro nome pra segurar aquilo naquele momento. Só que saber não deixa mais fácil. Cada dia traz uma coisa nova, um problema diferente, uma situação que precisa ser resolvida na hora, sem espaço pra erro, e o pior não é nem o risco, porque isso faz parte, o pior é a constância, é saber que não tem pausa, que não tem descanso, que não tem ninguém acima pra dividir peso. Tem hora que o corpo cansa, mas a mente não desliga, porque sempre tem alguma coisa rodando, alguma decisão pendente, alguma movimentação que precisa ser observada, e isso vai acumulando de um jeito que nem sempre dá pra controlar. Mesmo assim, parar não é opção. Porque quando você tá na frente, não é só sobre você, é sobre todo mundo que depende daquilo continuar funcionando, e isso é o que segura, isso é o que mantém o foco, mesmo quando o resto começa a pesar mais do que deveria. Eu não sou de ficar olhando pra trás, nem de ficar pensando em “e se”, porque isso não resolve nada, mas tem coisa que marca, tem situação que fica na cabeça, e aquela decisão do Comandante foi uma delas, não só pelo que aconteceu na hora, mas pelo que eu sei que ficou depois. Ele abriu mão de algo que ele queria pra proteger, e mesmo sabendo que era necessário, não deixou de ser perda, não deixou de ser escolha difícil, e isso muda qualquer um, mesmo que por fora pareça o mesmo. Eu segurei muita coisa depois que ele caiu, resolvi problema que nem sempre dava pra resolver do jeito certo, tomei decisão que nem sempre agradou todo mundo, mantive tudo funcionando do jeito que precisava, porque era isso que tinha que ser feito, e eu nunca fui de fugir de responsabilidade. Mas tem coisa que não é sobre resolver, não é sobre estratégia, não é sobre comando. Tem coisa que é sobre consequência. E uma hora ou outra, tudo isso volta. Porque o que foi deixado pra trás não desaparece. Só fica esperando o momento certo pra aparecer de novo.
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